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Dr. Renato Coelho, aos 91 anos, exerce a advocacia e mantém o hábito da leitura

Antes mesmo de ser advogado, teve participação em várias conquistas para o Município de Arcos, principalmente nas áreas de educação e saúde

Publicada em: 21 de agosto de 2019 às 11h08
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 17/08/2019) - Edição 2014

Ele foi o primeiro Ministro da Eucaristia em Arcos, durante 17 anos, a convite do então bispo Dom Belchior, que também o autorizou a realizar batizados. Renato Coelho, hoje com 91 anos, serviu à igreja católica por mais de uma década e contribuiu para que fossem viabilizadas várias conquistas para o Município de Arcos, principalmente nas áreas de educação e saúde.

É natural de São João Del-Rei. Quando estava com 2 anos idade, os pais dele se mudaram para Formiga, onde ele cresceu e cursou o que seria hoje o ensino básico.  Desde criança, dedica-se à leitura. Gosta de literatura e de notícias. Ainda lê dois livros por mês. É casado com Alda Borges Coelho (86 anos). O casal tem seis filhos: Alexandre, advogado; Aloísio, dentista; Lígia, empresária e formada em Direito; Lourenço, aposentado como bancário e também formado em Direito; Cláudia, fotógrafa profissional e formada em Letras; Renato, que trabalha na Polícia Civil em São Paulo e é formado em Direito.  São 11 netos e dois bisnetos.

Reconhecido pela sua capacidade intelectual, lecionou as disciplinas Geografia, História, Língua Portuguesa e Ciências no então Ginásio Comercial Arcoense (colégio “Dom Belchior”), no início de sua fundação, inclusive trabalhando voluntariamente por um período.

Preocupado com a evolução do ensino no Município, colaborou para a implantação do ginasial (hoje 6º ao 9º ano) em Arcos, que começou no então grupo “Yolanda Jovino Vaz” no período noturno e depois passou a ser ministrado na escola estadual que recebeu o nome “Dona Berenice de Magalhães Pinto”, em homenagem à esposa do governador de Minas, Magalhães Pinto (gestão 1961 a 1966). Na ocasião, Renato foi nomeado na função de secretário da escola. Trajano Faria era o diretor. “Eu também bancava o inspetor de aluno e eles tinham muito respeito comigo”, conta nosso entrevistado.

Na época em que foi provedor da Santa Casa de Arcos, sucedendo professor Humberto Soraggi Filho, conseguiu verba junto ao governador, Magalhães Pinto, para estabilizar a situação financeira do hospital.

Outra conquista para Arcos que teve a participação dele foi a subseção local da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Ainda cursando o 5º ano de Direito, recorreu ao então presidente da Ordem em Minas Gerais. “Quando entrou Dr. Raimundo como presidente da OAB mineira, que está lá pela quinta vez e é amicíssimo meu, houve um dia em que o encontrei e pedi que ele desse um jeitinho de abrir a subseção em Arcos. Ele disse pra mim: ‘Pode deixar que vou abrir’”, relata e enfatiza que o advogado Geraldo Magela Rodrigues (Lalado) também havia feito a solicitação. “Eu terminei o curso, comecei a trabalhar e Dr. Raimundo [Dr. Raimundo Cândido Júnior] abriu a subseção em Arcos e veio para a instalação (em 21 de junho de 1994). Eu fui o primeiro secretário e o Lalado foi o primeiro presidente. Também participaram o Dr. Leopoldo Corrêa e o Dr. Paulo Ribeiro. Fui vice-presidente duas vezes”, relembra. 

 

Ele veio morar em Arcos quando nenhuma rua era calçada

Na juventude, Renato Coelho foi representante comercial de uma firma sediada no Rio de Janeiro, vendendo produtos químicos industriais importados. Trabalhou em sete estados (Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro, Parará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Na época, ele fez o concurso do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), passou e foi exercer o cargo em Oliveira. Depois de um tempo, conseguiu a transferência para Arcos, que era um grande anseio dele. Trabalhou no Instituto até se aposentar.

Mudou-se para Arcos em 1º de maio de 1955, há 64 anos, quando tinha 27 anos de idade. Ele diz que nenhuma rua era calçada e foi o prefeito Edgar Faria Gontijo (gestão 01/02/1959 a 31/01/1963) que começou a providenciar o calçamento, ao lado da escola “Yolanda Jovino Vaz”.

