Empreendedor 2017

Santa Maria X Janaúba; Adultos X Crianças

Publicado em: 23 de outubro de 2017 às 09h45
Sebastião Correia da Silva

(Artigo publicado pelo Jornal CCO impresso em 21/10/2017) - Edição 1919

Sebastião Correia da Silva

O título acima parece o painel de uma partida de futebol ou então a chamada de um programa televisivo, que era exibido antigamente, chamado Cidade contra Cidade. Em tal programa, as duas cidades previamente escolhidas numa lista de cidades inscritas competiam entre si, executando variadas tarefas determinas pelo programa. Para tanto, tais cidades usavam pessoas talentosas, escolhidas no meio das suas populações. O arremedo de ator, Sérgio Malandro, surgiu num desses programas.

Porém, estas linhas que ora escrevo não trata de nada disto, mas, sim, das horríveis tragédias de que estas duas cidades foram palcos. Refiro-me ao terrível incêndio ocorrido há algum tempo, na Boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, quando faleceram 242 pessoas por queimaduras ou por ingestão excessiva de fumaça tóxica.  Refiro-me também a outro incêndio recente, ocorrido em Janaúba, Minas Gerais, onde, até agora, faleceram cerca de 10 pessoas, cuja maioria é formada de crianças que mal haviam começado a viver.

Pois bem! Embora seja muito grande, seja  enorme a diferença entre os respetivos números de vítimas de ambas as tragédias, parece que a comoção social está sendo maior no que concerne ao fatídico episódio de Janaúba, devido ao fato de as vítimas serem crianças, em sua grande maioria.  Com efeito, toda tragédia em que haja crianças no rol das vítimas, a consternação é muito maior, porque criança é uma coisa sublime, uma coisa frágil e, como tal, merece e precisa de todo o cuidado, de toda a atenção, senão seu futuro como pessoa pode ficar comprometido, redundando até em trágicos problemas sociais.

Além disto, há o fato de o incêndio em Santa Maria, embora trágico por demais, haver sido acidental, involuntário, enquanto o de Janaúba foi proposital, intencional, criminoso, levado a cabo por um ser desumano, totalmente desajustado, cuja parteira deveria ter sido uma onça faminta, para devorá-lo logo que nascesse.  Caso o maldito incendiário não tivesse morrido no incêndio, ter-se-iam que mata-lo centenas de vezes, para cobrar o sofrimento causado pela sua loucura.  Além de o incêndio em evidência ter sido criminoso, o mesmo foi ateado numa creche, o que dispensa mais comentários devido ao perfil dos frequentadores.

De fato o incêndio de Janaúba foi ateado numa creche, onde havia mais criaturinhas indefesas do que pessoas adultas, aptas a se defenderem. Já o de Santa Maria, além de haver ocorrido acidentalmente, e numa boate, o fato que o causou foi resultado de gesto extravagante de quem estava ali se divertindo, se esbaldando, naturalmente impulsionado por bebidas alcoólicas ou sabe-se lá o que. É óbvio que ninguém vai a uma boate para beber leite, como as inocentes crianças das creches habitualmente são induzidas a fazê-lo.  Além disto, os presentes na Boate Kiss eram todos adultos, portanto, aptos a, pelo menos, tentarem escapar do perigo iminente.

Nem de longe, estou querendo dizer que quem está se divertindo mereça ser castigado, mereça ser submetido a algum perigo; a algum risco; a algum suplício, principalmente culminando na morte. De forma alguma, minhas palavras insinuam que quem está usando o seu direito ao lazer merece algum castigo. Igual às crianças de qualquer creche, de qualquer escola, de qualquer local, quem está se divertindo de maneira decente, dentro dos padrões normais de comportamento, merece ser poupado de qualquer sofrimento, de qualquer constrangimento, por mais sutis que estes possam ser.

Sendo assim, na simples comparação entre o número de vítimas de ambos os trágicos fatos, o incêndio de Santa Maria ganha disparado, sem nenhuma dúvida, inclusive no número de famílias atingidas pela tragédia, a qual provocou grande comoção social em todo o país.  Entretanto, comparando o perfil das vítimas de ambos os incêndios, o de Janaúba acaba despertando mais comoção, devido ao fato de envolver crianças inocentes e indefesas, não obstante o número de vítimas tenha sido muito menor. Para aumentar mais ainda a comoção, houve o ato heroico da abnegada professora, Helen Abreu, que sacrificou a própria vida para salvar o maior número de crianças.  Tudo, de fato, muito comovente, que ficará para sempre memória de muita gente.

Sebastião Correia da Silva por Sebastião Correia da Silva

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