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Psicóloga realiza trabalho sobre possibilidades de intervenção em casos de tentativa de suicídio

Dados da PM em Arcos apontam que de 2012 até dia 6 de outubro de 2015, foram registradas 208 tentativas de suicídio na cidade, sendo 11 casos consumados

Publicada em: 24 de outubro de 2016 às 16h27
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Psicóloga realiza trabalho sobre possibilidades de intervenção em casos de tentativa de suicídio

Rosana Oliveira é lagopratense e mora em Arcos há mais de dois anos

A psicóloga Rosana L. S. Oliveira, que se formou em junho de 2016, na Faculdade Pitágoras em Divinópolis, produziu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com o título Um estudo sobre tentativa de autoextermínio e suicídio: possibilidades de intervenção psicológica. O trabalho acadêmico, que foi orientado pelo Prof. Doutor Eustáquio José de Souza Júnior, foi apresentado e aprovado em banca no dia 17 de dezembro de 2015.

 

Natural de Lagoa da Prata, Rosana Oliveira mora em Arcos há mais de dois anos. Em entrevista ao CCO, ela disse que o tema do TCC engloba a questão da morte de si, o comportamento suicida, ideações suicidas, fatores de risco e sobreviventes à tentativa de autoextermínio, bem como os familiares do suicida e como a Psicologia pode atuar nesse contexto. A psicóloga explica que se trata de “uma escuta apurada, respeitosa, sem pré-julgamentos, sem apontar saídas, mas com a intenção de dar ao sujeito a oportunidade da fala, a fim de que possa expressar sua raiva, seu sofrimento, sua culpa, sua dor, sem ser julgado”.

 

Rosana Oliveira apurou, na Secretaria Municipal de Saúde – Fumusa (Fundação Municipal de Saúde e Assistência de Arcos), que foram registrados na cidade, nos anos 2011 e 2012, 86 tentativas de suicídio: 23 nas idades de 15 a 20 anos; 22 nas idades de 21 a 29 anos e 41 nas idades de 30 a 50 anos, “sendo esse grupo formado (na sua maioria) por mulheres de classes sociais variadas, com relacionamento estável ou divorciadas, queixa de término de relacionamento prolongado e violência física antes do ato de tentativa de suicídio”. O CCO tentou obter os números referentes aos anos 2013, 2014, 2015 e 2016, assim como o número de casos consumados. No entanto, até o fechamento desta edição, dia 21, ainda não tínhamos recebido os dados, que foram solicitados à Assessoria de Comunicação do Governo Municipal no último dia 11.

 

Um fato curioso sobre as tentativas de autoextermínio em Arcos, no período verificado, é que apenas 3% apresentavam quadro depressivo ou eram indivíduos portadores de doença mental. Os outros relataram não sofrerem nenhum tipo de doença e “não saberem por que fizeram tal ato”. No entanto, é importante informar que os dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) declaram que cerca de 90% dos casos de suicídio e 40% das tentativas de suicídio estão associadas a transtornos mentais, principalmente depressão e abuso de substâncias psicoativas.

 

 

Dados da PM: em 3 anos e 10 meses foram registradas 208 tentativas de suicídio em Arcos, com 11 casos consumados

 

Outra fonte de informação procurada pela psicóloga Rosana Oliveira foi o Quartel da Polícia Militar em Arcos. De acordo com o Órgão, os dados de tentativa de suicídio e suicídio consumado nos anos de 2012 a 2015, até o dia da coleta (26/10/2015), foram computados da seguinte forma pela PM: em 2012 foram atendidos 53 casos de tentativas de suicídio e 5 suicídios consumados; em 2013, 53 tentativas de autoextermínio e 02 suicídios consumados; em 2014, 62 tentativas de suicídio e 02 suicídios consumados; 2015 até dia 26 de outubro, 40 tentativas de suicídio e 02 suicídios consumados. No período, três anos e 10 meses, foram 208 tentativas e 11 casos consumados. 

 

 

“Sinais”

 

Quais são os sinais que uma pessoa geralmente dá, quando está planejando cometer suicídio? O que a família deve fazer para evitar que isso aconteça? Em resposta a essa pergunta do CCO, a psicóloga relatou que, às vezes, os sinais não são percebidos facilmente. Mas quando uma pessoa tem o desejo de autoextermínio, “muitas vezes essa vontade começa com uma dor, um fracasso, um período de sentimento de rejeição ou solidão, rancor acumulado, cansaço físico e mental, fadiga, ego ferido, falta de perdão, sentimento de culpa real ou imaginária, sofrimento mental, surtos psicóticos, comportamento suicida (disposições orgânico-psíquicas), perdas por desastre da natureza, desemprego, angústia existencial, doença em fase terminal ou incurável, perda de ente querido por suicídio ou outro meio, uso abusivo de álcool e substância tóxica”, explica.