Antes de vir morar em Arcos, já frequentava o Município. Ele conta que a primeira esposa do médico e ex-prefeito de Arcos, João Vaz Sobrinho (gestões 01/05/1939 a 05/02/1944 - 01/01/1948 a 01/02/1951 - 01/02/1955 a 31/01/1959), era afilhada dos pais dele. Trata-se da professora Yolanda Jovino Vaz (que nomeia a escola estadual situada na praça Floriano Peixoto). “Quando Dona Yolanda fez o curso Normal em Formiga, ela ficava na casa dos meus pais. Os pais dela, João Jovino e Dona Corina Ribeiro, também eram padrinhos da minha irmã, Cecília”, relembra.

Na época havia uma agência do IBGE em Arcos que funcionava no antigo prédio do Fórum. No início da década de 1970, fecharam a agência. Na ocasião, ele foi transferido para Lagoa da Prata, onde trabalhou durante seis anos. Voltava para Arcos nos fins de semana, para ficar com a esposa e os filhos.  Inconformado, tomou providências para a reabertura da agência. Ele relata como obteve essa conquista. “Durante o regime militar, em 1964, havia apenas dois partidos no Brasil: ARENA (Aliança Renovadora Nacional - partido do Governo/Situação) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro – partido contrário ao regime militar). O Francelino Pereira foi governador do Estado de Minas e foi nomeado presidente nacional da ARENA. Eu já o conhecia. Na época eu tinha contato com os políticos. Então eu escrevi uma carta para ele, explicando que Arcos estava em pleno desenvolvimento e que era necessário reimplantar a agência do IBGE na cidade. Então ele falou com o presidente do IBGE e a unidade foi reaberta, permanecendo por mais uns três anos, quando fecharam novamente”.

 

 

A formação em Direito aos 65 anos de idade

Em 1993, aos 65 anos de idade, Renato Coelho formou-se em Direito pela FADOM (Faculdades Integradas do Oeste de Minas) em Divinópolis e continua na ativa, atuando, principalmente, na área Cível, com inventários.  Para quem está iniciando a carreira de advogado, ele orienta sobre a importância de se manter os valores morais e a ética.

 

Rivalidade entre UDN e PSD em Arcos

O governador de Minas na gestão março de 1947 a janeiro de 1951, Miltom Campos, e Magalhães Pinto, que também foi secretário de Finanças do Governo de Minas Gerais de 1947 a 1950, eram da UDN (União Democrática Nacional), de acordo com as recordações de Dr. Renato Coelho. O partido era orientação conservadora e foi fundado em 1945 por políticos opositores a Getúlio Vargas. De acordo com divulgação do site da Fundação Getúlio Vargas, o PSD (Partido Social Democrático) foi fundado em 1945 pelos interventores nomeados por Getúlio Vargas durante o Estado Novo. “Aliou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas também realizou inúmeras alianças com a UDN, considerada sua tradicional ‘adversária’ “, conforme é relatado no referido site.

Em Arcos, segundo nosso entrevistado, a maioria da população era UDN e havia muita rivalidade. “Do PSD foi o José Vilela (prefeito de Arcos nas gestões 02/02/1951 a 20/07/1952 - 26/11/1952 a 31/01/1955) e o Dr. Moacir Dias de Carvalho (prefeito de Arcos nas gestões 08/04/1945 a 22/11/1945 - 19/03/1946 a 04/01/1947). Eu era da UDN, junto com Dr. João”, relembra.
Ainda hoje, Dr. Renato afirma: “Não gosto de esquerda! Vejam o que o PT fez no Brasil! Arrasou com o Brasil..., e ainda querem ‘Lula livre’ para continuar a mesma coisa. Eu sou contra tudo isso.  Tiraram muito do Brasil. O petismo foi a maior desgraça que teve no Brasil”.    

Ao falar da política local, ele avalia que Paulo Marques (gestão 1º/02/1977 a 31/01/1983) e Dona Hilda Andrade (01/01/1989 a 31/12/1992 - 01/01/1997 a 31/12/2000) foram os prefeitos que mais trabalharam pelo Município.

 

O advogado, nascido em 1928, lamenta a queda na qualidade do ensino no Brasil

Desde a infância, Dr. Renato dedicou-se aos estudos e à literatura. Hoje, observa que há um desinteresse da maioria dos jovens pelos estudos e principalmente pela leitura. Além disso, também houve queda na qualidade do ensino, na opinião dele. “Muitos jovens não sabem nem definição de palavras em Português, a nossa língua! No meu tempo, tínhamos aulas de Latim e durante o tempo em que fiquei no seminário, aprendi um pouco de grego”, compara e diz que nem tenta orientar os mais novos em questões políticas, porque eles não estão dispostos a ouvir e não têm o hábito da boa leitura, o que inviabiliza o processo da aprendizagem.