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Inundações em Arcos

Redução de áreas verdes e ligações erradas para drenagem das águas pluviais estão entre as causas

De 2003 a 2017, Arcos perdeu quase 50% das áreas verdes, conforme mapa de Uso do Solo, aumentando muito a área impermeável.

Publicada em: 02 de março de 2020 às 15h40
Arcos
Meio Ambiente

 

Entrevista e Redação: Jornalista Rita Miranda. 

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 22/02/2020) - Edição 2040

 

A arquiteta e urbanista Juscélia Teixeira, cuja apresentação está no final desta matéria, dedica-se aos estudos sobre urbanismo do setor público. Segundo a profissional, à medida que as cidades evoluem, os problemas relacionados às chuvas se agravam, o que tem sido observado em diversos municípios, sendo necessário buscar diagnósticos e propor diretrizes.

Ela explica que um rio perene, sem modificações antrópicas [ou seja, sem modificações feitas pelo homem], possui dois leitos: um menor (onde a água escoa durante o período de seca) e um leito maior (onde a água enche no período das cheias). Qual é a situação de Arcos?

“Havia no munícipio (antes de se fazer as canalizações – ‘avenida sanitária’) o leito do “córrego” do Rio Arcos, o qual tinha suas matas ciliares em ambos os lados, tinha seus dois leitos preservados e possuía o fundo e as laterais permeáveis conforme seu estado natural. O rio Arcos, em período das cheias, assim como ocorre hoje com o Candonga e outros no seu curso natural, inundava e ocupava a extensão das matas ciliares que o cercavam. As matas, por sua vez, ajudavam o curso d’água a reduzir a velocidade, além de reduzir o assoreamento, ressecamento, mantendo o curso normal da água e a umidade do solo”, analisa.

 

FARIA, E. O. Evolução do Uso e Ocupação de Solos no Município de Arcos-MG entre os anos de 2003 e 2017., 2017.

Disponível em: http://www.escrivaninhacientifica.com/2019/04/evolucao-do-uso-e-ocupacao-de-terras-no.html

 

A arquiteta mostra mapas referentes à Evolução do Uso e Ocupação de Solos no Município de Arcos, comparando os anos de 2003 e 2017, onde é possível perceber que o município perdeu praticamente a metade das áreas verdes. Ela diz que essa falta de áreas permeáveis e de sua vegetação natural (devido à evolução da cidade) diminui, e muito, a absorção das águas pluviais [das chuvas], além de desequilibrar o ecossistema natural, gerando um desequilíbrio entre os organismos vivos e o ambiente em que vivem, alterando suas trocas. “Esse desequilíbrio gera diversos danos não só aos animais e à vegetação, mas a nós mesmos: aquecimento, falta de água e intempéries desordenadas”.

Nesse sentido, salienta que “a cidade de Arcos, que antes tinha suas áreas com muitas áreas verdes que funcionavam como ‘esponjas’ que absorviam água, hoje está evoluindo para ter os mesmos problemas de grandes centros, onde o que se vê são grandes áreas asfaltadas, concretadas”. Nesse cenário, as águas das chuvas não têm para onde ir; acompanham a gravidade das ruas até chegarem aos rios”.

Segundo a arquiteta e urbanista, soma-se a esse contexto o desconhecimento ao construir cada vez mais edificações sem respeitar os recuos propostos pelo poder público, ou respeitando-os, mas pavimentando toda a área que poderia ser gramada, arborizada e utilizada como área de lazer privativa.

Ela refere-se, também, a imóveis como supermercados, estacionamentos, indústrias e áreas públicas (inclusive praças), onde são vistas grandes áreas impermeáveis e muito aquecidas, que poderiam funcionar como grandes “esponjas” absorventes de água, além de reduzir a temperatura, melhorando o conforto térmico. Nesse sentido, cita a proposta do piso permeável, que pode ser aplicado em calçadas e, com o uso de lixeiras e vegetação, melhora a cidade visualmente, além de propiciar melhoria no conforto térmico.

 

Ligações das águas pluviais feitas de maneira errada (junto à rede de esgoto)

Outra observação importante considerada por Juscélia Teixeira é sobre o cuidado que se deve ter com a ligação de drenagem das águas pluviais. Ela explica: “Apesar de o esgoto ser tratado no município antes de chegar aos rios, as tubulações são calculadas para suprir uma demanda específica, no entanto, talvez por falta de conhecimento, existem ainda muitas edificações irregulares onde as águas das chuvas estão ligadas junto à rede de esgoto, o que é grave e pode acarretar no congestionamento das redes em períodos chuvosos e até a ruptura das tubulações, aumentando ainda mais o problema das enchentes”.

A arquiteta orienta que deve ser observado, nos imóveis, se a água da chuva está indo para o lugar certo. O primeiro passo é verificar se existem saídas de água no meio-fio em frente ao imóvel e consultar um encanador para verificar se existem ligações ocultas de água da chuva na rede de esgoto do imóvel. Afinal, “água da chuva é uma coisa e esgoto é outra coisa...”.

