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RECORTES DO TEMPO – HISTÓRIAS DE ARCOS

Cantador de desafio - Venâncio Ferreira de Paiva conta sua história

Publicada em: 20 de junho de 2020 às 08h00
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 13/06/2020) - Edição 2055

Venâncio Ferreira de Paiva é arcoense, natural da comunidade de São Domingos. É embaixador de dois ternos de Folia de Reis, atleticano “fanático” e há 60 anos canta uma paródia, conhecida como “Desafio”, em bailes e festas da cidade. Em entrevista a Dalvo Macedo, colaborador do Jornal CCO no projeto Recortes do Tempo – Histórias de Arcos, contou sua história.

Venâncio tem 77 anos e é um senhor alegre. Gosta de viajar, jogar truco, participava de todas as festas do Clube da Terceira Idade e é apaixonado por futebol: “Sou atleticano fanático. Sempre gostei de jogar futebol de campo, joguei no time do Brejão até os meus 55 anos. Participei de várias rodas de truco na cidade e há 13 anos participo do Clube da Terceira Idade”.

É católico e participativo na comunidade do bairro Cruzeiro em Arcos. Tem em casa um Rosário de contas de lágrimas, de 80 mistérios, que equivale a 20 terços normais. Também guarda uma relíquia religiosa da família, da época da escravidão: uma cruz de madeira (cruzeiro primitivo) contendo objetos que remetem à Paixão de Cristo (coroa, cravo, lança, martelo, truques e escada).

Venâncio é o embaixador de dois ternos de Folia de Reis na cidade: Foliões de Nossa Senhora Aparecida (da comunidade do bairro Olaria) e Foliões da Estrela de Belém, da comunidade do bairro Brasília.

 

Sua história

Venâncio Ferreira de Paiva nasceu no dia 1° de junho de 1942, em Pedras Pretas na comunidade de São Domingos, onde existia uma jazida de pedra sabão. É filho do lavrador José Ferreira de Paiva e Ana Hipólito de Jesus. Venâncio cursou o primário na Escola Duque de Caxias, na comunidade Correias. Ele lembra que, na época, a professora Sinhá Ribeiro ensinava lições cantadas. Ela lia as histórias para os meninos e eles iam à frente e cantavam. “Eu não conhecia nem a letra ‘o’, mas cantava o ABC para frente e de trás pra frente, só de memória. Hoje eu leio e escrevo o necessário. Naquela época, para tirar o diploma tinha de vir para a cidade e estudar na Escola Yolanda Jovino Vaz”.

Aos 12 anos, precisou começar a trabalhar para ajudar sua mãe. Seus pais moravam agregados na fazenda do Senhor Apolinário Rodrigues de Souza, conhecido como Tatu.

Aos 26 anos, Venâncio se casou com Maria das Graças (in memoriam), com quem teve três filhos: Olemar Ferreira de Paiva, Marcilene Ferreira de Paiva e Maria das Graças de Paiva. Ele também tem quatro netos.

Ao se casar, Venâncio continuou trabalhando no campo como lavrador e meeiro. Aos 35 anos, trabalhou na Cia. de Cimento Portland Pains, onde ficou por 23 anos como operador de britador, até se aposentar. Ao falar da empresa, ele teve várias lembranças: “Era uma empresa muito boa, onde tive grandes amigos. O salário era razoável, mas tinha o PA, que era um armazém que vendia para os funcionários a preço de custo e no mês de dezembro ganhávamos um desconto de 10% de presente; isso ajudava muito os funcionários. Tenho muita saudade dos colegas de trabalho e, principalmente, do Sr. Joaquim Silva; eu morava num barraco no fundo da casa dele, ele me ajudava muito”.

 

“Cantador de Desafio”

Sr. Venâncio de Paiva nos contou que há 60 anos canta uma paródia conhecida como ‘Desafio’, em bailes e festas da cidade. Ele explicou que é uma competição entre duas pessoas, em que o parceiro é convidado a responder com cantigas os versos provocados. “Há sessenta anos venho cantando em bailes, festividades. É preciso ir com versos, criando assuntos, memorizando. Quando chega o momento onde um parceiro canta seu verso, ele tem que ter muito conhecimento, criatividade e habilidade para responder referente ao assunto que foi instigado”, explicou.

Ele relembrou que participou de um desafio no Corumbá, em 1996, que foi realizado por Dalvo Macedo. Disputou com Sr. Paulo, que era da comunidade, ao som de violão tocado por Iolanda Lima. “Foi uma noite que alegrou muito aquela comunidade”.

Personalidades como Sr. Venâncio mantêm vivas as tradições culturais, perpetuando fé e alegria de viver.