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Dona Dina continua lavando roupa, feliz da vida, aos 85 anos

Ela é lavadeira há mais de 60 anos e não quer parar

Publicada em: 30 de janeiro de 2019 às 13h56
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 26/01/2019) - Edição 1985

Das coisas simples e boas da vida – do tipo: cheiro de café feito na hora, do alho dourando no óleo quente e do bolo que acaba de ser retirado do forno – podemos incluir a sensação de bem-estar ao ver nossas roupas limpas e cheirosas no varal. Melhor ainda, quando já estão passadinhas e dobradas!

As donas de casa, lavadeiras e passadeiras profissionais sabem bem o quanto é bom ver o serviço pronto. Só conhece a imensa sensação de prazer ao término de um trabalho pesado, seja braçal ou intelectual, quem passou pela experiência.   

Seja no rio, como antigamente, ou na área de serviço da casa, enquanto lavamos a roupa a mente fica livre para refletirmos sobre a vida. O melhor é pensar nas coisas boas, fazer planos, “viajar”. É assim que fazem os otimistas! Os poetas descrevem bem melhor as sensações: “Quem lava roupa não lava somente a roupa/ Lava o orgulho e a soberba / E sente cheiro do novo/ [...] Lavei roupa! Com a vida passada no cheiro do sabão [...]” – versos da poesia A arte de lavar roupa, de Luís Adriano Correia, postada, na íntegra, no blog “Poesia Jovem” (http://poesiajovem.blogspot.com/2011/03/arte-de-lavar-roupa-luis-adriano.html).

Mas se você não gosta de lavar roupas, nem mesmo na máquina, e não vê nenhuma “poesia” (rsrs) nesse trabalho, pode contar com as mãos habilidosas das lavadeiras. Uma dessas profissionais em Arcos é Ricardina Batista Teixeira (Dona Dina), 85 anos. Isso mesmo! Ela continua lavando roupas, mesmo depois dos 80. Sempre foi a profissão dela, desde menina, e mesmo atualmente, quando não há mais necessidade, não quer deixar de lavar. “Eu gosto de trabalhar. Enquanto eu tiver vida eu vou fazer esse serviço. Não me canso! Gosto de pegar a minha mala cedo... não gosto de ficar na cama toda vida...”.

 

 

“Graças a Deus, meus filhos são muito bons pra mim...”

Os filhos não aprovam tanto trabalho, mas aceitam, afinal, ela é a “chefe da família”. “Eles pedem pra eu largar, mas eu falo: Não largo! Enquanto estiver aguentando, eu vou lavar. Graças a Deus, eles são muito bons pra mim”, enfatiza.

Na casa de Dona Dina, na avenida Magalhães Pinto (fundos), tem um quintal grande com plantas, flores, um gramado bem verde e criação de galinhas caipiras, para os almoços de domingo da família. É um lugar muito agradável, sem barulho, mesmo na região central. Ela nos recebeu com o habitual sorriso de gente feliz – e com uma roupa alegre e unhas muito bem feitas, pintadas de rosa choque. “Olha lá a mala de roupa que estou lavando hoje...”, mostrou e explicou como faz: “Ensaboo no tanquinho, tiro a água suja e jogo na máquina pra enxaguar. Antigamente eu lavava tudo na mão, fervia a roupa... É bem mais fácil com o tanque e a máquina”.

Dona Dina ensinou às filhas desde pequenas. “Eu punha cada uma das meninas numa baciinha, pra elas aprenderem. Ensinei desde pequenininhas, e elas me ajudavam a lavar e passar. Eu saía em Arcos aí com as malas de roupa na cabeça e elas junto comigo, cada uma carregando um pouco também”.

Atualmente ela lava apenas duas malas por semana, para duas clientes, mas na maior parte da vida lavava todos os dias. Foi a maneira que encontrou de ser útil à família dela, quando era solteira, e depois para ajudar o marido – Antônio Estêvam Teixeira – a criar os filhos. Ele já se foi. A ausência dele e das filhas que faleceram é a única tristeza de Dona Dina. “Ele era muito bom pra mim”, conta e se emociona, feliz por ele estar junto de Deus, mas triste porque sente saudades dele e das filhas.

“Meus filhos estão todos juntos, não ficam sem vir me ver. Você chega aqui de tarde, o quintal está cheio... Não me deixam sozinha de jeito nenhum”. O casal teve 13 filhos: Maurício, Márcio, Maurélio, André, Adréia, Beatriz, Jaqueline, Márcia, Magna; Meire, Sirlene, Narsônia e Sueli faleceram. São 19 netos e 15 bisnetos.

Dona Dina não para! Enquanto a máquina está lavando a roupa, ela faz o almoço e arruma a cozinha, sempre contando com a ajuda da nora Regina, na arrumação da casa. O trabalho tem feito muito bem a ela, que nem precisa ir ao médico com frequência. Toma apenas dois medicamentos para hipertensão e afirma que não tem nenhum problema de saúde.

 

Dona Dina lava duas malas de roupa por semana,na casa dela, para duas clientes

 

Conselho para quem vive triste

Para os idosos que estão indispostos e tristes, ela aconselha: “Não fiquem tristes não, que a morte chega depressa! Não se entreguem! Vão procurar um serviço, alguma coisa pra fazer, pra se distrair... Eu gosto demais e faz bem pra cabeça. Estando lá na bacia, a gente só fica pensando em pôr a roupa no arame”.

Enquanto trabalha, seja no tanque ou na cozinha, ela ouve rádio. “Gosto de rádio, do programa do Tadeu, na Rádio Cidade. Todo dia de manhã eu assisto o padre Reginaldo, ponho água pra benzer. Gosto do conteúdo que passa, das músicas...”.

Religiosa, ela vai à missa todos os domingos na igreja Nossa Senhora do Carmo, e também gosta de passear. “Saio muito com a Andréia. O marido dela canta e toca violão e eu vou com eles. Tem dia que chego em casa quase de madrugada”, conta, sorrindo. Sorrir para a vida... é o que ela sempre faz!

 

(Reportagem, Fotos e Redação: Jornalista Rita Miranda).