Natal 2017

Querer e Poder

Publicado em: 12 de fevereiro de 2018 às 08h33
Sebastião Correia da Silva

(Artigo publicado pelo Jornal CCO impresso em 03/02/2018) - Edição 1934

Sebastião Correia da Silva

Querer e poder, filologicamente falando, são dois verbos transitivos diretos, da segunda conjugação. Vivencialmente e pessoalmente falando, quando conjugados no tempo certo e simultaneamente, costumam modificar a vida da pessoa inerente a este procedimento. Eis que o querer já é o primeiro passo para poder. O querer pode ser entendido como desejar, almejar, sonhar, enquanto o poder a gente só pode entendê-lo como aptidão necessária à concretização do querer. Estamos nos referindo ao poder, verbo, e não ao Poder, substantivo.

O querer (também conhecido como força de vontade, perseverança, etc) depende do poder, mas o poder não depende do querer.  O poder é uma condição naturalmente pré-estabelecida para se chegar “la´”.  Qualquer pessoa pode querer qualquer coisa, mas poder é que são elas. Não adianta a pessoa querer algo que está além de suas condições, de suas aptidões, pelo menos momentâneas. Não adianta um pardal querer ser um curió; não adianta uma lagartixa querer ser um jacaré; não adianta  um anão querer ingressar nas  forças policiais porque há se ter uma altura vertical bem maior do que a dele.

Há pessoas que batem no peito e dizem como verdade absoluta: “eu quero, eu posso. Já outras pessoas, para criticar o fracasso de outrem, para botar na berlinda a não realização dum sonho de alguém, arrogantemente, já vai dizendo que “quando não quer é assim mesmo; que faltou querer; que faltou força de vontade; que faltou empenho”. Não é bem assim, porque o querer depende do poder, e o poder depende da capacidade individual, depende das condições disponíveis para alcançar o objetivo desejado. Enfim, depende da pessoa ultrapassar as barreiras entre o querer e o objetivo.

Portanto, ninguém deve querer possuir ou ser mais do que as condições pessoais permitem. Ninguém pode querer comprar um automóvel, sendo que suas condições financeiras permitem apenas uma bicicleta; ninguém deve quere carregar uma tonelada se as condições físicas suportam apenas uma arroba; ninguém deve querer namorar a Bruna Marquesini, se tem condições de namorar apenas a moça da quitanda do lado; ninguém deve querer ser deputado federal se não consegue ser nem vereador local, conforme ora estamos vendo na rede social. Enfim, ninguém deve querer dar um passo maior do que o permito pelas pernas.

Conheço um cara que quis ser muitas coisas na vida, mas suas condições pessoais foram muito incipientes, ou simplesmente não existiam.  Ele desejava ser policial, mas as condições físicas não permitiram; desejava servir o Exército, mas pelo mesmo motivo certamente não seria aceito.  Além disso, residia e se alistou num município não tributário, ou seja, uma cidade que não era obrigada a fornecer material humano ao Exército. Desejou cursar medicina, mas como sair para estudar fora se não tinha boa base educacional e nenhum tostão para nada, além de ser arrimo de uma família com seis pessoas!  Esse cara sou eu.

Sendo assim, o cara, que sou eu, acabou não sendo nada, mas aprendeu a conviver com o nada que é, como também a não querer ser nada além do que pode ser.  Quando não se pode ter ou ser o que se gosta,  o que se pretende, o que se deseja, o que se almeja, o que se sonha, enfim, o que se quer, a gente tem que aprender a gostar do que tem ou do que se é, do que conseguiu ser, desde que tudo esteja de acordo com reta razão e com a vontade de Deus. Então, o querer e o poder têm que caminhar juntos, de mãos dadas, rumo ao mesmo objetivo. Não sendo assim, o desembarque pode ocorrer no meio do caminho e a frustração decorrente  pode trazer uma infelicidade medonha.

Sebastião Correia da Silva por Sebastião Correia da Silva

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