É importante lembrar que alguns bairros não possuem redes de águas pluviais. Nesses casos, orienta a arquiteta, é melhor que se faça o escoamento para as sarjetas e NUNCA ligá-los na rede de esgoto. Se o imóvel possui ligação incorreta, o ideal é pedir que um profissional refaça o serviço logo que possível.

Em Curitiba, já são usadas caixas de contenção de águas pluviais, para evitar que todo o volume sobrecarregue rios e córregos. Essas águas também são usadas para aproveitamento residencial.

 

O que pode ser feito pelo poder público    

Diante desse diagnóstico, a profissional argumenta: “Não somos os primeiros e, infelizmente, nem os últimos a ter uma cidade que, para propiciar o crescimento urbano e uma ótima área de caminhada e de lazer como temos nas sanitárias, precisamos ocupar um lugar que não é nosso, uma faixa que deveria ser preservada, como área de preservação permanente do rio, uma área que já era uma grande várzea antes da intervenção. No entanto, e para felicidade de todos, existem muitos bons exemplos a serem seguidos e nos mostrar que nem tudo está perdido. Curitiba, São Paulo, Uberlândia e várias outras grandes cidades nos mostram que diante da expansão urbana, teremos, sim, muitos problemas de drenagem. Precisaremos devolver aos nossos rios a área que eles precisam para continuarem exercendo sua função natural sem gerar tantos transtornos a nós, moradores”.

 

Foto 7: Rio Cheonggeyechon, Seoul – Coréia do Sul

 

Juscélia Teixeira diz que uma alternativa são os Parque Lineares. “Eles preservam as margens dos cursos d’água que são previstas em lei, têm a ação de recuperar as matas ciliares, contribuem para a redução da temperatura local e ainda propiciam espaços de área de lazer confortáveis para a população em períodos das secas”. Ela cita o caso da cidade de Formiga, onde foi feita a recuperação das margens do seu rio, melhorando a cidade.  Os parques lineares podem utilizar o espaço das calçadas para recompor as matas ciliares e manter pistas de caminhadas entre a vegetação.

A arquiteta observa que a construção de parques lineares não resolve totalmente os problemas.  “Precisamos de um sistema mais complexo de drenagem, onde se aproveitam os espaços da cidade para minimizar o efeito sobre a população. Uma alternativa para áreas estreitas como canteiros, podendo ser empregadas em um dos pontos críticos com a avenida Magalhães Pinto, são as trincheiras de infiltração. Segundo Ciria (2007), elas podem ser parte de um grande sistema de drenagem e podem ser preenchidas paredes e coberturas permeáveis com intuito de armazenar temporariamente as águas no solo e ir liberando-as aos poucos”.

Outra alternativa que poderia ser utilizada em áreas maiores, inclusive grandes rotatórias como nas avenidas sanitárias e área próxima à mina [avenida Dr. Moacir Dias de Carvalho], são os reservatórios de infiltração. “Através de vegetações de raízes profundas (que aumentam a capacidade de armazenamento desses reservatórios), essa solução ainda filtra as águas absorvidas e, se instaladas em pontos críticos, amenizam o problema das enchentes. Temos, ainda, soluções mais pontuais passíveis de serem usadas pelo poder público, como os bueiros que retêm material sólido, solução aplicada em Três Pontas (MG), com intuito de evitar entupimento das galerias”, orienta.

 

Plano Diretor de Drenagem Urbana – A arquiteta enfatiza que, para se ter um diagnóstico mais preciso em relação ao Município de Arcos, seriam necessários estudos feitos por uma equipe multidisciplinar. “Já sabemos (até aprendendo com as experiências de outros municípios) que o problema não é passível de ser resolvido pontualmente, utilizando-se de obras “apaga fogo” ou ainda “obras eleitorais”. Sabemos, ainda, que não podemos cruzar os braços na esperança que o próximo período de chuvas seja mais ameno. A principal solução é a elaboração de um Plano Diretor de Drenagem Urbana, que precisa ser feito com consulta à população e com participação de todos os funcionários públicos”.

A profissional também alerta sobre a necessidade da participação da população, que precisa se conscientizar ambientalmente para que cada um faça sua parte e fiscalize o setor público sobre suas ações, sendo também fiscalizada, a fim de construir uma Cidade para Todos. “Arcos tem uma população sábia e muitos técnicos e políticos com vontade de fazer acontecer; tem capacidade de virar referência estadual como cidade sustentável, mas a hora de planejar é agora”, conclui.

A arquiteta e urbanista Juscélia Teixeira já realizou pesquisa com o tema “Assentamento Sustentável na área urbana de Bomfim Paulista, SP”. Ela é arcoense e morou em Ribeirão Preto de 2006 a 2017. Atuava no setor público como pesquisadora. Retornou em 2017 e atualmente mora em Piumhi, sempre visitando Arcos, onde mora sua família. É consultora em Arquitetura e Urbanismo e faz projetos.