| Publicada em: 18/08/2012 por Nayara Vieira às 16:52:24
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Tio e sobrinho dizem que foram agredidos por policiais em Arcos
Fotos: Cristiana Teixeira
Um adolescente de 17 anos e um jovem de 27, juntamente aos familiares, vieram à Redação do CCO na última segunda-feira, 13, e disseram que foram agredidos por policiais militares na noite do último sábado, 11 de agosto. Os dois têm empregos fixos e o adolescente também estuda, no período matutino. Ambos, que são tio e sobrinho, mostraram marcas pelo corpo que eles afirmam terem sido feitas por alguns policiais que estavam trabalhando na noite daquele sábado. Os nomes dos militares não foram revelados.
Segundo os relatos do adolescente e do jovem (que terão os nomes preservados), na noite de sábado eles saíram para caçar um tatu nas proximidades do bairro Floresta com o loteamento que está sendo construído. Eles disseram que tinham visto o animal durante o dia, enquanto trabalhavam, e ambos combinaram de voltar à noite para caçá-lo. Quando estavam no local, por volta de 22 h, foram abordados pela polícia.
O jovem de 27 anos contou que ao avistar a polícia ele começou a correr por medo de ser preso por caçar o animal. “Aí nós vimos um carro chegando atrás da gente. Quando eu vi que era o policial eu comecei a correr. Não é certo correr, mas eu corri. Não sou bandido, mas fiquei apavorado, porque caçar também é crime, né! Aí foi meu erro de correr”, relatou.
De acordo com o jovem, os policiais começaram a agredi-lo, e também ao sobrinho de 17 anos, em busca de arma, que ele afirmou não ter. “Eles já chegaram espancando, e não parava de jeito nenhum. Eles estavam caçando a arma. Eu não mexo com arma, não tinha arma. Eles pegavam sacola e colocavam no nosso rosto, espancando, socando a gente, dando choque, dando murro. [...] Aí depois eles pegaram e falaram que eu era durão demais, que chegando no quartel eu ia virar mocinha. Chegou lá eles me obrigaram a tirar minha roupa, eu fiquei peladinho [...]. Pediram pra eu ajoelhar, ajoelhei, cada um pisou no meu pé, [...] e o outro pegou uma toalha, amarrou na minha cara e o outro ficou jogando água pra me afogar [...]”, relatou.
Segundo o adolescente de 17 anos, ele também foi agredido da mesma forma que o tio. “Me sufocou, me deu choque, me jogou na parede, no chão, me deu chute na barriga”. Segundo o tio, o adolescente também foi agredido nas partes íntimas. “Nas partes íntimas dele, deram cada chute nele, falaram que ele não ia ter filho nunca na vida dele. [...] Eu pedi pra eles não baterem nele, que ele é ‘de menor’[...]. Eles não estavam nem aí [...]”. O adolescente também contou que sangrou o rosto e sofreu ameaças. “Meu rosto sangrou, meu nariz, minha boca e eles me obrigaram a lavar. Ameaçaram cortar meu dedo do pé. [...] Falaram que tem foto minha para me ameaçar na rua, que onde me vissem iam me multar”, detalhou.
“Ameaçou a colocar droga na minha roupa para acusar que eu sou traficante. Eu não sou disso, nunca mexi, não sei nem o que é uma ‘pedra’ ”
De acordo com o relato do jovem de 27 anos, policiais ameaçaram colocar droga na roupa dele para incriminá-lo. “Ameaçou a colocar droga na minha roupa para acusar que eu sou traficante. Eu não sou disso, nunca mexi, não sei nem o que é uma ‘pedra’. [...] Não sei o que é uma droga, não sei o que é nada”. Ambos contaram que as possíveis agressões duraram cerca de duas horas. “Vinte e duas horas até meia-noite na tortura. [...] Duas horas na tortura, só apanhando”.
Segundo o jovem de 27 anos, após os policiais entenderem que eles não eram bandidos, os soltaram e afirmaram que ambos não teriam problemas com a polícia pelo fato de estarem caçando o tatu. Após serem soltos, o adolescente foi para casa acompanhado do tio e a mãe dele os levou ao Pronto Atendimento Municipal, onde foi feito exame de corpo de delito. De acordo com o que eles relataram, nenhum boletim de ocorrência sobre a agressão foi registrado pela Polícia Militar, que ao ser acionada teria informado que o registro não seria feito. O jovem e o adolescente informaram que foi feito o boletim de ocorrência contra eles (referente à caça do animal). A família do adolescente e do jovem informou à equipe de reportagem que na manhã da última terça-feira, 14, foi registrado o B.O., mas na Delegacia de Polícia Civil.
Comando da PM diz não ter conhecimento do fato
A equipe de reportagem do CCO foi até o quartel da Polícia Militar na tarde da última segunda-feira, 13, e conversou com o capitão Wellington Levy. Até aquele momento ele informou que o comando da PM em Arcos não havia sido procurado para registro de reclamação relacionado ao fato. A equipe tentou ter acesso ao B.O. que o adolescente e o jovem disseram ter sido registrado contra eles, mas não conseguiu, por não ter informado os nomes dos envolvidos. Na tarde da última quinta-feira, 16, a equipe do CCO voltou a entrar em contato com o comandante local da PM e ele manteve o que afirmou na segunda-feira, dizendo que a PM não foi procurada pela família e nem por outros órgãos.
Ministério Público não se pronuncia
A família do adolescente e do jovem procurou o Ministério Público na tarde da última terça-feira, 14. A equipe do CCO enviou e-mail à Assessoria de Comunicação do MP, em Belo Horizonte, na tarde da última quarta-feira, 15. Porém, o órgão não respondeu aos questionamentos feitos pelo jornal, até o fechamento desta edição.
Agressão e caça de animais são crimes
Tortura é considerado crime pela Constituição Federal. Segundo o artigo 5°, inciso III, ninguém pode ser submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante no país. No inciso XLIII do mesmo artigo, tortura é considerado crime inafiançável e sem anistia.
De acordo com o artigo 29 da Lei n° 6.605/ 1998, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, àquele que mata, persegue, caça, apanha, utiliza espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente pode ser submetido a pagamento de pena e multa.
Pedido de justiça
A mãe do adolescente, que é costureira, reconhece que a polícia tem o direito de agir diante de uma suspeita, mas recrimina o modo como teria ocorrido a ação. “[...] Meu irmão é maior de idade, que chegasse e prendesse ele, levasse para o quartel. E que pegasse meu filho, entregasse para o Juizado de Menor. [...] Investigar o que eles estavam fazendo, puxassem a ficha do meu irmão para eles verem que meu irmão não é bandido, que meu irmão não tem nome sujo na polícia [...]. Não é chegar e espancar eles igual fizeram”, declarou.
A costureira afirmou que espera por justiça. “Espero que seja feita Justiça. Eles não podem fazer isso com as pessoas inocentes [...]. Aí, como você vai confiar na polícia? Como você vai chamar a polícia quando acontecer alguma coisa com você? Quando a mãe tem um filho bandido ela já espera tudo, não espera? Agora meu filho não é, meu irmão não é”, afirmou.
Manifesto
Na tarde da última quinta-feira, 16, colegas do adolescente organizaram uma manifestação pacífica para cobrarem ações das autoridades da cidade. Familiares do adolescente também partiticparam, juntamente com conhecidos do garoto. Com cartazes em mãos, os manifestantes saíram da pista de skate e passaram pelas ruas São Geraldo, Jarbas Ferreira Pires e Getúlio Vargas.
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