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MEMÓRIA DE ARCOS – RECORTES DO TEMPO

Hilda Borges de Andrade: discrição, humildade e sensibilidade diante da vulnerabilidade social

Publicada em: 13 de março de 2020 às 13h34
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

Entrevistas e Redação: Jornalista Rita Miranda 

 

A alternância entre as lideranças políticas “Plácido” e “Dona Hilda”, 1983 a 2008, estendeu-se por 26 anos. Foram mais de duas décadas de rivalidade entre as duas alas, que resultaram no desenvolvimento do Município e em benefícios para a população de Arcos.

Popularmente conhecida como a “Prefeita dos Pobres”, Hilda Borges de Andrade esteve à frente do Executivo Municipal em duas gestões. A primeira foi de 1º de janeiro de 1989 a 31 de dezembro de 1992, sucedendo Plácido Ribeiro Vaz em sua primeira gestão. O vice-prefeito ao lado de Dona Hilda era o médico Roberto Dias de Carvalho.  A segunda gestão foi de 1º de janeiro de 1997 a 31 de dezembro de 2000, quando o vice-prefeito foi o médico Sebastião Rodrigues da Cunha. Ao considerar os dois mandatos, foram oito anos à frente do poder público municipal.

Dona Hilda era natural de Belo Horizonte e casou-se com o industrial Maurício Andrade aos 17 anos, quando veio morar na fazenda São Miguel em Calciolândia, que era propriedade de Donato Andrade, pai de Dr. Maurício, onde também moravam outros filhos do casal Laura e Donato Andrade.  Dr. Maurício foi deputado estadual de 1947 a 1954 e deputado federal em quatro legislaturas, de 1955 a 1971.

Dona Hilda e Dr. Maurício tiveram três filhos: Eduardo, que é engenheiro e empresário; Santusa, que é pintora e Rita (in memoriam). Santusa mora em São Paulo e Eduardo mora em Belo Horizonte.   São seis netos e seis bisnetos. Vêm a Arcos periodicamente.

 

“[...] Ela era muito reservada, mas não era uma questão de empoderamento [...]”

 “A personalidade da Dona Hilda se reduz toda em humildade. Eu ficava admirada! Ela era muito reservada, mas não era uma questão de empoderamento. Antes eu imaginava que era; eu imaginava que ela era uma ‘rainha’ do Dr. Maurício Andrade, mas no primeiro contato eu pude perceber tudo ao contrário. Eu ficava encantada ao ver o quanto ela se sensibilizava diante da pobreza. Quando o Lactário foi construído, ela queria ir pra lá, trabalhar lá, para ver as pessoas receberem o leite. Ela foi algumas vezes. Era humanamente responsável!” – depoimento da educadora Lázara Teixeira de Sousa, que foi diretora do então Departamento Municipal de Educação nas duas gestões de Dona Hilda.

Lázara Sousa também disse que Dona Hilda não tinha em mente projetos físicos grandiosos. “Ela se preocupava com a situação de vivência das pessoas. Meu projeto era melhorar a qualidade da educação e ela queria melhorar a qualidade de vida. Isso somou. Eu me orgulho da melhora pedagógica da educação na época. Procurávamos envolver todo o processo de educação de Arcos – municipal, estadual e privado – com aperfeiçoamento dos professores e dedicação intensa na qualidade do ensino”.
O marido de Dona Hilda, Maurício Andrade, ocupava o cargo de secretário de Governo na Prefeitura, o que motivou comentários do tipo: “Quem manda na Prefeitura é o Dr. Maurício”. Lázara Sousa relata outra versão: “Nada era feito sem ela analisar e aprovar. Dr. Maurício foi sempre um sonhador, mas não realizava absolutamente nada sem a participação da Dona Hilda. Ela era mais brava do que ele. Foi muito interessante a parceria esposa e esposo na Prefeitura”.  

No que se refere à rivalidade entre Plácido Ribeiro Vaz e Hilda Borges de Andrade, a disputa maior era entre os eleitores. “Plácido e Dona Hilda não pareciam ser adversários. Percebi isso muitas vezes”, diz a educadora.

Dona Lázara encerrou seu depoimento com a seguinte análise sobre o estilo de administração de Dona Hilda Andrade: “Em primeiro lugar, antes da responsabilidade diante da administração do Município, havia respeito ao outro; junto com esse respeito, por parte da Dona Hilda vinha a sinceridade, o respeito a quem estava presente e a quem estava distante, o respeito geral ao ser humano. Esses dois caracteres fazem parte do que a sociedade atual está precisando: respeito e sinceridade”.

