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Manifestação religiosa e cultural em devoção à Virgem Maria e santos católicos

Publicada em: 26 de outubro de 2021 às 14h06
Arcos

Crédito: Donizete Antônio

Manifestação religiosa e cultural em devoção à Virgem Maria e santos católicos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 16 de outubro de 2021) Edição 2124

“A população está aceitando mais o Congado. Não éramos bem aceitos, mas, graças a Deus, isso está mudando”, disse o vice-presidente da Associação dos Congadeiros de Arcos, Donizete Antônio, em entrevista ao Jornal CCO na última segunda-feira, 11. Neste ano, a Festa de Nossa Senhora do Rosário (Congado) foi realizada no período de 30 de setembro a 10 de outubro.

Donizete fez questão de agradecer ao padre Agnaldo Gualberto (ex-responsável pela paróquia Nossa Senhora do Rosário) e ao padre Keroll de Paula, pelo incentivo e participação, acrescentando que a Associação precisa de mais apoio do poder público. Uma das necessidades é um espaço para guardar os instrumentos e demais pertences.

No ano passado, padre Keroll mobilizou a comunidade para a criação de um terno mirim. O termo Marinheiros de Nossa Senhora foi criado por Estefânia Nadimar, em setembro de 2020. Segundo Estefânia, iniciaram os ensaios com a bênção do padre no dia 25 de setembro de 2020. “Tive o apoio do padre Keroll para levantar essa guarda. Mantive a guarda em pé, com o apoio das mães e das crianças (de 6 meses a 15 anos). Conto atualmente com 42 integrantes, entre crianças, adolescentes e os adultos nos instrumentos”. José Augusto é o 1º Capitão; Miguel Henrique (de 12 anos) é o 3º Capitão e Estefânia é a 2ª Capitã.

Neste ano de 2021, o mesmo padre idealizou e criou o terno Rosário de Maria. São 35 componentes, sendo que a maioria são adultos. Até então, Carmem Silva Duarte e Cida Amorim são responsáveis pelo Terno. “A comunidade se uniu a esse propósito com oração, novena, encontros e celebrações eucarísticas”, disse Carmem, coordenadora, enfatizando que se trata de uma festa de caráter religioso e cultural. “Temos que aprender e ensinar que a Festa do Rosário é uma festa Religiosa e uma Cultura do Bem. Muitas pessoas participaram conosco”.

 

Participantes – Devido à pandemia, no ano passado a festa não foi realizada e, neste ano, limitaram os convites de ternos de fora. Contaram com a participação de três: das cidades de Iguatama (inclusive Garças) e São Sebastião das Estrelas. De Arcos, houve a participação dos ternos Congo Sereno, Filhos de Jorge e dos recém-criados: Marinheiros de Nossa Senhora e Rosário de Maria.

Congado: fé, tradição e sincretismo religioso

 

“É uma manifestação popular, cultural e religiosa. O preconceito está muito no coração de quem não entende, ou não gosta, ou não conhece. O Congado está ligado às culturas africanas sim, mas não ‘às culturas ditas do mal’ ” – padre Keroll Reis de Paula – pároco na Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Arcos.

 

A tradição dos congadeiros surgiu no Brasil colonial, durante a segunda metade do século XVII, espalhando-se por vários estados. No território da atual cidade de Arcos, já havia manifestações do Congado em 1918.

O pároco da Paróquia do Rosário de Arcos, padre Keroll Reis de Paula, lembra que o Congado – também chamado de Festa do Rosário ou Reinado – é a Festa de Nossa Senhora do Rosário e dos demais santos padroeiros: São Benedito, Santa Efigênia, São Jorge e Nossa Senhora das Mercês. “É uma expressão fé dos antigos povos negros vindos da África e que chegaram ao Brasil com características de religiões daquele continente, misturadas à religião cristã. A Congada ou Congado é o que denomina um estilo de dança, com os cantos, a cultura, os tambores, ritmos e o colorido de uma festa Cultural e Religiosa”, sintetiza.

O padre explica que “os congadeiros ou reinadeiros reverenciam o Reinado de Maria, coroada na Terra e no Céu, por sua intercessão que liberta e ajuda aqueles que sofrem e pedem seu amparo”.

