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Festa do Rosário em Arcos resiste ao tempo e à falta de conhecimento sobre a cultura

A tradição surgiu no Brasil colonial, no século XVII; no Município, já havia manifestações do Congado em 1918

Publicada em: 19 de setembro de 2018 às 16h43
Cultura

Crédito: Toninho Claret

Festa do Rosário em Arcos resiste ao tempo e à falta de conhecimento sobre a cultura

Rei e Rainha da Coroa Grande, Orlando Oliveira e Maria Geralda de Oliveira, com o padre Aguinaldo G.

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 15/09/2018) - Edição 1966

 

“Negro de Angola chorava... negro de Angola sorria, pois nunca perdeu sua fé... em Deus e na Virgem Maria...” [Cantigas e cantos da Congada Catalão – GO].

Para quem conhece as origens, é difícil não se emocionar ao som dos tambores e demais instrumentos que compõem o Congado, e diante de toda beleza das letras, danças, fardas e dos acessórios. Os rituais comovem, alegram e encantam.

Neste ano, a Festa de Nossa Senhora do Rosário em Arcos, bem imaterial do Município, foi realizada no último fim de semana, dias 8 e 9. Contou com a participação de 17 ternos de Congado e de Folia de Reis, reunindo visitantes de Iguatama, Formiga, Perdões, Carmo do Cajuru, Macaia, Bom Sucesso e Guarita.   

O presidente da Associação dos Congadeiros, Donizete Antônio da Silva, disse ao CCO que está resgatando a tradição do Congado e dois novos ternos foram criados em sua gestão. Ele destaca o apoio do padre Aguinaldo Gualberto, responsável pela Paróquia Nossa Senhora do Rosário: “Como presidente, em matéria de paróquia, estou muito satisfeito. Esse padre é uma bênção!”.

Segundo o jornalista Ramon Calixto, um dos voluntários, a Festa foi realizada pela Associação dos Congadeiros e Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em parceria com o Grupo Teatral Guerreiros da Arte e de uma comissão composta de voluntários, com o apoio da Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo (SEMCELT).

De acordo com estudo realizado em 2012, que se encontra nos arquivos da Secretaria Municipal de Educação (SEMED), em Arcos “ainda existem atitudes de indiferença ou desprezo diante da manifestação”.

 

Kátia Vicentina representou a princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea em 1888,

abolindo a escravatura no Brasil. Crédito: Toninho Claret

 

Participantes em 2018

Rei e Rainha da Coroa Grande: Orlando Junior de Oliveira e Maria Geralda de Oliveira; Rei Perpétuo: Adriano Ribeiro; Rei Congo: Manuelino Onorato; Rainha Conga: Isolina Inês Justino; Rainha do Quadro de Nossa Senhora do Rosário: Ana Paula das Graças; Rainha do Quadro Santa Efigênia: Raissa de Morais; Rei do Quadro São Benedito: Nivaldo José Rodrigues; Rainha do Quadro de São Benedito: Carla Guimarães; Princesa Isabel: Kátia Vicentina.

 

Um século de tradição: em 1918 já  havia manifestação de Congado em Arcos

Nesta semana, o CCO teve acesso ao Dossiê de Registro Bem Imaterial Reinado de Nossa Senhora do Rosário, concluído em 2012, que está arquivado na SEMED. A pesquisa traz um rico conteúdo sobre o Congado, inclusive em nível municipal. “A origem dessa manifestação em Arcos pode estar relacionada à chegada, no município, de um senhor de nome Sebastião, cujo sobrenome não foi informado e que era conhecido na localidade como ‘Tião Macaco’, na década de 1940. Mas também foram encontrados documentos que relatam as apresentações de ternos de congados durante a realização da Festa de Nossa Senhora do Rosário em Arcos, escritos pelo jornalista Olavo Lomba no ano de 1918".

Ainda de acordo com dados do Dossiê, a devoção a Nossa Senhora do Rosário chegou ao Brasil no século XVI, trazida pelos colonizadores portugueses, e logo foi adotada por senhores e escravos. Contudo, foi entre os negros que essa devoção ganhou um número maior de fiéis. “Eles usavam o Rosário pendurado ao pescoço e depois dos trabalhos do dia reuniam-se em torno de um ‘tirador de reza’ e ouviam-se, então, no interior das senzalas, o sussurrar das preces dos cativos. O Terço era toda a liturgia dos pobres, dos que não sabiam ler nem escrever, mas que elevavam sua alma na contemplação dos mistérios da vida do Divino Filho de Maria”.

 

Festa do Rosário. Crédito: Toninho Claret

 

Os ternos de congado – Geralmente, as subdivisões do Congado são as seguintes: o Congo, o Moçambique, os Catopês, os Cavaleiros de São Jorge, os Marujos, os Caboclinhos e o Vilão.
Em 2012, quando o Dossiê foi concluído, existiam dois Ternos de Congado em Arcos: um do tipo Congo, o Congo Mirim, criado por Maria Aparecida Clemente; e o outro Catopé, que é o Congo Sereno criado por Geraldo Miguel e atualmente sob a responsabilidade da filha dele, Gislene Aparecida Miguel. Recentemente, segundo o presidente da Associação dos Congadeiros, foram criados mais dois ternos.  

Manifestação surgiu no Brasil colonial, no século XVII

De acordo com conteúdo disponibilizado no site www.suapesquisa.com/folclorebrasileiro/congada.htm, o congado apresenta elementos religiosos e culturais africanos (principalmente do Congo e Angola) misturados com portugueses (cristãos). Surgiu no Brasil Colonial, durante a segunda metade do século XVII. Os santos homenageados são três: São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia.