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“Minhas Memórias”

Oscar Evangelista escreve sobre fatos que ocorreram em Arcos de 1820 a 1920

Publicada em: 03 de setembro de 2019 às 16h33
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 31/08/2019) - Edição 2016

O produtor rural Oscar Evangelista Soares, 81 anos, residente na comunidade rural Santana, tem outros dons além dos trabalhos agropecuários. Gosta de ler e de escrever. Quando fez 79 anos de idade, decidiu que iria relatar as histórias que ouvia do pai dele e que estavam guardadas em sua memória há mais de 70 anos.

Nas horas de folga, passou a registrar todas as lembranças em um caderno. Depois de dois anos, concluiu o projeto – “Minhas Memórias” – e contratou o serviço de digitação. O conteúdo foi impresso e encadernado. Até então, já foram vendidas 85 cópias. “Só o Dr. Wellington Rodrigues Roque comprou seis [nos relatos estão várias histórias sobre o bisavô dele, José Rodrigues de Sousa]; os funcionários antigos e atuais da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) também compraram. Os outros foram vendidos para familiares, amigos e donos de várias mercearias em Arcos. A renda é para o custeio com a gráfica e o dinheirinho que sobra é para cuidar da minha família, gastamos muito com remédios”, comentou o escritor.  

Em “Minhas Memórias”, Oscar Evangelista relata fatos curiosos sobre os costumes dos arcoenses no período 1820 a 1920, principalmente na zona rural, com ênfase na família Rodrigues, que, segundo ele, é a mais numerosa de Arcos. Ele escreve sobre seu bisavô, José Rodrigues de Sousa, que teria sido o maior fazendeiro daquela época nos municípios de Arcos e Santo Antônio do Monte. Era filho de Joaquim Rodrigues de Souza, que veio de Portugal. O filho caçula de José Rodrigues era Rafael Rodrigues de Souza. Entre suas bisnetas estão as advogadas Regina Rodrigues Veloso e Tereza Rodrigues Veloso.

Praticamente tudo que se consumia naquela época era produzido na fazenda, até mesmo os tecidos e as colchas. “Ninguém na família comprava roupa de espécie nenhuma, não comprava querosene – porque tinha mais ou menos 10 candeias movidas a azeite fabricado aqui na roça para iluminar a casa [...]. Na verdade, comprava somente o sal [...]. Sr. José Rodrigues de Sousa era de muita sorte para negociar [...]. As boiadas que ele comprava e pagava na hora eram de 500 a 600 bois. [...].  O gado vinha de Goiás. O prazo da viagem era de 30 dias no lombo dos burros. Era ele [Sr. José Rodrigues de Sousa] e mais cinco peões treinados na lida de gado. [...] Nas algibeiras do arreio colocava o dinheiro para pagar a boiada, porque naquele tempo não falava em ladrão; ia e voltava com toda a tranquilidade” – trecho das Memórias de Sr. Oscar Evangelista. Essa história completa e outras sobre Arcos podem ser adquiridas junto ao autor, pelo telefone: 9 9829-1116.

 

 

Os casamentos – critério para a escolha dos maridos

Outra história curiosa contada é sobre o critério utilizado por José Rodrigues de Sousa para escolher os maridos das filhas. “A família de José Rodrigues de Souza era de quatro filhos e 11 filhas. Todos e todas se casaram muito bem. O Sr. José Rodrigues escolhia os rapazes para casar com suas filhas era assim: acendia um fogo na cozinha... e quando dava fumaça, aquele rapaz que ficava limpando os olhos com um lenço e não reformava o fogo não servia para casar com a filha dele, mas aquele que reformava o fogo até acabar a fumaça, esse sim, servia para casar”.

 

O autor das memórias – Sr. Oscar Evangelista é filho de Maria Rodrigues Soares e Jorge Evangelista Soares.  Nasceu em 1938 e começou a trabalhar na roça quando tinha 9 anos de idade. “Eu saía da escola às 11 horas e ia guiar boi o resto do dia. Nós mesmos fazíamos precatas [chinelos de couro] para trabalhar”. Com essa mesma idade, entrou para a “Escola Tiradentes”, na comunidade rural, onde estudou até os 13 anos de idade. Ao falar da professora, Noêmia Teixeira Rodrigues, ele demonstra saudosismo, gratidão e carinho. Afinal, foi com ela que ele aprendeu a ler, escrever e fazer contas, que ele faz “de cabeça”. “Meu pai também me ensinou a fazer contas, ele sabia até medir terra...”, acrescenta. Ainda na infância, foi considerado um dos melhores alunos entre os 42 da turma e lecionou durante 40 dias, substituindo a professora quando ela teve bebê. Ele se lembra que os bancos da escola eram pilhas de tijolos com uma tábua em cima. “Depois de algum tempo, José Vilela, que foi prefeito de Arcos, levou uns bancos para nós”.

Outro ensinamento que Sr. Oscar traz na memória é sobre o plantio de mudas que vão crescer e durar de 20 a 30 anos, a exemplo de laranja, mexerica, limão e banana. Ele conta que em 1979 plantou 2.500 mudas de café, que colheu durante 18 anos e vendia para uma empresa de Piumhi.    

Aos 25 anos, casou-se com Terezinha Miranda. O casal teve oito filhos: Élcio, Arnaldo, Ivo, José, Fábio, as gêmeas Marli (faleceu com 1 ano de idade) e Marlene,  Ismael. Também têm seis netos e dois bisnetos.

Durante a entrevista ao Jornal e Portal CCO, Sr. Oscar disse que se considera um homem feliz. “Passei muitas dificuldades na vida, mas devagar as coisas estão normalizando. O bom da vida é ter saúde. Se Deus quiser, vou viver uma porção de anos ainda. Sabendo conversar tudo direitinho, não tem nada ruim na vida. É conversando que se entende. Escrever também é muito bom e me ajudou muito a esquecer problemas e tristezas. Para quem tem depressão, aconselho que faça alguma coisa em casa para entreter, ou mesmo ajudar alguém que precisa”, aconselha.