No passado havia certo preconceito em torno da festa, mas, atualmente, Padre Keroll acredita que é uma tradição admirada por todos. “É uma manifestação popular, cultural e religiosa. O preconceito está muito no coração de quem não entende, ou não gosta, ou não conhece. O Congado está ligado às culturas africanas sim, mas não ‘às culturas ditas do mal’ ”, afirma e acrescenta: “A Festa do Rosário tem a intenção de levar, a todos, a alegria e a fé, recordando, sim, um passado sofrido, mas ao mesmo tempo conta as histórias hoje com alegria, com dança; festeja o Reinado de Maria e a Libertação que sua intercessão trouxe”.

 

História – Estudioso do assunto, o padre descreve registros históricos do Congado no Brasil: “A Festa de Nossa Senhora do Rosário foi introduzida ainda no Brasil Colonial, mesmo período em que os negros chegaram ao país. Muitos eram proibidos de entrar nas igrejas edificadas pelos brancos portugueses, porém, não eram proibidos de manifestarem sua fé”.

Ele também comenta: “As restrições aos negros escravizados eram muitas, porém, quanto à fé, havia certa liberdade.  Assim, eles ajudaram a construir muitas igrejas e construíram também as suas. Posteriormente, esses grupos passaram a ser chamados de ‘Irmandades’, dentre elas, as dos Negros, dos Brancos, dos Militares e outras. Essas irmandades tinham suas próprias igrejas e as igrejas dos negros, em sua maioria, eram dedicadas à Nossa Senhora do Rosário, A qual eles reverenciavam quando eram soltos ou libertos”.

Ainda de acordo com os relatos feitos ao CCO pelo padre Keroll, a Festa do Rosário se misturou ao Congado com as festividades de "Chico Rei". “Com o passar do tempo, esse sincretismo religioso foi crescendo. No Congado (ou Festa do Rosário), misturaram-se à religião cristã católica, as culturas vindas da Europa, África e América. Posso dizer que os negros que vieram da África trouxeram as suas tradições e incorporaram a elas a religião cristã, misturando com a fé dos brancos portugueses e o que aqui já havia”.

O padre ressalta que os negros vieram para o Brasil já com seus ritmos e passaram a difundi-los também nessa celebração do Rosário e nas festas de rua, festas populares e religiosas. “O pessoal da Festa do Rosário de Maria canta um tempo triste, mas com a alegria dos dias de hoje”.

 

Inclusão – Sem se restringir ao contexto local, da cidade de Arcos, o padre acredita que muitos negros não deixaram suas religiões tradicionais, mas aceitaram também o cristianismo. “A Igreja nunca fechará as portas para aqueles que chegam. Acolhe a todos que chegam com respeito e fé”, enfatiza, demonstrando que não há exclusão.

Padre Keroll levantou dois ternos de Congado para festa do Rosário de Arcos e afirma que, aqueles que acompanham, são fiéis católicos. “São coroinhas, ministros, catequistas, pessoas que ajudam na paróquia do Rosário e que participam das missas e têm fé em Nossa Senhora do Rosário. Quando uma pessoa tem fé, ela é sempre bem-vinda. Assim é que nós somos cristãos. [...] A Virgem Maria citada nas Sagradas Escrituras é a mesma para todos (...) é a Nossa Senhora do Rosário para todos os que têm fé e trazem suas bandeiras ou terços nas mãos”.

Ao concluir sua explanação sobre a Festa do Rosário, o padre sintetiza: “Somos um povo miscigenado, misturado, somos todos irmãos; temos um mesmo Deus e uma mesma Mãe. Quando não na cor da pele, na raça, etnia; quando não na alma ou na cultura, trazemos um pouquinho de cada um na vida e no coração, um amor incomensurável pela mãe de Jesus, carinhosamente chamada de Nossa Senhora do Rosário. O que nos une é maior do que o que nos separa, a Fé, que dá essa característica maravilhosa da Festa do Rosário e do Congado. Na festa há pessoas brancas, negras, morenas, pardas; não há divisões. Acredito nessa união das pessoas, nessa família que formamos”.

É com esse pensamento que o padre segue apoiando e participando da Festa.