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Aos 90 anos, Dona Maria dos Anjos relembra sua história de vida dedicada à educação

Publicada em: 13 de março de 2019 às 15h45
História de Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 09/03/2019) - Edição 1991

“Eu sou apaixonada com Escola. Até hoje, quando passa na televisão uma sala de aula, aquilo me ‘abafa’, me emociona. Eu gostava demais de dar aula”, comentou, emocionada, Dona Maria dos Anjos Sousa, que aos 90 anos se lembra de cada detalhe de sua trajetória como professora. Ela foi uma mulher à frente de seu tempo, que com muito amor levou educação a lugares onde ninguém queria ir, e dedicou sua vida ajudando as pessoas à sua volta.

Maria dos Anjos nasceu em 1929, na cidade de Formiga, e no dia 06 de fevereiro de 2019 completou seus 90 anos. Foi casada com Sebastião Teixeira de Sousa (“Sebastião Sulico”), com quem teve seis filhos. De seus filhos vieram 13 netos e nove bisnetos.

Ela estudou até o 4° ano na cidade de Formiga e depois se mudou para Ibirité, região metropolitana de Belo Horizonte. Lá se especializou para ser professora na Fazenda do Rosário, que faz parte da Fundação Helena Antipoff.

 

Educação em um lugar abandonado

Segundo relatos de Dona Maria dos Anjos, havia uma escola situada na comunidade rural da Vargem dos Britos, que estava abandonada. Não entendendo o sentido de se ter uma escola e não haver alunos e nem aulas, ela decidiu abrir a escola. Dona Maria conseguiu 80 alunos matriculados e os tinha praticamente como filhos: “Os meninos eram como filhos para mim. Eles chegavam e me abraçavam e pediam bênção. Tudo era bênção! Aí eu tive que ensinar a eles a falar bom dia e boa tarde comigo. Custei tirar essa “bênção”, mas eu tirei”, relembra.  

Após ficar três anos na Vargem dos Britos, foi convidada pelo prefeito da época, o médico João Vaz Sobrinho, para trabalhar na escola da comunidade da Ilha, a Escola Estadual “José Geraldo de Melo”. “Ele disse que eu estava trabalhando em uma coberta de paiol e que lá (na Ilha) a casa era grande, a escola tinha quadro e bandeira, sendo que tudo isso eu já tinha feito lá (na Vargem dos Britos), sozinha”, disse. De início ela não queria ir para a Ilha, mas depois percebeu que era necessário ir. Trabalhou como professora naquela comunidade durante 27 anos, lugar onde se casou e constituiu sua família. Aos 42 anos se aposentou e se mudou para a cidade de Arcos.

Dona Maria dos Anjos também chegou a criar uma escola gratuita em sua fazenda, para a alfabetização de adultos. Ela conta que a Química, uma das principais indústrias da região na época, só contratava homens da área urbana de Arcos, porque os que eram da comunidade da Ilha não tinham formação. Para mudar esse cenário, ela decidiu criar uma escola para adultos, onde os ensinou a ler, escrever e a fazer contas, proporcionando assim a oportunidade deles serem contratados.

 

Dona Maria dos Anjos e filhos

 

Mulher ativa na comunidade

A filha que estava presente durante a entrevista, Sandra Soraggi, disse que sua mãe foi uma mulher que fez muito pela comunidade. Segundo Sandra, seus pais eram líderes comunitários na Ilha e em sua casa eram realizados encontros da ACAR (Associação de Crédito e Assistência Rural) – Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural - MG). “Meu pai ensinava aos rapazes a lidar com gado, com as rações; e minha mãe ensinava corte, costura, crochê, bordado. Então, nos domingos lá em casa ficava aquele monte de jovem aprendendo. Tinha vacinação, visita, comício; para tudo a comunidade se reunia ali”, relembra.

Além de professora e líder comunitária, Dona Maria dos Anjos fazia roupas mortuárias para os que faleciam na comunidade e também já foi conhecida como parteira, por ajudar em muitos partos. Em alguns ela chegou a acompanhar o médico e prefeito da época, João Vaz Sobrinho. Em uma de suas lembranças, Dona Maria contou que chegou a salvar a vida de um bebê que estava praticamente morto após o parto. 

 

Aos 90 anos ainda cuida da casa e faz os próprios vestidos

Os 90 anos de idade não impedem Dona Maria dos Anjos de continuar sendo uma mulher ativa: “Eu não aguento ficar parada de jeito nenhum. Gosto é de fazer as coisas, de eu mesma fazer as minhas coisas. Esse negócio de ficar pedindo um e pedindo o outro, eu não gosto disso não. Eu gosto de fazer a minha obrigação”, comentou.
Sandra Soraggi disse que ela faz de tudo em casa: arruma a cama, lava e passa roupa e até um mês atrás ainda fazia comida. Atualmente ela conta com uma faxineira que limpa a casa quinzenalmente e ela almoça em restaurante.

Sobre o que ela mais gosta de fazer, é trabalhar! “Gosto de arrumar a casa e de plantar alguma coisa na horta. E gosto de mexer em uma máquina, gosto demais de costurar”. Isso mesmo, aos 90 anos Dona Maria dos Anjos ainda costura. O vestido que estava usando durante a entrevista foi ela mesma que fez. Segundo a filha, há menos de dois meses ela fez seis vestidos; ela mesma comprou os tecidos, cortou e costurou.

Sandra disse que sua mãe está com ótima saúde. Toma alguns remédios de controle, para pressão, mas não tem nenhum problema mais sério. A dieta dela é livre, come de tudo, mas na hora certa e em pouca quantidade.

 

Como é chegar aos 90 anos?

Para Dona Maria dos Anjos, chegar os 90 anos é sinônimo de felicidade. “É feliz demais. Eu vivo muito feliz e fui muito feliz. Toda vida eu fui muito estimada e tive muito valor, graças a Deus. Se todo mundo tivesse a vida que eu tenho, seriam felizes”.

Quando questionada sobre uma lição de vida, sem pensar duas vezes, ela disse: “Educação. A primeira coisa é educação e paciência para poder viver. Porque a gente não dá conta de viver sem esses dois não”, finalizou.