Mérito Empresarial

Uma história de fé e de humildade

Parte final

Publicado em: 05 de fevereiro de 2018 às 08h58
Sebastião Correia da Silva

(Artigo publicado pelo Jornal CCO impresso em 27/01/2018) - Edição 1933

Sebastião Correia da Silva

Dito e feito. Andando pelas estradas empoeiradas da Judeia, ele recolheu um indigente que estava a Deus-dará, passando calamidades ao relento; levou-o para sua casa e o colocou a seu serviço, lhe dando casa e comida.  Porém, tempos depois, o servo adoeceu, acometido que foi de uma doença grave. Com a doença do servo, Marcos Lucius, bondoso que era, vale repetir, ficou muito preocupado e resignado a salvar seu servo a todo custo, tirando-o daquele sofrimento que parecia não ter fim.  Procurou em todas as imediações todas as formas de curar seu servo, mas todas as tentativas foram vãs.

Depois de exaustiva procura por um remédio eficiente para curar seu servo, eis que ele ouviu falar de um rabino poderoso que fazia milagres extraordinários, fazendo os cegos enxergar, fazendo os aleijados e coxos andarem, soltando a voz dos mudos, enfim, curando todos os tipos de enfermo de corpo e de alma.  Aí, ele teve fé e decidiu procurar o tal rabi, até porque não lhe restava nenhuma alternativa, já que depois de diversas tentativas seu servo continuava cada dia pior. Ademais, segundo o poeta, “quando a bondade entra no coração do homem, ela abre o caminho para fé”. E o centurião teve fé. Muita fé!

Movido pela bondade, pela esperança e pela fé, Marcos Lucius partiu em busca do tal rabino. Partiu sozinho, mesmo sabendo que poderia levar um grande contingente de soldados para protegê-lo dos salteadores das estradas, como também da ira dos judeus, que odiavam os romanos invasores. Conforme foi dito acima, Marcus Lucius, por ser justo e bondoso, era respeitado pelos judeus, mas ele era um romano e como tal, sozinho, corria riscos de ser alvo de vingança de algum judeu mais radical, pois havia muitos deles que não engoliam a presença dos romanos subjugando seu povo.

Depois de andar alguns quilômetros, por várias aldeias à procura do rabino milagroso, Marcus Lucius conseguiu encontra-lo em Cafarnaum.  O tal rabino era nada mais nada menos do que Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual estava junto com os apóstolos, atendendo ao povo como habitualmente fazia.  Vendo-o de tão perto, o poderoso soldado romano, um homem dotado de grande poder, preparado para a guerra, quase não consegue conter sua emoção, ao encontrar aquele sujeito simples, de aparência pobre, vestido com roupas tosca, de quem falavam maravilhas, as quais ele estava prestes a confirmar, o que de fato aconteceu.

Ao se aproximar de Jesus, cheio de fé, esperança e humildade, o poderoso centurião disse: -“Senhor, curai o meu servo”. Jesus respondeu: -“Vou a sua casa curar o seu servo.” O centurião falou novamente: -“Senhor, eu não sou digno de entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será curado.” Espantado com tamanha fé demonstrada por um pagão, Jesus respondeu: - “Pode voltar para sua casa que seu servo já está curado.” E assim aconteceu. Ao chegar em casa, o poderoso centurião romano encontrou seu servo totalmente curado, à sua espera, já com toda sua obrigação doméstica cumprida.  

Eis aí, caro leitor, um fato, uma expressão, uma oração, que atravessou a severidade do tempo e passou para a posteridade. Isto ocorreu há mais de dois mil anos e tal oração, até hoje, é repetida por milhões de pessoas, em todo o mundo, todos os dias. Embora, por conveniência motivada por mudanças de comportamento ocorridas ao longo do tempo, a frase seja pronunciada de forma diferente da original, o sentido e o desejo embutidos nela continuam os mesmos. Hoje em dia ela é dita assim: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”.

Voltemos, então, ao brilhante e extrovertido poeta Flavius Antoninus, o qual fazia belos poemas e que ficaria famoso por séculos e séculos, segundo a concepção do pai de ambos os protagonistas desta história bíblica.  Por acaso alguém conhece alguma obra literária escrita pelo poeta Flavius Antoninus?  Por certo que não! Por acaso alguma obra sua passou para a posteridade como passaram obras do poeta Homero, do poeta Virgílio, de Dante Alighieri, de Luiz Vaz de Camões, bem como de outros menos antigos, mas com tempo passado suficiente, para configurar uma passagem para a posteridade? Também não! Então, a fama efêmera de Flavius Antoninus não resistiu ao tempo.

No que diz respeito ao introvertido e sisudo centurião Marcos Lucius que, num momento de fé e humildade, proferiu a célebre frase bíblica mencionada acima, ocorreu completamente o contrário. Bem ao contrário do que seu velho pai imaginava. Mesmo que não nos lembremos de quem falou, sua fala é lembrada por milhões de pessoas, todos os dias, em todo o mundo, porque suas palavras foram ditas com fé, motivo pelo qual obtiveram o resultado desejado.  Então, lembrando o poeta que narrou esta história de fé, de humilde, de bondade e de milagre, vale repetir a frase escrita no início do texto: “Só tem promessa de eternidade aquilo que resiste ao tempo”.

Sebastião Correia da Silva por Sebastião Correia da Silva

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