 

Antônia Teixeira da Cunha (Marli)

 

A secretária e amiga que esteve sempre ao lado de Dona Hilda

O CCO também conversou com Antônia Teixeira da Cunha (Marli), 65 anos, secretária na Fazenda São Miguel desde os 22 anos de idade e uma das melhores amigas de Dona Hilda. Depois do falecimento dela, em 2008; do Dr. Maurício, em 2011 e de Rita Andrade (filha do casal), em 2014, Marli permaneceu trabalhando na casa junto a outros funcionários. São 46 anos de dedicação e de aprendizado, como ela mesma diz. “Aprendi a administrar, aprendi regras de etiqueta e muitas outras coisas. Dr. Maurício me ajudava nos exercícios do meu curso de Contabilidade e gostava de ‘bater papo’ com os funcionários; perguntava pela saúde e pela família. Ele gostava muito de ler e entendia de tudo”, disse, mostrando a biblioteca do escritório, repleta de livros das mais diversas áreas do conhecimento.

Por falar em regras de etiqueta, um traço marcante da conduta de Dona Hilda, segundo Marli Teixeira, é que ela não gostava que falasse mal dos adversários políticos.  Dizia que as pessoas devem ter o direito de escolher.

 

Salário da prefeita era investido em doações para os pobres, segundo a secretária

Bem antes de ingressar na política, Dona Hilda já assistia aos menos favorecidos financeiramente, conforme relata Marli Teixeira. “As pessoas pediam muitas coisas a ela... móveis, fogão, cama... e ela dava. Quando recebia convites de casamento, mandava eu ir perguntar se o casal já tinha todo o enxoval, se estava precisando alguma coisa; se não tivesse, ela dava. Quando era presidente do Arcos Clube (gestão de 1977 a 1986), ia nas casas convidar os pais para prepararem as filhas de 15 anos para os bailes de debutantes. Nas situações em que as famílias não tinham condições de preparar as meninas, ela dizia: ‘Vamos fazer sim...’ e pagava tudo!”

Quando foi eleita prefeita, conta Marli, ela manteve o hábito de ajudar as pessoas. “Eu nunca vi ela pegar um centavo do salário dela como Prefeita e trazer para a fazenda. As pessoas iam pedir e ela dava... remédio, cirurgia, bolsa de estudo...’ “, relembra a secretária. 

 

Formação em arquitetura e prazer em cozinhar

Dona Hilda Andrade era arquiteta de formação, segundo Marli Teixeira. “Ela me falou que se formou em Arquitetura; ela fazia plantas. Desenhou o barraco da minha avó, Serulha de Assis Teixeira, e de uma funcionária daqui da fazenda também”.  A secretária também disse que Dona Hilda gostava de cozinhar e cozinhava bem.

 

Dona Hilda com Dona Risoleta Neves e Tancredo Neves

 

Tancredo Neves frequentava a fazenda de Dona Hilda e Dr. Maurício

As grandes recepções na Fazenda São Miguel ficaram na memória de Marli Teixeira, que sente saudades daquela época em que a casa era movimentada com as presenças de amigos da família, a exemplo de Tancredo Neves, Newton Cardoso, Aécio Neves, Hélio Costa e muitos arcoenses – um deles era o professor e radialista Roulien Lima. “As festas aqui eram muito animadas. Em certa ocasião, Dr. Maurício disse pra mim que ia convidar o Newton Cardoso pra vir aqui, porque ele tinha plantado milho e batido o recorde na colheita. Isso foi na época em que ele foi governador de Minas (15/03/1987 até 15/03/1991). Dr. Maurício disse que seria uma recepção para 500 pessoas. Eu disse para dona Hilda: Vamos fazer comida para 1.200, porque governador carrega muita gente. E não deu outra!... Vieram umas mil pessoas. Eu e a Dona Hilda ficamos a noite inteira fazendo pudins de leite moça. Fizemos 60 pudins e lembro que comprei 300 kg de picanha”.

Tancredo Neves esteve na fazenda São Miguel em diversas ocasiões, porque era padrinho de Santusa Andrade, filha de Dona Hilda e Dr. Maurício, que eram padrinhos de uma filha do Tancredo. “Tancredo e eles eram compadres duas vezes. Dr. Maurício era padrinho da irmã do Aécio Neves e o Tancredo era padrinho da Dona Santusa. Tancredo veio aqui muitas vezes, em todo aniversário ele vinha, na década de 1980. Ele era muito simples. Aécio Neves também já veio”, relata Marli Teixeira.

Tancredo Neves foi uma das maiores personalidades políticas do Brasil, porque seria o sucessor de Figueiredo na presidência do país – último presidente do regime militar iniciado em 1964. Havia uma grande expectativa dos eleitores, mas ele faleceu antes de tomar posse. Tancredo havia participado das manifestações pelas eleições diretas, que não aconteceram naquela ocasião. Foi escolhido pelo Colégio Eleitoral, na disputa com Paulo Maluf. A posse seria no dia 15 de março de 1985 e ele morreu em 21 de abril, depois de ter sido submetido a sete cirurgias (conforme divulgação da Fundação Getúlio Vargas).  

Outro fato curioso relatado por Marli Teixeira é que Fernando Henrique Cardoso, quando era presidente do Brasil (gestão 1995 a 2003), ligou para a fazenda e disse que queria conhecer Dona Hilda – na época ela havia sido considerada a prefeita mais idosa do Brasil, conquistando grande popularidade. “O presidente a convidou para ir ao Palácio e nós fomos. Quando foram vistoriar a bolsa dela, ela disse: ‘Vocês não vão ver nada na minha bolsa, fui convidada!’. Diante do presidente, ela falou: ‘Fernando Henrique, pelo amor de Deus..., não pode ficar vistoriado bolsa de mulher não, eu sou uma convidada, fala para seus assessores aí’ “, conta Marli Teixeira, lembrando que depois disso o presidente teria emitido um Decreto proibindo a vistoria em bolsas de mulheres.

Ao concluir a entrevista, a secretária lamentou o fato de não ter ocorrido nenhuma manifestação em Arcos no dia da morte de Dona Hilda, aos 90 anos de idade.  Marli presenciou diversas demonstrações de afeto da população local para com Dona Hilda enquanto prefeita, principalmente as pessoas mais humildes. No entanto, afirma que certas pessoas diziam coisas absurdas. “As pessoas falavam que ela não gostava de pobre e que andávamos com garrafa de álcool nas mãos para desinfetar. Isso nunca existiu! Era o contrário, ela era muito dedicada aos pobres”, enfatiza.

 

Hilda Borges de Andrade em cerimônia de posse

 

“[...] Realizo-me na medida em que posso fazer da Prefeitura um instrumento para melhorar a qualidade de vida do povo” – Hilda Borges de Andrade (registro do livro História de Arcos).

O livro História de Arcos, publicado em 1992, na primeira gestão de Dona Hilda, traz informações curiosas e importantes sobre o Município. A coordenação e redação foram feitas por Lázaro Barreto, com supervisão da educadora Lázara Teixeira de Sousa e pesquisa da educadora Rita de Cássia Zuquim. Um dos capítulos, intitulado “O Papel da Mulher”, contém uma entrevista com a então prefeita, na qual ela diz: “O meu ingresso na vida política de Arcos foi uma atitude voluntária. Um considerável segmento da população de Arcos, através de uma manifestação em minha casa, levou-me a aceitar a candidatura, tendo sido eleita por maioria absoluta do eleitorado [...]. Sempre considerei a Prefeitura um instrumento para realizar o bem público. Têm sido realizadas pesquisas que revelam a quase total aprovação popular do trabalho que venho desenvolvendo. Assim, realizo-me na medida em que posso fazer da Prefeitura um instrumento para melhorar a qualidade de vida do povo”. [...]. Não vejo nenhuma diferença entre homens e mulheres com vocação à militância política. Em Arcos, tanto homens quanto mulheres lutaram para melhorar a comunidade. A única diferença apresentada é que fui a primeira mulher a ser Prefeita, mas outras mulheres virão, certamente; é apenas uma questão de vocação para a vida pública ou pressão da oportunidade como aconteceu no meu caso”.

 

Principais realizações nas duas gestões

 

Saúde – De acordo com registros do Livro História de Arcos, em 1991 a prefeita iniciou a descentralização das ações de serviços de saúde pública do Estado para o Município, a fim de “garantir a resolutividade do sistema local com vistas à consolidação do Sistema Único de Saúde no âmbito estadual e municipal’. Portanto, o processo de municipalização da saúde na cidade teve início na primeira gestão de Dona Hilda.    

