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Cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19

Médicos que atendem em Arcos opinam sobre as medicações

Publicada em: 02 de junho de 2020 às 14h24
Arcos
Saúde
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(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 30/05/2020) - Edição 2053

O Ministério da Saúde (MS) publicou, no último dia 20, um novo documento com orientações para o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. De acordo com divulgação feita pela Agência Brasil de notícias no dia 20, a nova diretriz traz como recomendação a aplicação da droga também em pacientes em estágios leves, dependendo de decisão médica. O que muda é que, até então, a orientação do MS era de emprego do medicamento em casos de média e alta gravidades. É importante lembrar que nenhuma medicação deve ser tomada sem orientação e acompanhamento médico.

Conforme divulgado pela Agência Brasil, nas diversas pesquisas realizadas até agora, não há consenso sobre evidências científicas da eficácia da prescrição da substância. A coordenadora da Comissão Intersetorial de Ciência, Tecnologia e Assistência Farmacêutica (Cictaf) do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Débora Melecchi, alega que o protocolo desrespeita a ciência. "Os riscos à vida das pessoas estão grandes", diz, de acordo com publicação na agência de notícias citada. Representantes do governo defendem a iniciativa, argumentando que esta não obriga, mas, sim, orienta o médico, diante do grande número de mortes provocados pelo coronavírus e dos diversos casos de sucesso com o uso das medicações.

 

"Tenho usado a cloroquina [em pacientes] há mais de 40 anos, para tratamento das artitres" - Dr. Roberto Dias de Carvalho

O médico Roberto Dias de Carvalho afirma que indicaria e tomaria, se fosse necessário.  "Tenho usado a cloroquina [em pacientes] desde que que eu era residente, ou seja, há mais de 40 anos, para tratamento das artitres, principalmente da artrite reumatoide. Os efeitos colaterais foram muito poucos, às vezes não passava de mal-estar e, em algumas vezes, sudorese. Era comum eu receitar para pacientes com artrite reumatoide".

Sobre os posicionamentos científicos, Dr. Roberto Dias argumenta: "Vejo cientistas se colocarem contra, como a Associação Médica Brasileira, falando que não existe uma evidência robusta da ação da cloroquina misturada ou não à azitromicina. Ainda que a evidência não seja robusta, existem vários trabalhos com maior ou menor rigor científico, mostrando efeito benéfico da cloroquina. Como não existe outro modo de tratar, eu perguntaria ao paciente: Existe a cloroquina, sem evidência robusta de sua ação, mas tem muita gente que toma. Você quer tomar ou quer tomar Tylenol e ir embora pra casa? Se eu tiver Covid, eu  vou tomar, sim, e indico", afirma o médico, acrescentando que ninguém, na realidade, tem informações sufientes sobre a Covid-19" e que sua opinião pode mudar. Ele também diz que para pacientes cardiopatas e com idade avançada, é necessário realizar eletrocardiograma e analisar o risco/benefício. Informa, ainda, que uma médica brasileira que mora em Madri relatou que no hospital onde trabalha, vários pacientes foram tratados com a medicação, obtendo efeitos surpreendentes.

Já o médico Roberto Alves da Silva, citando como fundamento os estudos da comunidade científica, não recomendaria o uso dessas medicações, por causa dos efeitos colaterais.

 

 

"Eu utilizaria, se fosse necessário, sempre respeitando a sintomatização de cada paciente, mas temos muito a aprender ainda sobre esse vírus, para ter um posicionamento conclusivo" - Dr. Stanley Correia

O médico Stanley Correia disse ao CCO que vários hospitais renomados no Brasil estão utilizando, em casos de necessidade, a exemplo do Albert Einstein, Sírio Libanês, Madre Tereza e Biocor. "É um remédio tão antigo e barato, que até uns três meses atrás, todos podiam comprar na farmácia. Agora existe uma politização em cima dessa droga e jogos financeiros de laboratórios por trás de tudo. Como acontece na administração de todas as drogas, existem os efeitos colaterais e as contraindicações, por exemplo, para pacientes cardiopatas, mas é um excelente anti-inflamatório, cujo efeito principal é entrar na célula e alterar o pH, diminuindo o processo inflamatório. Eu utilizaria, se fosse necessário, sempre respeitando a sintomatização de cada paciente, mas temos muito a aprender ainda sobre esse vírus, para ter um posicionamento conclusivo".

