FIEMG
RECORTES DO TEMPO - HISTÓRIAS DE ARCOS

Dona Lina Gomes, 92 anos, fala de suas lembranças da infância e da juventude

Publicada em: 24 de janeiro de 2020 às 15h58
Arcos
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria Publicada pelo Jornal CCO impresso em 18/01/2020) - Edição 2035

Lina Vieira Gomes (Dona Lina) é uma senhora de 92 anos que gosta de ler, brincar de palavras cruzadas, passear e se considera uma católica fervorosa. Em entrevista a Dalvo Macedo, colaborador do Jornal CCO no projeto Recortes do Tempo – Histórias de Arcos, ela contou sua história e falou do seu dia a dia depois dos 90 anos.

Lina Gomes é da comunidade Casa Grande, município de Conselheiro Lafaiete. É filha de Guilhermina Maria de Jesus e Francisco Luiz Vieira, que tiveram nove filhos. Desde criança, ela e seus irmãos destocavam a terra, plantavam, capinavam e colhiam arroz, feijão, milho e batata. Ela relembra que seu pai tinha quatro vacas: Pindoba, Ispadia, Roseira e Cigarra.

Lembranças da escola – Cursou o 4º ano primário na escola municipal “Casa Grande”. Ela lembra que não serviam merenda e o recreio era de 40 minutos, quando os alunos saíam à procura de frutos do serrado: goiaba, amora, gabiroba, todas as espécies que encontrassem na “mata”.

Sempre gostou de ler e escrever. Um dos seus livros prediletos era “Terra de Minas”. Também leu o “livro manuscrito”, que não era qualquer pessoa que entendia, porque as letras eram muito diferentes umas das outras.  “Leio tudo que vejo, sem óculos. Gosto de jornais e revistas e passo o dia fazendo palavras cruzadas; ganhei uma caixa com cem unidades”.  

Ela também se recorda dos castigos na escola.  “O uniforme era saia azul, blusa branca e um lencinho de pano. Quem esquecesse o lencinho, ficava de castigo. Naquela época, cinco minutos atrás da porta, ajoelhado de mãos apostas”.

Dona Lina, seu esposo e filhos

 

A juventude – A jovem Lina trabalhava de segunda a sexta. Geralmente aos sábados, comprava três coisas, quando faltava: um vidro de perfume (Contourê), pó de arroz (Lady) e o creme (Diadermina), que era para “tirar o queimado do sol e a alergia às folhas do milho”. À noite ia para os bailes, na comunidade de Corumbá. “Tinha que andar três léguas a pé e dançava a noite inteira. Nessas festas tinham balaios cheios de pães de queijo e broas. Também serviam café, vinho e pinga”.

A jovem Lina ficou noiva três vezes. Só casou na quarta. “O primeiro desistiu; se tivesse casado com o segundo, a gente ia morar muito longe e por isso eu desisti; o terceiro, quando faltavam 11 dias para o casamento, com a festa toda preparada, ele preferiu casar com a minha irmã Efigênia. No quarto noivado, casei! Eu tinha 23 anos e estava com medo de ficar solteirona. Casei e fui muito feliz!”. O marido era Sebastião Gomes (in memoriam). Foram 65 anos de vida matrimonial. Eles tiveram 13 filhos: José Eustáquio Gomes, Sebastião Amauri Gomes, Vicente Orani Gomes, Maria de Fátima Gomes, Elvira Vilma Gomes, Francisco Elane Gomes, Paulo Roberto Gomes, Aloísio Célio Gomes, Aparecida Maria Gomes, Marcos Vieira Gomes, Ivair Márcio Gomes, Geraldo Ivone Gomes e Márcia Helena Gomes. São 28 netos e 10 bisnetos.

Dona Lina conta que a maior dificuldade que vivenciou foi para pagar os estudos dos filhos. “A maioria deles estudou na mesma época, no Colégio Dom Belchior. Queriam fazer curso profissionalizante, com bolsas de estudos da Prefeitura e dos deputados. Agradeço muito pelo empenho de Dona Terezinha Soares Correia, com bolsas e conversas com diretores referente ao atraso das mensalidades”.

A mudança para Arcos – O casal chegou a Arcos com seis filhos,  no ano de 1959, quando o marido de Dona Lina foi transferido para a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). Ela conta que chorou muito para não vir para Arcos. Depois chorou para não ir embora, quando foram dispensados vários funcionários. Sebastião permaneceu trabalhando, com o Sr. José Amorim.

Vida religiosa e social – Dona Lina não gosta de ficar em casa. Tem ocupação para a semana toda. Participa das celebrações da santa missa aos domingos; na segunda-feira, do Terço das Mulheres na Igreja do Rosário; na terça-feira, Missa da Medalha Milagrosa na Igreja Nossa Senhora do Carmo; na quinta-feira, participa da Missa da Família na Igreja Santo Antônio. Na quarta-feira, vai para a Feira do Produtor Rural, onde toma garapa e se encontra com os amigos para conversar. A sexta-feira é dia de “folga” e aos sábados, sempre vai a festas.  Também gosta de viajar. Já foi 33 vezes em romaria ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte (SP).

O marido também era católico. “Todos os dias, às 06h da manhã, eu rezava com ele o Terço da Misericórdia”, recorda, saudosista.