Zé Neca veterinária
RECORTES DO TEMPO - HISTÓRIAS DE ARCOS

Jésus Cabral conta sua história de vida

''Como foi difícil a vida... hoje o povo vive num mar de rosas e reclama de tudo'', disse.

Publicada em: 29 de abril de 2020 às 15h18
Arcos
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 25/04/2020) - Edição 2048

Jésus Cabral da Costa tem 82 anos. É aposentado, ama truco e uma roda de amigos. Em entrevista a Dalvo Macedo, colaborador do Jornal CCO no projeto Recortes do Tempo - Histórias de Arcos, ele contou sua história e as principais lembranças de sua época.

José Cabral é filho de Delfino Cabral da Costa e Dorvalina Lima de Jesus. É casado com Luzia da Costa Miranda, com quem completará 60 anos de matrimônio, no dia 20 de julho deste ano. Ambos são naturais de Santo Antônio do Monte, mas em 1975 se mudaram para Arcos e estão aqui há 42 anos.

 

Sua história

Ele conta que estudou em uma área rural e que precisava percorrer três léguas a pé, para ir e voltar da escola, todos os dias. Na época não havia merenda na escola. Os alunos levavam o que tinham em casa, a exemplo de rapadura, mexido e frutas. Também não tinham pastas ou mochilas para carregar os objetos. Usavam capanga de pano (embornal) e era um caderno para todas as matérias. "Como foi difícil a vida..., hoje o povo vive num mar de rosas e reclama de tudo", disse.

Jésus contou que quando foi para marcar seu casamento, o Padre Cirilo, de Santo Antônio do Monte, quis mudar o nome dele. "Eu disse: quero marcar nosso casamento. Ele perguntou meu nome e eu disse JESUS. Ele fechou o livro e disse: JESUS, só tem um, com este nome não marco. Marcou como JÉSUS, mudou apenas a pronúncia".

Ele se mudou para Arcos em 1975, a convite de seu cunhado Francisco Dias de Carvalho, para trabalhar em sua Fazenda 'Juá'. Era uma fazenda com de plantações, onde se preparava a terra por três meses. O trabalho era feito por meio da tração animal, com dois arados e 12 bois. A safra anual era de aproximadamente 80 sacas de feijão, 3.000 sacos de milho e 900 alqueires de arroz. A produção era vendida para Antônio Cardoso, "Bié" e Antônio do Ortalino. Depois, com a chegada das indústrias, ficou mais difícil o trabalho do homem do campo e foi necessário mudar para a produção de leite e gado de corte.

Ele conta que ajudou na construção do Posto Juá e de um bar. Segundo ele, o empreendimento era uma sociedade entre Francisco Dias Carvalho, Antônio Nogueira e Luiz Nogueira. Depois, o estabelecimento foi comprado por um senhor chamado Afonso, que fez uma grande ampliação, inclusive um restaurante. Depois foi vendido para Dr. Sebastião Calixto.

 

Lembranças

Durante a entrevista, Jésus falou sobre algumas de suas lembranças da época:

Alguns lugares da cidade - Ele relembrou que em sua época, o bairro São Judas tinha apenas três casas a caminho da cidade. "Passava em um pequeno comércio de madeira, do Dr. Eurides (hoje Pulo do Gato). Havia o Beco do Fumal, que ligava a Fazenda Juá ao comércio do Sr. Jorge Calácio, onde transitavam dezenas de carros de boi, cavaleiros e pedestres que vinham para a cidade. Depois descia a rua Álvares em sentido ao São Domingos", contou.

Pescarias - Também relembrou suas pescarias com os amigos. Segundo ele, havia uma turma de pescadores que fizeram história: Chiquitinho Dias, Chico Cuca, João Neca, Gláucio, Antônio Nogueira, Jésus, Juca Neca, Luiz Nogueira, Valdomiro, Sílvio da Cunha e Nenzico Macedo. "Esses homens foram grandes companheiros, amigos, que contavam muitos casos e histórias de suas pescarias. Divertiam-se com brincadeiras sadias para descontrair os acampamentos, que geralmente aconteciam duas vezes ao ano no Rio São Francisco, em um período de oito a dez dias".

Jésus conta uma das histórias: No rio existia uma travessia de gado para Bambuí, que chamava Antônio Pintado. Lá morava um peixe muito grande. Antônio Nogueira e seus companheiros colocaram uma câmara de ar de caminhão para servir como boia e fisgaram, em um anzol de palmo, um grumatã médio, de 5 kg.

Casos de João Neca, relatados por Jésus

Em determinada pescaria, pegaram um Surubim de 180 kg, aproximadamente, no Rio São Francisco, Rancho do Sr. Valdomiro. Para tirar o peixe, tiveram de colocar duas varas dos lados e enrolaram uma corda para apaziguá-lo. Existia um comprador de peixe na região, chamaram ele e falaram que o peixe era muito grande. Ele levou o carro de boi, furou um buraco debaixo das rodas, o boi arrastou o peixe que ficou com a cabeça para frente dos fueiros e com o rabo arrastando no chão.

O Sr. João Neca (Patrício), quando ia pescar, levava um feixe de varas, colocava um facão grande na bainha e do outro lado uma garrucha de dois tiros. Quando chegava a um pesqueiro, tirava um pó rapé (fumo) e dava seu suspiro. Iscava todas as varas e se não estivesse pegando, partia para outro pesqueiro e cantava a seguinte musiquinha: puxa, puxa pororoca, os peixes daqui não gostam de minhoca.