Mérito Empresarial

A Saúde e o Remorso

Publicado em: 28 de agosto de 2017 às 09h10
Sebastião Correia da Silva

(Artigo publicado pelo Jornal CCO impresso em 26/08/2017) - Edição 1910

Sebastião Correia da Silva

Saudade é um desconforto da alma que todo ser humano sente, mas nunca se preocupou com o conceito dela, limitando–se apenas a senti-la e se recordar do motivo que a provoca. Então, num conceito mais amplo, Saudade é o sentimento de privação de um bem precioso que outrora a gente possuiu, mas que ora não está mais ao nosso alcance. Simplificando: Saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou.  As definições são minhas e ninguém é obrigado a aceita-las como únicas e verdadeiras. Cada um, se quiser, faça a sua, já que sentimento é uma coisa pessoal e cada um conceitua do jeito que achar mais condizente.

Quanto ao Remorso, nem todas as pessoas o sentem, porque nem todas são dadas a praticar atos mesquinhos, que possam provocar tal sentimento.  Então, Remorso é um sentimento punitivo, é um instrumento de tortura, que age na pessoa que tenha praticado alguma malfeitoria contra algo ou alguém a que não temos mais acesso.  Trocando em miúdo, Remorso é aquilo que fica, por causa daquilo que praticamos contra aquilo que não ficou.  É sabido também que pessoas de má índole não sentem remorso de nada, e, talvez, nem saudade de nada e de ninguém.

Saudade e Remorso são sentimentos bem diferentes, mas podem ser confundidos por quem os sente. A pessoa pode sentir remorso, mas pensa ou diz que é saudade, até mesmo por conveniência. Realmente são diferentes, porque a saudade decorre de uma ausência, de um vazio, enquanto o remorso decorre de um ato maldoso, de uma malfeitoria, a qual já não pode ser reparada.  Confidentemente, um amigo me disse estar com muito remorso da deslealdade que praticou contra a esposa que falecera há algum tempo. Estou quase garantido que o leitor também possa já ter ouvido relato semelhante.

De fato, Saudade e Remorso são diferentes, sim. Com efeito, a saudade nos faz cultuar, de maneira bem positiva, a memória do bem que nos provoca a saudade.  A saudade nos induz a lembrar exclusivamente das qualidades do ser saudoso.  Já o Remorso costuma nos fazer recordar de forma negativa, nos fazendo distorcer a memória daquilo que nos suscita o remorso. Agimos assim por conveniência, para amenizar a nossa culpa, para camuflar o nosso erro, para diminuir nossa agonia, e até mesmo para fugirmos do julgamento das pessoas conhecedoras do fato. Neste caso, a gente procura lembrar só dos defeitos de quem é motivo do nosso remorso.

A saudade dói, mas o remorso machuca e dói mais. A saudade fustiga; o remorso castiga. Sendo assim, já que todos nós somos mortais, sujeitos a momentos de indelicadeza, de aspereza, de agressividade, deveríamos evitar tais momentos e procurar conviver com as pessoas, bem como com todas as formas de vida, como se aquele momento fosse o último de nossas vidas, nosso último contato, para que, caso elas partiram antes de nós, fiquemos apenas com saudade delas, e não com remorso por não termos agido com elas da forma cordial que deveríamos ter agido. Então, procuremos ter apenas saudade, remorso não.  Eis que a saudade não mata, mas o remorso, quando não mata, definha, aniquila.

Sebastião Correia da Silva por Sebastião Correia da Silva

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