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Conheça o trabalho desenvolvido no Centro de Acolhimento de Arcos

Publicada em: 29 de novembro de 2021 às 13h23
Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 20 de novembro de 2021) Edição 2129

A sede própria do Centro de Acolhimento Institucional “Ana Lúcia Rodrigues Costa”, cuja obra foi concluída no final de 2020, é um lar para crianças e adolescentes em situação de risco. Não são “menores infratores”, não cometeram nenhum crime. Ao contrário, são vítimas.

Desde o início do ano, a psicóloga Cleuza de Fátima Oliveira Lima é coordenadora da instituição, que conta com aproximadamente 20 colaboradores(servidores municipais). Eles trabalham em sistema de revezamento. Os educandos – como são chamadas as crianças e os adolescentes que moram na unidade – estão sempre acompanhados por educadores sociais, 24 horas, inclusive nos finais de semana e feriados.

Um veículo fica disponível para levá-los à escola e creche, até as unidades de saúde quando necessário ou mesmo para passeios e onde mais houver necessidade, sempre com os educadores.

Atualmente, quatro meninas e quatro meninos, com idades que variam de 3 a 17 anos, estão acolhidos.  Duas meninas já estão na instituição há mais de cinco anos. São as que estão lá há mais tempo.

Uma das educadoras se dedica mais frequentemente às atividades escolares dos educandos. Ela acompanha os deveres e realiza outras atividades relacionadas ao ensino, com o apoio dos outros educadores de cada turno. “Cada um contribui de um modo, com seu saber, para que possam oferecer o melhor aos educandos”, comenta a coordenadora. 

Ela nos relatou que as motivações para que os menores sejam encaminhados ao Centro de Acolhimento são diversas, no que se refere, de maneira geral, à negligência das famílias. Ela explica que as crianças são levadas para o Centro por meio de denúncias direcionadas ao Conselho Tutelar, que faz a apuração do que foi relatado. Também estão envolvidos em todo esse processo, o CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) e o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social). “São equipamentos [públicos] que estão sempre em comunicação e por meio deles chega-se à conclusão de que crianças e adolescentes podem estar em situação de risco; e como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) preconiza, é preciso ter uma intervenção para que se dê a essas crianças e adolescentes proteção social”.

Na unidade local – que também pode receber crianças e adolescentes de Pains – são mais frequentes os casos relacionados aos pais ou responsáveis envolvidos com drogas (inclusive tráfico) e bebidas alcoólicas. “O que percebemos mais aqui são casos de drogas e bebidas nas famílias. Tem um percentual alto, onde pais levam as crianças para ambientes insalubres, deixam as crianças correndo perigos e riscos físicos por estarem fora de casa, por não terem um local para se abrigar, ficando expostas a esses ambientes onde os pais fazem as negociações”.

 

Reaproximação das famílias e destituição familiar

Cleuza Lima diz que os vínculos com as famílias não são perdidos e que são analisadas todas as possibilidades de reaproximação. “Os técnicos dos equipamentos sempre estão em contato para ver se existe realmente a possibilidade de reinserção deles na família consanguínea, a família de origem”.

Nesse sentido, ela explica que a destituição familiar – quando a criança não pode mais voltar para a família de origem – somente acontece depois de esgotadas todas as possibilidades de convívio. “Nosso trabalho [no Centro de Acolhimento] é feito em contato com o Ministério Público, a juíza da Vara da Infância e da Juventude, o CRAS, o CREAS e o Conselho Tutelar. Trabalhamos juntos para que possamos viabilizar o melhor modo de existir essa capacidade de aproximação da família. Caso estejam esgotadas todas as possibilidades é que existe uma destituição”.

Quando acontece a destituição do poder familiar, declarada judicialmente, o trabalho seguinte é no Cadastro Nacional de Adoção, com a finalidade de encontrar alguém que esteja interessado em adoção e que corresponda ao perfil da criança.

