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Dr. Odilon conta sua história no livro “Memórias de um Jovem Centenário”

Um dos médicos mais populares em Arcos, ele trabalhou no Município de 1951 a 1972 e retornou em 2012 (aos 90 anos)

Publicada em: 23 de maio de 2018 às 08h44
Memória
Cultura

Crédito: @sergioluizcastro

Dr. Odilon conta sua história no livro “Memórias de um Jovem Centenário”

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 19/05/2018) - Edição 1949

Pesquisa, Reportagem e Redação: Jornalista Rita Miranda 

 

Moradores de Arcos que nasceram na década de 1970 e antes disso conhecem ou pelo menos já ouviram falar no famoso Dr. Odilon. O médico está com 96 anos de idade, lúcido e bem de saúde. Atualmente mora em Belo Horizonte.

Ele iniciou sua carreira no Município em 1951. Na época, atravessava rios a cavalo, mesmo quando havia enchentes, para atender os pacientes na zona rural. Uma vez por semana, dedicava-se ao atendimento de mendigos e outras pessoas que não podiam pagar por uma consulta.

A maioria das informações que constam nesta reportagem estão no livro Memórias de um Jovem Centenário, que é uma autobiografia do médico Odilon Chagas de Carvalho, com depoimentos de familiares e amigos. Foi publicado em 2017, pela Ipê Rosa Edições, sob coordenação e redação de Clara Bernardes, a partir da transcrição de sessões realizadas pela fonoaudióloga Francisleny Cária. A coordenação editorial é de Lúcia Bernardes e Clara Bernardes.

Odilon nasceu em 4 de janeiro de 1922, em uma fazenda na cidade de Luz. Filho do casal Odília de Carvalho e Ramiro Chagas de Carvalho, a família morou na Fazenda Varjão, em Luz, até que ele completasse 3 anos de idade.  “Já nos meus primeiros dias de vida, meu pai levou-me ao curral e levantou-me no meio das vacas...Tudo para que eu aprendesse a gostar daquela vida desde cedo”, ele relata no livro. E deu certo!

 

Aos 5 anos de idade, Odilon buscava gado

O pequeno Odilon começou a trabalhar na roça aos 5 anos de idade, buscando o gado. Depois de algum tempo o pai dele montou uma farmácia, onde ele passou a trabalhar, reservando horário para os estudos. Quando completou idade, mudou-se para Belo Horizonte e fez faculdade de Medicina. Formou-se em 1950, na Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Especializou-se em diversas áreas, inclusive como médico sanitarista. Iniciou sua carreira em Arcos, onde seus pais moravam na época. Trabalhou na cidade cerca de 20 anos, de 1951 a 1972, nas funções de policlínico e chefe da Unidade Sanitária.

Dr. Odilon é viúvo de Ester Botelho de Carvalho, que faleceu em janeiro de 2015. O casal teve três filhos: Kátia Botelho de Carvalho (psicanalista e professora na PUC/MG), Neusa Botelho de Carvalho Lima (contadora e administradora) e Marcus Vinícius Botelho de Carvalho (médico veterinário). Foram criados em Arcos e moram em Belo Horizonte. Deram a ele três netos e um bisneto. No livro, Dr. Odilon demonstra amor incondicional à família, a começar pelos pais.

 

O marido ciumento que apareceu com um facão enquanto Dr. Odilon examinava a paciente

No livro, Dr. Odilon conta situações vivenciadas em Arcos durante o exercício da medicina. Uma delas é a seguinte: “Recordo-me de um dia em que fui chamado pra examinar uma mulher que estava com retenção de placenta [...]. A casa localizava-se a 12 km da rodovia e, no percurso entre a casa e a rodovia, existia um rio, o qual estava transbordando por causa da chuva muito forte. Para ir de carro, tinha que dar uma volta de 200 km e, por isso, achamos que seria mais fácil se eu atravessasse a cavalo. [...]. Chegando à casa, esterilizei as ferramentas e, quando eu estava iniciando o procedimento, chegou o marido bêbado segurando um facão e gritando: ‘Tire as mãos daí!’ - Se eu tirar, ela morre! [disse Dr. Odilon, ao marido da paciente]. Aquele senhor abaixou a cabeça e foi embora. Passei um aperto danado, mas consegui realizar a extração da placenta!”.

 

Foto: @sergioluizcastro

Foto: @sergioluizcastroDr. Odilon com os filhos, netos, bisneto e demais familiares

 

 “Toda semana, num dia já designado, ele se dedicava a atender os necessitados, mendigos, desprotegidos [...]”.