Dr. Stanley nos encaminhou um estudo de 92 páginas, intitulado Consenso Internacional de Pneumologistas - Covid-19, referente ao sulfato de cloroquina-hidroxicloroquina (HCQS), publicado em 22 de abril na Índia, pelo Dr. Tinku Joseph, com participação de profissionais de medicina de vários países. Leia um recorte da pesquisa: "Foi observado que o tratamento com cloroquina impede a disseminação da infecção por SARS-CoV no período pós-infecção. O HCQS tem o mesmo mecanismo de ação, mas possui um melhor perfil de segurança e, portanto, o torna um medicamento preferido. Ambos os medicamentos também demonstraram ter efeitos imunomoduladores e podem suprimir o aumento dos fatores imunológicos.[...] O primeiro teste humano de cloroquina contra COVID-19 foi realizado na China em mais de 100 pacientes que consideraram a cloroquina superior em reduzir a duração dos sintomas, exacerbação de pneumonia, melhora radiológica e levar a soroconversão negativa por vírus. O grupo francês de pesquisadores estudou a hidroxicloroquina junto com a azitromicina. [...]. Eles incluíram 36 pacientes no estudo, 20 pacientes receberam hidroxicloroquina na dose de 600 mg por dia, juntamente com azitromicina. Os autores mostraram redução significativa na carga viral no 6º dia do tratamento e duração média muito baixa do vírus em comparação ao grupo controle".

É importante ressaltar a existência de outros estudos concluídos e que outros estão em andamento. Na Internet encontramos vários vídeos de médicos e pacientes que receitaram ou fizeram uso da medicação, relatando suas experiências. 

 

 

"Não recomendaria esse tratamento nem para pacientes graves, até que novos estudos demonstrem eficácia com o mínimo de segurança aceitável" - Dr. Tarcísio Silva

A opinião do médico Tarcísio Silva é pautada em um estudo recente feito com 96 mil pacientes com Covid19, "que alertou para possível aumento de mortalidade com uso da cloroquina e hidroxicloroquina, além de não ter demonstrado nenhum benefício". Ele relata que esse é o maior estudo realizado até agora. "Baseado nele, a equipe de pesquisadores franceses, que foram os primeiros a defender o uso dessas medicações (cloroquina com azitromicina), fez comunicado retirando da web suas recomendações anteriores, dizendo que esse novo estudo invalida, no momento, os resultados de suas pesquisas, que foram realizadas com número muito menor de pacientes".

Dr. Tarcísio Silva diz que se sente frustrado com a notícia.  "Todos esperamos um tratamento eficaz e urgente. Mas nenhum decreto ou protocolo de tratamento, mesmo que realizado no calor de uma guerra contra essa epidemia, não tira do médico qualquer responsabilidade por tratamentos sem base científica e que possam comprometer a vida dos pacientes. Portanto, no momento, não recomendaria esse tratamento nem em pacientes graves, até que novos estudos demonstrem eficácia com o mínimo de segurança aceitável".

 

Ministério da Saúde mantém decisão  favorável ao uso

A recomendação nº 042, de 22 de maio de 2020, do Conselho Nacional de Saúde, pede a suspensão imediata das Orientações do MS para manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da COVID-19.

De acordo com publicação do site Crítica Nacional, da última terça-feira (26), o MS mantém a decisão, tendo como uma das fundamentações, além de outros argumentos, a orientação do Conselho Federal de Medicina, que dá autonomia aos médicos.

 

Sem informações sobre o uso das medicações no tratamento de pacientes no Hospital São José

O Jornal CCO ainda não tem respostas para as seguintes perguntas: O Hospital São José, as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e a Farmácia da Fumusa em Arcos dispõem desses medicamentos? / Essas medicações chegaram a ser administradas a quantos pacientes que ficaram em observação no Hospital São José ou em isolamento domiciliar, com suspeita ou confirmação de Covid-19? Como foi a evolução desses pacientes [com o uso dessas medicações]? / É possível informar quantos pacientes em Arcos já buscavam e continuam buscando essas medicações na Farmácia da Fumusa, para o controle de lúpus, tratamento de malária e artrite?

Quanto à Santa Casa de Arcos, fomos informados que a instituição ainda não tem os medicamentos, mas já foram solicitados pelo Setor de Compras. Não receberam pelo SUS.