Vende-se Apartamento

Casarão em frente ao bar da ‘Esquina do Pecado’ foi construído por volta de 1830

O Brasil era um Império (1822 a 1889); Arcos era um arraial, com menos de 50 casas

Publicada em: 27 de junho de 2018 às 09h33
História de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 23/06/2018) - Edição 1953

Reportagem e Redação: Jornalista Rita Miranda

 

Na edição 1.941, de 24 de março, o CCO publicou reportagem sobre a famosa “Esquina do Pecado”, situada no cruzamento entre a rua Augusto Lara e a rua dos Passos. Durante a apuração das informações para a produção do texto, encontramos com dona Carlota dos Santos da Silva, de 90 anos, moradora na rua Augusto Lara. Ela comentou sobre o casarão localizado em frente ao “Bar do Beto”, que teve como proprietário um senhor conhecido como “Pedro Nega” e hoje pertence aos herdeiros.

Segundo Dona Carlota, que nasceu em 1928, a residência já existia na geração da avó dela. “Minha avó falava, quando eu era criança, que não sabia quando tinha sido construída aquela casa. Então, tem mais ou menos 200 anos”.

Dona Carlota está certa. De acordo com informações do Inventário de Proteção do Acervo Cultural, obtidas pelo CCO junto à Secretaria Municipal de Cultura, Esportes, Lazer e Turismo, a residência foi construída por volta de 1830, portanto, há 188 anos. Conforme o relato, trata-se de uma das primeiras edificações de Arcos e foi construída por pessoas escravizadas. A abolição da escravatura no Brasil só aconteceria 58 anos depois, em 1888, por meio da Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel (filha de D. Pedro II).

Conforme consta no documento, o proprietário do imóvel era João da Cunha, que morou na casa por muitos anos. Depois foi vendida para João Ribeiro e posteriormente moraram várias famílias consecutivamente. Foi comprada por “Pedro Nega” e atualmente pertence à família dele.

Escravos teriam sido enterrados no porão da casa, no século XIX

Na descrição do Inventário de Proteção do Acervo Cultural, cujo levantamento foi feito em agosto de 1998 a partir de relatos de Maria José Amarante e da proprietária, Ana Clementina Teixeira, é informado que “a residência tem um porão enorme, alto, em adobe – que é um tijolo grande de argila – e terra batida”. Na ocasião em que foram colhidas as informações para o Inventário, há 20 anos, já se encontrava em estágio avançado de deterioração. Outra informação é a seguinte: “Dizem que no porão da casa foram enterrados muitos escravos”, conforme consta no documento, sem detalhes.

O casarão impressiona pela altura das paredes, portas e janelas [de enquadramento de madeira], que são originais. Ainda de acordo com a mesma fonte de informação, a casa tem nove cômodos grandes e o estilo é colonial antigo. Até aquela época (1998), houve intervenção, mas sem descaracterizar o imóvel, adaptando-se uma cozinha e um banheiro. Também foi feita reforma em parte do assoalho e parte dos caibros foram trocados.
O CCO procurou a proprietária e uma filha dela, com a finalidade de atualizar as informações, saber outros detalhes e fotografar o interior da residência, mas elas optaram por não conceder entrevista.  

 

 

Em 1874, a população urbana e rural de Arcos era de 4.027 pessoas, sendo 705 escravos

Conforme relatado, o casarão foi construído por volta de 1830, portanto, no contexto imperial do Brasil. Na época, o território arcoense era um arraial. Em 1859, de acordo com registros do livro História de Arcos, de Lázaro Barreto, havia aproximadamente 50 casas aqui. Em 1874, a população urbana e rural era de 4.027 pessoas, sendo 705 escravos, ou seja, 17% da população, conforme consta no mesmo livro.
O que acontecia no Brasil naquela época? A construção desse imóvel foi feita aproximadamente oito anos depois da proclamação da Independência do Brasil (7 de setembro de 1822), por Dom Pedro I, então príncipe regente. O governo de Dom Pedro I é descrito como “centralizador”, tendo mantido os privilégios das elites e o regime escravocrata (de acordo com Memória divulgada pelo site oieduca.com.br). A Editora Objetiva divulga no site historiadobrasil.net que a situação no Brasil Império não era das melhores. Ocorreram protestos populares e oposição de vários setores da sociedade, levando Dom Pedro I a abdicar ao trono em favor do filho dele, Dom Pedro II, em 1831. Uma vez que ele tinha apenas 5 anos de idade, o Brasil foi governado por regentes, de 1831 a 1840. “O período foi marcado por várias revoltas sociais. A maior parte delas era em protesto contra as péssimas condições de vida, alta de impostos, autoritarismo e abandono social das camadas mais populares da população”, conforme consta no site historiadobrasil.com. Dom Pedro II só foi coroado em 1841.