 

 

Prevenção

 

O suicídio, segundo a psicóloga, impacta todos os envolvidos no ato. “Por isso a necessidade de estudo e conhecimento que colaborem para melhor compreensão do fenômeno ‘tentativa de autoextermínio e suicídio’, reconhecendo o comportamento suicida a fim de promover a prevenção como também a assistência a esses pacientes e seus familiares”.

 

Rosana Oliveira comenta que, às vezes, a família quer “vigiar” o sujeito para que ele não morra. No entanto, diz ela: “Isso não o impedirá, porque se este planeja morrer, ele o fará em qualquer momento que estiver só. Desta forma, a palavra certa não será ‘evitar’, porque isso não é possível, pois somente a própria pessoa conhece e responde pelas motivações do desejo de morrer e nisso deve se implicar. Mas pode-se falar em prevenção, conversando francamente com a pessoa sobre as coisas que ele tem falado, sobre a importância da ajuda psicológica”, orienta a psicóloga.

 

Rosana Oliveira ressalta que a prevenção do comportamento suicida ainda é o melhor caminho. Deve ter início na família e na escola (com conversas sobre a morte, valorização da vida, programas psicoeducativos, fraternidade, harmonia e respeito). 

 

A especialista também alerta: “Toda ameaça de suicídio deve ser levada a sério. O comportamento suicida pode ser reconhecido na autoagressão, bem como em situações relacionadas às tentativas de suicídio, com alta ou baixa letalidade, que ocorrem dentro de um contexto social e trazem elementos que indicam a procura de ajuda [...]”.

 

 

Recuperação

 

 

A psicóloga Rosana Oliveira contou ao CCO o caso de uma mãe que, ao perder o filho, tentou suicídio 22 vezes no primeiro ano da morte do filho, que partiu acidentalmente (afogamento). Atualmente, diz a psicóloga, essa mãe é um exemplo de superação. Perdeu mais dois filhos e hoje se ocupa em ajudar pessoas em situação de doença terminal ou risco de morte por suicídio. 

 

 

Reações de familiares e amigos

 

Quem perde alguém por suicídio manifesta emoções diversas, segundo a psicóloga. Portanto, família e amigos da pessoa que cometeu suicídio devem procurar atendimento psicológico. “Suas vidas podem ser radicalmente mudadas com a partida daquela pessoa, ainda mais por suicídio. [...] O processo de acompanhamento psicológico clínico tanto para a família quanto para o paciente sobrevivente ao ato faz-se necessário para que os mesmos possam reelaborar a forma de vida [...]”, orienta.

 

 

Relatos detalhados sobre suicídio podem influenciar pessoas vulneráveis a praticarem o ato

 

Por questão ética, não se deve noticiar suicídios. O site observatoriodaimprensa.com.br informa que existe uma convenção profissional extraoficial coibindo essa prática. De acordo com informações do site http://aabbsgo.com.br, a notícia pode influenciar pessoas vulneráveis a praticarem o ato. “Pode influenciar sim, não há certeza do grau de influência, mas o assunto é sério o suficiente para que não se experimente. Há também a preocupação de poupar os sobreviventes que podem estar em grande sofrimento e podem ter uma exposição pública que pode aumentar ainda mais a sua dor”, afirma a Doutora Maria Júlia Kovács, autora do livro “Morte e desenvolvimento humano”.

 

O mesmo site traz o relato do que aconteceu em Viena, na década de 1980: o metrô da cidade registrou 22 casos de suicídio em 18 meses, após uma cobertura sensacionalista de um incidente em 1986. Com o aumento das mortes, a imprensa e Associação Austríaca para a Prevenção do Suicídio desenvolveram um manual sobre como os profissionais deveriam abordar o assunto. Com a nova orientação, a taxa de suicídio no metrô austríaco caiu 75% em cinco anos.

 

Sobre essas questões, a psicóloga entrevistada pelo CCO argumenta: “Não tem como proibir ou diminuir os noticiários sobre os suicídios, já que são feitos por familiares e amigos. Mas a pessoa que apresenta comportamento ou ideação suicida pode, sim, se sentir encorajada, não pelo noticiário, mas por mais esta dor causada pela morte do outro”.

 

Rosana Oliveira também é pedagoga e teóloga. É pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional e pós-graduada em Orientação Escolar, Inspeção Escolar e Supervisão Escolar. Realiza atendimentos psicopedagógicos e psicológicos em Lagoa da Prata e Divinópolis. Em breve, também estará atendendo em Arcos.