Também em 1991 foi criado o Centro de Assistência Integral à Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. A iniciativa foi do médico Roberto Dias de Carvalho, que era vice-prefeito. O centro funcionava em convênio com a Secretaria Estadual de Saúde, o PRONAV-LBA, e a Fundação Municipal de Saúde, em um prédio na rua Formiga, onde eram realizados trabalhos preventivos e educativos por dois psicólogos, dois enfermeiros, um assistente social, um pediatra, uma ginecologista e oito agentes de saúde. Faziam orientações sobre planejamento familiar e também foi implantado um programa de alimentação alternativa, incluindo a assistência às gestantes, o acompanhamento do período puerperal, a identificação, o diagnóstico e o tratamento de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), um centro de apoio ao desnutrido e um programa social de imunização.

Educação – A diretora do então Departamento Municipal de Educação e Cultura na época era a professora Lázara Teixeira de Sousa, fundadora do colégio INPA (Instituto Pedagógico Arcoense). Dentre suas várias realizações à frente da Pasta estão as seguintes: levantamento da demanda escolar, ocupação de salas de aula ociosas, estabeleceu-se o número máximo de 25 alunos nas séries iniciais do então 1º grau, implantação de recursos audiovisuais, atividades culturais e ênfase à literatura infantil, criação e manutenção de bibliotecas, incentivo à leitura e pesquisa escolar, aperfeiçoamento de docentes e especialistas; salário decente para o profissional do ensino, com percepção das vantagens de quinquênio e incentivo à docência; realização de 17 cursos de reciclagem destinados a docentes, especialistas e auxiliares de biblioteca e secretaria; criação e desenvolvimento do Projeto de Alfabetização PENA – Educação de Jovens e Adultos, com duração de dois anos (1991 e 1992); projeto de expansão de 5ª a 8ª séries para a zona rural; projeto Ensino Supletivo para a zona rural: jovens com idade acima de 16 anos eram levados à Unidade de Ensino Supletivo, na sede; criação, instalação e funcionamento da creche municipal “Sagrado Coração de Jesus”; instalação e funcionamento do Serviço de Psicologia Educacional, em circulação com a Área de Saúde Trabalho pioneiro no Município, com duas psicólogas; transporte de alunos; coordenação e manutenção das atividades da Casa de Cultura; fornecimento de material didático e uniforme escolar a todos os alunos de baixa renda; transporte escolar para a zona rural; reforma, limpeza e pintura em todas as unidades do ensino; equipamentos de recursos audiovisuais  em todas as escolas de 1º grau. 

Obras – Uma das obras da primeira gestão de Dona Hilda que mais se destacou foi a construção do Lactário e da Padaria Municipal (com produção inicial de 300 litros de leite de soja de seis sabores, por hora, e mais 5 mil pães de farinha de soja por dia). E ainda: Construção e ocupação de 125 casas populares; doação de 122 lotes no Núcleo II para construção de casas em forma de mutirão – bairros Cidade Esperança, Cruzeiro e Novo Horizonte; pavimentação asfáltica em ruas de 15 bairros e do centro; construção da trincheira ligando a avenida Governador Valadares à BR 354; implantação do Distrito Industrial II e Distrito Industrial I .

Na segunda gestão, algumas de suas obras são as seguintes: avenida Dr. Moacir Dias de Carvalho, que liga a região central e o bairro Santo Antônio; a conquista de um campus da PUC Minas para Arcos; implantação do Programa Médico da Família beneficiando moradores dos bairros Olaria, Alvorada, Nova Morada, São Judas, Novo São Judas, Esplanada e comunidades Boca da Mata e Cristais; inauguração do Hospital de Referência em Otorrinolaringologia; construção do Parque Aquático Municipal.

O projeto da avenida sanitária foi elaborado na primeira gestão de Hilda Andrade. A canalização do trecho próximo à rua São Geraldo até o trecho próximo à rua Ascânio Lima foi feita na segunda gestão de Plácido Vaz. Da proximidade da rua Ascânio Lima até o Córrego dos Arcos, a obra foi feita na segunda gestão de Hilda Andrade. A canalização do Brejo Alegre entre a avenida Progresso e a rua Álvares da Silva, assim como a conclusão do Trecho I foram feitas na gestão de Lécio Rodrigues. Já a canalização do Trecho II foi feita na última gestão de Plácido Vaz.