Vende-se Apartamento
Música “A Praça”

Para os arcoenses, Nilo Peixoto é autor do maior sucesso nacional em 1967

Publicada em: 24 de abril de 2019 às 10h21
História de Arcos
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 19/04/2019) - Edição 1997

 

“A mesma praça, o mesmo banco/As mesmas flores, o mesmo jardim/Tudo é igual, mas estou triste/Porque não tenho você/Perto de mim...”.

A música “A Praça”, interpretada pelo cantor Ronnie Von em 1967, o maior sucesso da época, permanece na lembrança de sucessivas gerações, principalmente as de 1970 a 1990. São mais de cinco décadas de memórias.

A autoria tem três versões, conforme noticiou a revista O Cruzeiro, de circulação nacional, em 22 de julho de 1967. O periódico trazia na capa a Miss Brasil “67”, Marta Rocha, e outras chamadas de reportagens. Uma delas era a seguinte: “Quem é o dono da Praça?”. Da página 100 até a 105, está a reportagem intitulada A mesma praça e muitos autores, com várias fotos.

O arcoense João Nilo Peixoto, que faleceu em 13 de agosto de 2012, é consagrado pelos arcoenses como o autor da letra. Leia o trecho da reportagem, transcrito da revista, onde é relatada a versão dele.

 

A revista O Cruzeiro, de 22 de julho de 1967, onde foi publicada a reportagem, pertence ao arcoense Olegário Bernardes Amorim (Fiote), que hoje está com 75 anos. Ele disse ao CCO que conheceu Nilo e acredita na história dele. “Nilo era uma pessoa humilde. Acredito piamente na história dele”.

 

Versão de João Nilo Peixoto – o mineiro (Transcrita da Revista O Cruzeiro, de 1967)

João Nilo Peixoto, 17 anos, mineiro de Arcos, hoje [1967] vivendo em Belo Horizonte, é outro que se apresentou como dono da música que Carlos Imperial lançou. Reclama a autoria da letra. Ele conta uma história em quase tudo igual à do carioca Nirto Batista de Souza. Só que a sua praça fica em Arcos, chama-se Floriano Peixoto, e, em vez de Edite, João Nilo amou Eliana.

- Escrevi A Praça há mais de um ano [por volta de 1965]. Eu era, então, aluno do Colégio Comercial Arcoense, vivia apaixonado por uma colega chamada Eliana. Fiz outros versos para ela, muitos outros. O namoro durou algum tempo, até que eu me mudei para Belo Horizonte. Mas quando saí de Arcos, já tinha versos prontos.

A primeira pessoa a quem mostrou a sua composição – prossegue João Nilo – foi o cônego Geraldo Mendes, seu professor de Português no colégio do interior.

- Tudo que eu escrevia, versos ou outra coisa qualquer, levava para ele corrigir. Mostrei também A Praça, mais ou menos à mesma época, ao professor Odair Macedo. Pedi a sua opinião e ele se limitou a brincar com a minha paixão por Eliana.

Mais tarde, em Belo Horizonte, alguns colegas acolheram-no a procurar alguém que musicasse os seus versos, pois tinham “jeito de sucesso”.

- Mas não me parecia fácil, sobretudo porque tenho poucas relações aqui. Sou do interior, conheço pouca gente. Resolvi, então, fazer o que não deveria ter feito nunca: mandei uma carta ao compositor Carlos Imperial, a quem conhecia apenas através da televisão. Pedi-lhe que conseguisse com algum amigo seu músico, uma partitura para a minha letra. Eu pretendia divulgá-la aqui mesmo em Minas, no programa Brasa 4 da TV-Itacolombi. Não recebi nenhuma resposta de Carlos Imperial.

- Mas uma manhã ouvi pelo rádio alguém cantando uma letra que me pareceu conhecida. A voz era de Ronnie Von. Prestei mais atenção e pude ver, surpreso, que eram os meus versos. O poema que fiz para Eliana. Não tive tempo de sentir raiva de Carlos Imperial: eu estava feliz e vaidoso. Aquela canção, afinal de contas, era minha. Só tive um pensamento naquele instante: lembrei-me de Eliana e da gente da minha cidade.

[...]
Na casa de João Nilo Peixoto, sua mãe, Dona Olívia Verçosa, é uma mulher tranquila.

- Eu até andei com muito medo. Ele recebeu uns telefonemas anônimos, foi abordado por estranhos nas ruas de Belo Horizonte, mas parece que agora tudo acabou. Rezei muito. O cônego me disse que não é nada de ter medo.

O cônego Geraldo Mendes foi quem batizou João Nilo, além de ter sido, mais tarde, seu professor de Português. Fala do ex-aluno com simpatia:

- Sempre foi um rapaz estudioso, com muita tendência para a poesia. Corrigi muitos versos seus e nem imaginava que alguns deles estavam destinados a fazer tanto sucesso na música brasileira.  Não me lembro de todas as poesias, porque foram muitas, algumas até bem melhores que A Praça.

O professor Odair Macedo também conhece a poesia de João Nilo:

- Eu vi A Praça há mais de um ano, antes de Nilo se transferir para Belo Horizonte. Posso jurar que era a mesma letra da composição atribuída ao Sr. Carlos Imperial.

Eliana, a namorada de João Nilo, tem agora 13 anos [em 1967]. Ela se lembra também dos versos e gosta deles.

- Só uma coisa que não é verdade: ele não me beijou. Isso eu garanto.

Ela e João Nilo reencontraram-se em Arcos, ele levado até lá pela reportagem de O Cruzeiro. Sentaram-se no mesmo banco em que se encontravam antes, perto de uma palmeira.

- Só o sorveteiro ainda está em Arcos – diz o rapaz. – Daqui a pouco ele deve aparecer. Chama-se Gilberto. O cabo Miguel, o guarda da praça no meu tempo, mudou-se para Pimenta, uma localidade perto de Arcos. O velhinho da pipoca também não está mais: foi para Formiga, levando a pipoqueira.

 

As outras versões

Na matéria publicada na revista O Cruzeiro, de julho de 1967, é relatado que “tudo começou quando o compositor Carlos Imperial, sentindo-se assaltado, se entrincheirou na Justiça, protegido pelo registro da canção em tabelião, com advogado apresentando queixa-crime contra a violação do direito autoral”.

Antes disso, “em setores da Imprensa e da Televisão, o estudante Nirto Batista de Souza, do subúrbio de Vista Alegre, Rio de Janeiro, se apresentava como legítimo dono da canção”. Outros compositores anônimos procuraram os jornais, dizendo que eram os autores da música. “Entre estes, o mais obstinado é o mineiro João Nilo Peixoto, da cidade de Arcos, que narra, com todos os detalhes, tal como o carioca Nirto, as circunstâncias emocionais, geográficas e cronológicas em que compôs o poema A Praça. E como o carioca Nirto Batista de Souza, o mineiro João Nilo Peixoto se diz roubado pelo compositor Carlos Imperial”.

Nirto Batista de Souza disse ter feito a música para a namorada, Edite, com quem se encontrava às escondidas no Passeio Público. No dia 4 de fevereiro decidiu procurar o compositor Carlos Imperial, com quem teria deixado os versos e a partitura e oferecido a parceria em troca de instrumentos musicais. Um dia Carlos Imperial teria ido à casa dele devolver os versos e a partitura, dizendo que a música não lhe interessava. Dias depois, ele ouviu a música em emissoras de rádio que a anunciavam como sendo de Carlos Imperial.

Nirto diz, na entrevista, que relatou o fato em jornais e emissoras de rádio. “Um dos jornais procurados por Nirto Batista constituiu advogado para defendê-lo. O compositor Carlos Imperial, acusado de ter-se apoderado de A Praça, passou a defender-se também”. No final da história, o advogado de Carlos Imperial moveu ação contra Nirto Batista.

Em entrevista à mesma Revista, Carlos Imperial referiu-se ao arcoense Nilo e ao carioca Nirto como “pilantras que querem se apoderar da música alheia”. Na mesma reportagem é relatado que Nilo Peixoto escreveu uma carta à revista Intervalo, ameaçando Carlos Imperial com um processo.

Carlos Imperial também teria apontado algumas testemunhas, dentre elas, Wilson Simonal e Erasmo Carlos, pessoas que, segundo ele, acompanharam a criação e até “cantarolaram a melodia algumas vezes”.  Ele saiu vitorioso e a música A Praça leva o nome dele como autor.

 

Letra da música “A Praça” – para os arcoenses, o autor é Nilo Peixoto!

Hoje eu acordei

Com saudades de você

Beijei aquela foto

Que você me ofertou

Sentei naquele banco

Da pracinha só porque

Foi lá que começou

O nosso amor...

 

Senti que os passarinhos

Todos me reconheceram

E eles entenderam

Toda minha solidão

Ficaram tão tristonhos

E até emudeceram

Aí então eu fiz esta canção...

 

A mesma praça, o mesmo banco

As mesmas flores, o mesmo jardim

Tudo é igual, mas estou triste

Porque não tenho você

Perto de mim...

 

Beijei aquela árvore

Tão linda onde eu

Com o meu canivete

Um coração eu desenhei

Escrevi no coração

Meu nome junto ao seu

Ser seu grande amor

Então jurei...

 

O guarda ainda é o mesmo

Que um dia me pegou

Roubando uma rosa amarela

Prá você

Ainda tem balanço

Tem gangorra meu amor

Crianças que não param

De correr...

 

A mesma praça, o mesmo banco

As mesmas flores, o mesmo jardim

Tudo é igual, mas estou triste

Porque não tenho você

Perto de mim...

 

Aquele bom velhinho

Pipoqueiro foi quem viu

Quando envergonhado

De namoro eu lhe falei

Ainda é o mesmo sorveteiro

Que assistiu

Ao primeiro beijo

Que eu lhe dei...

 

A gente vai crescendo

Vai crescendo

E o tempo passa

E nunca esquece a felicidade

Que encontrou

Sempre eu vou lembrar

Do nosso banco lá da praça

Foi lá que começou

O nosso amor...