 

Espaço físico da instituição, atividades e projetos

A unidade conta com três residências (feminina, masculina e outra para crianças). Cada residência tem três quartos e cada quarto tem banheiro. Tem também um quarto para o educador. Em cada uma tem uma sala de tv.  Na área compartilhada também tem o refeitório, a cozinha, a lavanderia, sala de estudos (com computadores) e o bloco administrativo (com recepção, sala para assistente social e psicóloga, sala da coordenação).

Todas as refeições são preparadas na unidade. Também tem uma área onde são realizados os eventos (aniversariantes do mês e apresentações) e capacitações. “Tem uma pedagoga que conta história pra eles e também gostam de desenhar. Tentamos fazer com que todos tenham um pouco de criatividade naquilo que têm mais aptidão”.

O educador social Edmar de Castro realiza apresentações circenses, musicais e outras atividades de entretenimento. No Mês das Crianças, receberam as visitas de “Mickey e Minnie”, grupo de capoeira e Noara Gomes (Balé), foram passear em um sítio e tiveram várias outras atividades, com o apoio de padarias e serviços de Buffet. “Trouxemos a comunidade para dentro do Centro de Acolhimento, para que as crianças possam ter essa inserção, uma oportunidade de convivência”, disse Cleuza Lima. Os educandos também fazem artesanato. Já estão preparando a decoração natalina. 

Quando assumiu o cargo, a coordenadora implantou o projeto “Mãos Parceiras”. Enviou correspondências a empresas solicitando apoio para Centro e tem sido atendida por muitos. “O Centro recebe muitas doações. Arcos é uma cidade de pessoas generosas. As pessoas se sensibilizam e trazem balas, bombons, brinquedos, roupas. Contamos com esse projeto Mãos Parcerias para, também, fazer as festas de aniversário”.

Na unidade foi plantada uma horta e o jardim será revitalizado. Também estão na expectativa da instalação de um parquinho infantil e outras novidades. “São projetos que estamos desenvolvendo e que, em função da pandemia, houve atraso. Ganhamos tinta para fazer uma pintura alegre nos muros, para colocar alegria e cor aqui. Temos a promessa de um canil, porque as crianças querem um canil. Temos o jardim plantado e tem uma empresa que vai fazer a revitalização. Realmente estamos tendo, aqui, essa sensação de uma casa, de um lar que abriga as crianças e onde elas se sentem à vontade para brincar”.

 

 

Apadrinhamento – As pessoas interessadas em levar alguma criança ou adolescente para casa ou para um passeio nos fins de semana podem procurar o Centro de Acolhimento. Serão ouvidas pela assistente social e psicóloga e vão responder a um questionário.  Será avaliado o perfil da pessoa que está querendo apadrinhar e os perfis das crianças que estão para serem apadrinhadas. O segundo passo é que os candidatos a padrinhos e madrinhas conheçam as crianças, analisando se há aceitação de ambas as partes. Se houver essa aceitação, os padrinhos assinam um Termo de Responsabilidade. A coordenadora informa que algumas crianças estão sem padrinhos, principalmente as maiores. É importante informar que os padrinhos não podem estar na fila de adoção.

 

Desacolhimento

Ao completar 18 anos, os educandos não podem permanecer na instituição. Um ano antes, é iniciado o projeto de desacolhimento. “Estamos tentando, de toda maneira, que esses educandos se sintam capacitados emocionalmente e materialmente também, para terem essa condição de sobrevivência com qualidade de vida. Estamos pensando nisso tudo, mas vai depender muito do educando”, explica a coordenadora, informando que há uma preocupação em capacitá-los para o mercado de trabalho e encaminhá-los. “Existe essa cobrança da juíza da Infância e da juventude para que façamos esse trabalho com eles, para que possam ter maturidade e segurança para enfrentar na vida lá fora”, informa.

Além de desenvolverem o trabalho na instituição, os funcionários acabam criando vínculos com os educandos. “São nossos, são crianças cuidadas por nós e acabam sendo nossos filhos. Nós contamos com toda a comunidade, para que essas crianças possam ter qualidade de vida e possam ser inseridas no meio social de todos”, conclui Cleuza Lima.