 

Kátia Botelho de Carvalho, filha de Dr. Odilon, relata a preocupação do pai em fazer a parte dele para diminuir o sofrimento dos necessitados. “Toda semana, num dia já designado com antecedência, ele se dedicava a atender os necessitados, mendigos, desprotegidos, os moradores da casa São Vicente de Paulo. [Na época, não existia posto de saúde em Arcos]. Me lembro da fila que se formava na varanda de nossa casa em frente ao consultório. Eles eram atendidos um a um, com toda atenção e cuidado. Papai conhecia cada um em particular, seus nomes, suas vidas, seus males e para cada qual ele tinha uma boa palavra! Brincava com todos e distribuía bom ânimo! Ao final de cada atendimento, me dizia para ir lá dentro pegar pão, alguma comida para matar a fome do sujeito, não sem antes lhes providenciar os medicamentos de que precisavam. Participei inúmeras vezes desses atendimentos [...]”.

O retorno a Arcos, a trabalho, aos 90 anos de idade

No começo dos anos 1970, Dr. Odilon foi transferido para Belo Horizonte, onde também foi clínico do então Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Aposentou-se em 1982, mas trabalhou durante mais 13 anos na Fundação Dom Bosco, para crianças excepcionais. De 2009 a 2011 voltou a clinicar no interior de Minas (Córrego Danta – já com 88 anos, onde ficou aproximadamente dois anos). Em 2012, voltou a trabalhar em Arcos, na UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro Calcita, onde ficou por oito meses.   “De certa forma encerrei minha carreira profissional na mesma cidade onde a iniciei!”, conta.

 

Os amigos arcoenses que chegaram a “comprar”  uma fazenda para manter Dr. Odilon por perto

Outro fato curioso relatado no livro mostra o quanto Dr. Odilon é admirado por arcoenses. Quando ele se mudou de Arcos para Belo Horizonte com a família, alguns de seus amigos, inclusive Dr. Moacir Dias de Carvalho, cirurgião-dentista que foi prefeito de Arcos em 1945 (abril a novembro) e março de 1946 a janeiro de 1947, tiveram a iniciativa de comprar uma fazenda para ele, a fim de que ele não deixasse de vir a Arcos.   “Meus amigos Clotário Alvez e seus filhos, juntamente com Moacir Dias, Lázaro Arantes, José Cunha, Henrique Teixeira e José de Faria compraram uma fazenda para mim. Eles queriam que eu mantivesse o vínculo com a cidade de Arcos e, então, eu embarquei na ideia de ser fazendeiro [...]. Só que eu nunca permitiria que os meus amigos pagassem pela fazenda! Resolvi que venderia o meu fusca de quatro portas para dar a entrada no pagamento. [...] Eu também usei uma nota promissória do tio Quincas [...], e consegui quitar mais uma parte do valor da compra. Já o restante do dinheiro eu paguei com o passar dos anos. A fazenda localiza-se em uma região a sete quilômetros da cidade de Arcos”.

 

“Hoje, se tenta resgatar o médico de família, mas jamais aqueles tempos voltarão, jamais o médico amigo será como o Dr. Odilon” – Fárida Maria Lima

A dona de casa Fárida Maria Lima destacou, em seu depoimento, que Dr. Odilon era um legítimo médico de família. “Hoje, se tenta resgatar o médico de família, mas jamais aqueles tempos voltarão, jamais o médico amigo será como o Dr. Odilon foi em nossa cidade. Uma competência indiscutível. Sempre de uma presença infalível”.

O cirurgião-dentista Moacir Dias de Carvalho Filho (Zuza) também é admirador de Dr. Odilon. “Em Arcos, com uma simples pergunta, ‘De que família você é?’, ele já diagnosticava metade dos males de seus pacientes, pois conhecia seus hábitos, sua herança genética, sua alimentação e doenças regionais...”, relata no livro.

“Arcos é a minha vida. Arcos é tudo pra mim”

Em entrevista ao CCO, por telefone, Dr. Odilon disse que está bem de saúde e tem um carinho muito especial por Arcos. “Arcos é a minha vida. Arcos é tudo pra mim”, afirmou.

No livro ele conta que, a princípio, ser médico não era sua vontade. Fez o curso para atender ao desejo do pai dele. No entanto, a prática da medicina fez com que ele se apaixonasse pela profissão. “Não me arrependo. Não fiquei rico, porque não é da minha índole”, comentou e agradeceu pela oportunidade de ter sua história contada no jornal Correio Centro Oeste.