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Recortes do Tempo – Histórias de Arcos

A época dos tropeiros e o comércio em Arcos nos tempos remotos

Publicada em: 26 de junho de 2019 às 10h37
Arcos
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 22/06/2019) - Edição 2006

 

Bem no centro da cidade, em frente à Prefeitura, está um imóvel de dois andares, que foi um dos primeiros prédios de Arcos e o primeiro daquelas imediações. Foi construído por volta de 1955.  É a residência do casal Perpétua Maria da Cunha, 78 anos, e Emílio Augusto de Oliveira, 81 anos. Eles têm sete filhos, nove netos e três bisnetos. Passam a maior parte da semana na casa da roça, nos Cristais.

No dia 5 de junho, o casal recebeu uma repórter do CCO e nosso colaborador Dalvo Lopes Macedo, que é um incentivador do resgate das memórias de Arcos, que há vários anos são registradas no Jornal e Portal CCO. A partir de 2018, Dalvo passou a contribuir, nos ajudando a “garimpar” histórias e registrá-las no espaço que chamamos “Recortes do Tempo – Histórias de Arcos”.

Sobre o local onde mora o casal, que hoje é um dos mais movimentados da cidade, Dona Perpétua conta: “Aqui era um pasto... Quando Zé Vilela ganhou para prefeito, a primeira casa a ser construída aqui foi a nossa. Foi das mais modernas na época. Em Arcos tinha só um prédio: o do João Raimundo (na avenida Governador Valadares esquina com rua Donato Rocha). Depois que o Zé Vilela fez essa casa e um clube aqui na esquina, é que foram surgindo as outras casas. As terras eram da paróquia e eles foram vendendo os lotes e organizando a cidade. O povo comprava os lotes e construía”.

Outra história contada pelo casal é sobre a origem do nome de Arcos. Uma das versões conhecidas é que os tropeiros, quando passavam por essas terras, acabavam deixando barris às margens do rio e os arcos se soltavam e ficavam espalhados pelo arraial. Desse modo, quando os viajantes se referiam à localidade, diziam que aqui era a terra “dos arcos”. “Nossos avós e bisavós contavam pra gente que por volta de 1800, Arcos era um arraial com pouca gente, e que aqui era uma travessia. Os bandeirantes vinham do Rio de Janeiro e de Mariana (cidade mais velha na época). De Itapecerica, desciam pra cá, passavam em Bambuí e atravessavam para Goiás. Tantos rios que os bandeirantes atravessavam... Então, quando passaram aqui e viram aquele tanto de arcos de barris, ficaram surpresos e passaram a chamar o território de Arcos”. Sr. Emílio conta que a história ouvida por eles é que é esses arcos foram deixados pelos viajantes que passavam por aqui, vindo de Itapecerica. “Os barris vinham de Itapecerica, com querosene e vinho. Os tropeiros também traziam farinha de trigo, macarrão e encomendas para os outros. Meus pais (Maria Luíza de Jesus e Antônio Rodrigues de Moura) que contavam essa história”, lembra.

Dona Perpétua também conta que de Itapecerica para Arcos, já na época em que o transporte era feito no “trem de ferro”, vinham fardos de tecidos (comprados pelos comerciantes da família do João de Oliveira e também por Humberto Soraggi), utensílios domésticos (pratos, garfos), açúcar e vinho. De Arcos para Itapecerica, eram transportados os seguintes itens: polvilho, rapadura, farinha de mandioca, farinha de milho.

 

 

A época em que o transporte era feito por burros

Em anos bem remotos, por volta de 1880, segundo o casal, o transporte era feito por burros, guiados pelos tropeiros. Mais tarde, evoluíram para os carros de bois cargueiros. “Não tinha caminhão, tudo era no lombo dos burros. Quem tinha uns 50 burros era chamado de tropeiro. Isso foi antes de existir o carro de boi” [...]”, conta Sr. Emílio.

O pai adotivo de Dona Perpétua, José Xavier de Castro, era o transportador das mercadorias de Itapecerica para Arcos, por volta de 1889. “Ele morava em Formiga e tinha aquele tanto de companheiro; todo mundo só usava o carro de boi. Punham cinco a seis carros de boi na estrada e passavam aqui em Arcos pra pegar polvilho, carnes e levar. Faziam o toldo do carro usando couro de boi, para não molhar as mercadorias. Gastava dois couros de boi pra fazer um toldo de um carro. Não tinha plástico na época. Meu pai que contava essas histórias. Vinha ele, o pai dele, irmãos, lá de Córrego Fundo, em quatro ou cinco carros de boi, e pegavam os materiais no arraial de Pains, de Arcos, e levavam. Gastavam muitos dias, paravam pra fazer comida e dormiam debaixo do carro de boi. Mesmo assim eles achavam bom demais, porque estava tendo trabalho”, relata.

Alguns dos comerciantes mais antigos de Arcos, que compravam os produtos para revender, foram os senhores Jorge Calácio (na avenida Governador Valadares) Antônio Gonçalves (“Esquina do Pecado”) e Tonico Arantes (no bairro Niterói). Alguns produtos, a exemplo de açúcar, querosene e sal, geralmente estavam em falta e era necessário senha para compar.

 

Fábrica Santa Matilde

Outra história contada pelo casal é sobre a fábrica de manteiga que tinha em Arcos, na rua Jarbas Ferreira Pires, onde hoje é o Arcos Clube. A fábrica Santa Matilde gerou grande expectativa entre os fazendeiros de Arcos na época, que forneciam o leite. “Estava indo tudo muito bem, os fazendeiros estavam animados com a firma, comprando vaca de leite.... Vinham até das cidades ao redor”. No entanto, a fábrica faliu e os fornecedores começaram a levar os bens para recuperar o prejuízo, a exemplo dos latões de leite, um velho caminhão Chevrolet e até um burrinho que era chamado “Tamborete”. Segundo Dona Perpétua, isso teria acontecido no início da década de 1940. “Zé Linhares, pra não perder tudo, disse que ia levar o burrinho. Ele dava coice...”, relembra Sr. Emílio, aos risos.