Vende-se Apartamento

Rotina

Publicado em: 05 de março de 2018 às 08h23
Sebastião Correia da Silva

(Artigo publicado pelo Jornal CCO impresso em 24/02/2018) - Edição 1937

Sebastião Correia da Silva

Antes de iniciar o artigo de hoje, cujo título é ROTINA, vou repetir o último parágrafo do artigo da semana anterior, TER e SER, o qual foi publicado sem a última linha. Embora a falha não é minha,  peço desculpa pelo fato. Êi-lo:

Há pessoas que têm tudo, e, no entanto, não são nada.  São insensíveis, gananciosas, são egoístas, perdulárias, sovinas, pães-duros. São verdadeiros trastes que não valem o ar que respiram. Por outro lado, há pessoas que não têm nada de seu, não possuem sequer um bem material, mas são tudo. São generosas, são bondosas, são educadas, são altruístas, são honestas, estão sempre disponíveis, prontas para ajudar em tudo e a todos naquilo que podem, e até no que não podem.  Estas sim, estas são a prova incontestável de que o SER é mais importante do que o SER.

ROTINA.
Rotina, no sentido técnico, é um conjunto sequencial de passos a serem seguidos para o cumprimento de uma tarefa e se chegar a um resultado satisfatório. Neste caso, rotina  é um caminho, é um esquema, é um conjunto de instruções normas  compulsórias. Todavia, a rotina mais conhecida por nós são aquelas coisas, aquelas tarefas, aquelas atividades que a gente faz ou não faz todos os dias.  Executar um mesmo trabalho todos os dias é uma rotina; ficar sem fazer nada todos os dias também é uma rotina.

Com efeito, quando se fala em rotina, a gente já pensa em algo repetitivo, massante,  cansativo, tedioso e até desanimador, que dever-se-ia ser evitado a todo custo. Entretanto, não é bem assim, pois tudo acaba tendo o lado bom e o lado ruim.  É claro que há a rotina desconfortável, desagradável, desoladora, mas há também a rotina saudável, agradável, confortável, esperada com entusiasmo. A rotina costuma ser tão mal vista que só a menção do termo já gera lamentações.  Contudo, repetindo, não é bem assim. E a gente deve observar ambos os lados dela.

Todas as pessoas, quer sejam criança, jovem, adulto ou idoso, têm suas rotinas específicas.  A dona de casa, por exemplo, enfrenta uma rotina, segundo ela, mais exaustiva do que as demais.  De fato, ela levanta cedo, prepara o café e o desjejum para o marido e os filhos se alimentarem e irem para o trabalho e à escola, respectivamente. Em seguida continua sua rotina diária, que é fazer a comida, lavar a roupa, cuidar do asseio da casa, para esperar o regresso dos seus “dependentes”.  Algumas costumam reclamar desta rotina, mas felizes daquelas  que ainda possuem recurso para cumprir esta rotina.

Embora muita coisa tenha mudado, para melhor ou mesmo para pior, a rotina de boa parte das mulheres continua sendo esta.  Inclusive há aquelas que enfrentam duas rotinas diárias, sendo uma em casa, outra no trabalho. Elas começam, logo cedo, a rotina doméstica, interrompem-na, vão para o trabalho fora de casa, onde cumprem toda a rotina formal do seu ofício, retornam ao lar, e continuam rotina interrompida, até altas horas da noite, ou mesmo até toda a noite, quando ainda estão cuidando de crianças de berço. Realmente é muito exaustivo.

Quanto aos adultos trabalhadores, a rotina é levantar no horário compatível, pegar a condução, ir bater o ponto no seu local de trabalho e enfrentar o dia-a-dia de um trabalhador. Tal rotina é um pouco diferente, mas também de muita responsabilidade, porque, no que diz respeito aos homens, na maioria das vezes é da rotina do seu trabalho que advém o sustento para o resto da família, que ficou em sua casa administrada pela cumpridora da rotina mais exaustiva, ou seja, a dona do lar, sem a presença da qual a rotina doméstica quase nunca é cumprida.

Todas as duas rotinas são passíveis de lamúrias, mas, triste, triste mesmo, é a rotina de um desempregado em busca de emprego. O infeliz levanta cedo, toma um café solitário, isto quando tem insumos para o café. Pega a condução ou sai à pé porque não tem o dinheiro do passe; vai batendo de porta em porta, entregando currículo de empresa em empresa, até enquanto tem força para prosseguir na busca por uma colocação no mercado de trabalho.  À noite volta para casa, desiludido, sem nenhuma esperança de encontrar o desejado emprego. Isto não é rotina, mas, sim, um terrível pesadelo. Pior do que esta rotina, só a de um morador de rua.

Vez ou outra a gente vê pessoas reclamando, injustamente, de suas rotinas.  Sendo assim, antes de reclamarmos de nossa rotina, vamos pensar em que não tem a chance de usufruir de uma rotina como a nossa.  Vamos pensar nos moradores de rua; nos encarcerados que, embora mereçam estar lá, enfrentam uma terrível rotina; pensemos nos desempregados; nos doentes; nas pessoas que cuidam por longo tempo de pessoas doentes, e em outras pessoas que enfrentam rotinas realmente massacrantes. Lembremo-nos de que uma boa rotina é como a nossa mãe, na qual só damos valor depois de perdê-la.

Sebastião Correia da Silva por Sebastião Correia da Silva

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