Mérito Empresarial

Literatura, Filosofia e Psicologia: alternativas na busca pelo resgate da sensibilidade e da moral

Projeto desenvolvido na APAC em Arcos, pelo psicólogo Evandro Santana, visa à recuperação das regras de conduta, a partir da leitura

Publicada em: 30 de maio de 2018 às 10h01
Arcos
Educação
Literatura, Filosofia e Psicologia: alternativas na busca pelo resgate da sensibilidade e da moral

Alguns dos recuperandos do regime semiaberto (ao fundo) durante a aula do autor do projeto

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 26/05/2018) - Edição 1950

 

Reportagem, Pesquisa e Redação: Jornalista Rita Miranda

No artigo Liberdade: dos pensadores ao direito fundamental [*], Bianca Machado Mendonça relata, referenciando a filósofa Marilena Chauí, que um dos primeiros filósofos a evidenciar o conceito de liberdade foi Sócrates (469 a 399 a.C.). “Para o filósofo, o homem livre é aquele que consegue dominar seus sentimentos, seus pensamentos, a si próprio; e a escravidão é marcada pelo fato de o homem deixar que as paixões o controle. A palavra-chave para a concretização da liberdade, segundo esse pensador, é autodomínio”. [*] Artigo publicado em www.revistas.unifacs.br.

Quando a abordagem sobre o tema “liberdade” remete ao anseio de quem cumpre pena no sistema carcerário brasileiro – tão criticado pela corrupção que permite as fugas e os privilégios, pela incapacidade de recuperação moral, pelos altos custos financeiros para o poder público, conclui-se que é preciso efetivar meios realmente eficazes de reeducação. Afinal, muitos vão sair “a qualquer custo” e reincidir no crime.

O artigo 126 da Lei de Execução Penal estabelece o seguinte: “O condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir, por trabalho, estudo ou pela leitura de livros, parte do tempo de execução da pena”. Contudo, mais importante que reduzir pena é tentar mudar o comportamento dos encarcerados. Com esse propósito, o psicólogo Evandro Santana, voluntário na APAC (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado) em Arcos, criou o projeto “Resgate do Simbólico”, que poderá contribuir no resgate da moral dos recuperandos e reduzir a reincidência. A equipe de funcionários da instituição e a pedagoga Junia Medeiros colaboram no projeto.

A proposta de Evandro é trabalhar o desenvolvimento da “Inteligência Moral” dos recuperandos.  O psicólogo está atento aos meios para garantir credibilidade ao trabalho. “Há dois anos já fazia esse projeto, mas a necessidade de instrumentalizar através da literatura universal começou com o encaminhamento para o Judiciário em fevereiro de 2018, sendo aprovado em março”, relatou ao CCO.

 

Grandes obras da literatura universal – Os 45 recuperandos da APAC estão participando do projeto. A fase atual é de ensinar a leitura elementar, que os capacitará para entendimento das obras. Este processo terá duração de três meses. O estudo está sendo feito por meio de um manual pedagógico para leitura: “Como ler Livros”, do filósofo Mortimer Adler. Em seguida, os internos irão ler grandes obras da literatura universal, a exemplo de Hamlet (William Shakespeare), Dom Quixote (Miguel de Cervantes), Crime e Castigo (Fiódor Dostoiévski) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). A escolha das obras é feita pelo autor do projeto, atento ao conteúdo que possibilite “a transformação simbólica e subjetiva dos detentos, para melhor alcançar o desenvolvimento da inteligência moral”. O voluntário pretende, através das obras literárias, “auxiliar os internos na reconstrução do seu universo subjetivo para, assim, tentar ressignificar sua relação com o mundo objetivo”. Para melhor compreensão, Evandro apresenta uma citação do filósofo Carlos Nougué: “Ao alimentarmos nossos espíritos com artes belas, subimos rumo à virtude; ao contrário, ao nos alimentarmos da arte feia, estaremos propensos aos vícios”.

 

Avaliação – Para comprovar a leitura, haverá um cronograma no qual será estipulada uma quantidade específica de capítulos a serem lidos num período de 15 dias. A cada ciclo, sob orientação do voluntário, serão feitas discussões e revisões dos respectivos capítulos, refletindo acerca do conteúdo histórico, filosófico e psicológico da obra. Ao final da leitura, será cobrada ficha literária focada na percepção individual do recuperando. Aqueles que não corresponderem terão que repetir a leitura. A avaliação será encaminhada para o Judiciário.

A Lei estabelece o prazo de um mês para a efetivação da leitura de cada livro. No entanto, Evandro Santana acredita que é necessário mais tempo para o processo de reeducação do imaginário e da moral dos recuperandos. “Enquanto a lei propugna 12 livros ao ano, eu pretendo efetivar com no máximo quatro, pois o objetivo primeiro do projeto é transformação moral e não remição da pena, esta é apenas um incentivo”, explica.

 

 

Alguns dos recuperandos (regime fechado) e o psicólogo Evandro Santana (à direita, de barba), autor do projeto.

 

Contribuição para a segurança da sociedade – Geralmente, quem realiza trabalhos voluntários em benefício de detentos é criticado. Evandro Santana explica qual foi a motivação para essa iniciativa: “Como boa parte das pessoas, penso que um criminoso, acima de tudo, deva ser punido. Acredito também que seja imprescindível que toda punição tenha seu caráter educativo. Os recuperandos, um dia, voltarão ao convívio social. Para tanto, faço este trabalho acreditando que posso, modestamente, contribuir para melhor segurança da minha família e da sociedade, além de acreditar na transformação do ser humano. Esta é a minha contribuição enquanto cidadão e acredito nela”.

 

Como resgatar valores morais, a partir da literatura? – Diante da pergunta do CCO, o psicólogo responde: “Os melhores filósofos e psicólogos do mundo são incapazes de descrever ou expressar com exatidão os dilemas existenciais da humanidade tão bem quanto um bom ficcionista. Através de suas obras, muitas vezes nos levam a perceber a nós mesmos de forma indireta, pelas experiências ali relatadas, constituindo assim o nosso mundo simbólico. Além do mais, é uma forma dos recuperandos substituírem seus velhos hábitos, que sempre vêm à tona em seus momentos ociosos. Santo Agostinho tem uma expressão que diz ser ‘o hábito a nossa segunda natureza’. Se nutrirmos nosso cotidiano com hábitos baixos e tóxicos, tenderemos ao vício, do contrário, ao alimentarmos de hábitos saudáveis, estaremos mais próximos da virtude”, conclui.