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Memória

Sr. Clemente e a esposa contam histórias sobre as décadas de 1940, 1950 e 1960

Ele foi bioquímico prático em Arcos por mais de 30 anos

Publicada em: 16 de janeiro de 2019 às 10h01
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 12/01/2019) - Edição 1983

O casal Maria Nogueira Campos Ribeiro, 88 anos, e Clemente Ribeiro Neto, 89, recebeu a reportagem do CCO e contou histórias sobre a época da juventude deles e os acontecimentos marcantes no país nas décadas de 1940 e 1960.

Durante mais de 30 anos, de 1950 à década de 1980, Sr. Clemente foi bioquímico prático em Arcos, num Posto de Saúde do Estado que funcionava junto à Santa Casa. Por bastante tempo, ele diz, foi o único na cidade que desenvolvia esse trabalho. Para exercer o cargo de “escrevente microscopista”, que não se limitava à escrita (na época datilografada), mas também à análise dos materiais em laboratório, ele fez vários cursos em Belo Horizonte – no Centro de Saúde Modelo, no Dispensário Central de Lepra, Dispensário de Tuberculoso, na Secretaria de Estado da Saúde.

No mesmo Posto de Saúde, também trabalhava o médico Odilon Chagas de Carvalho, que atendia os pacientes e solicitava os exames, assim como o servente Marcelino Pereira dos Santos, que aplicava vacinas e injeções, e um guarda sanitário conhecido como “Zezinho Mandioca”.

A formação básica do Sr. Clemente foi no Ginásio Antônio Vieira, em Formiga, onde optou pelo internato. O educandário foi considerado um dos melhores da região. Durante quatro anos, ele ia em casa apenas aos finais de semana. Depois de se formar, em 1948 ele trabalhou no Banco de Minas Gerais S.A., em Arcos.

A lembrança marcante da época em que estudava no internato é o fim da segunda guerra mundial. Ele participou da comemoração em Formiga. “A segunda guerra mundial terminou em 1945 e eu estava lá no ginásio. O inspetor do colégio era o tenente Oscar. Era muito bravo e tinha que ser, porque a turma não respeitava. Pra sair lá do colégio, normalmente era no final de semana, no sábado. Se chegasse atrasado ou fizesse qualquer estripulia, na semana seguinte ficava de castigo. Mas no dia que terminou a segunda guerra mundial, todo mundo foi pra rua. Foi uma barulhada danada... foi a noite inteira na rua, gritando e achando aquela beleza”, lembra.

Sobre as consequências da guerra para o Brasil, Dona Maria Nogueira comenta que houve racionamento de alimento: “Houve muita falta de alimento e o povo ficava na fila durante horas para comprar as coisas. Eu era medrosa e não gostava de ouvir o noticiário da guerra”. Ao ouvir o comentário da esposa, Clemente diz: “Eu gostava de ouvir as notícias. Achava uma beleza! (risos)”. Em seguida, faz uma síntese do que foi a guerra, citando Adolf Hitler ( ditador na Alemanha), Benito Mussolini (político italiano de esquerda, líder do partido fascista) e Hirohito (imperador do Japão de 1926 até sua morte, em 1989).

Sobre os arcoenses que lutaram na guerra, ele disse que conheceu vários: Padilha, Zezinho Dias, Mozar Dias de Carvalho, Sinhô Guimarães, Olegário Rabelo e outros.

 

O tempo de namoro e a família

O casal começou o namoro na adolescência. Maria estava com 16 anos e Clemente, com 17. Ela conta que os primeiros flertes foram no jardim da praça Floriano Peixoto, onde, na época, havia apenas o coreto e poucas árvores. Assim como em Formiga e outras cidades pequenas, o ponto de encontro na época era a praça. Um fato curioso é que os rapazes caminhavam de um lado e as moças do outro, com a finalidade de trocarem olhares. “As moças subiam e os rapazes desciam. Lá em Formiga era a mesma coisa no jardim. O costume era flertar!”, relembra Dona Maria.

Ela estudou na “Escola Normal” e depois foi interna no Colégio Santa Terezinha, em Formiga.  Foi da primeira turma que formou para professoras naquela instituição de ensino. Na época, para ser admitida como professora do Estado era necessário apenas encaminhar o diploma. A classificação era feita pelas notas. Maria Nogueira se formou em 1946 e em 1947 começou a trabalhar na única escola da cidade na época, o então “Grupo Yolanda Jovino Vaz”.  Só parou depois de se aposentar, quando tinha 42 anos de idade.

O casal teve seis filhos –  Herivelto, Marilene, Hélcio, Cilene, Hilmar, Helton – e nove netos.

 

Lembranças da época do regime militar(1964 a 1985) – São poucas recordações, porque o casal não tinha acesso às notícias da época. As divulgações oficiais do governo, no rádio, eram as mais acessíveis. “Pra mim o governo militar foi um golpe, no meu modo de entender. Precisava fazer alguma coisa, mas abusaram também... ultrapassaram os limites, no meu modo de entender. Houve muita coisa errada. Teve muito abuso. Usaram e abusaram”, opina Sr. Clemente. Dona Maria Nogueira acrescenta: “O regime militar foi um horror! Muita gente foi muito sacrificada e o povo tinha medo de falar”.

A situação econômica no país também não era das melhores, já na década de 1940. Dona Maria Nogueira conta que quando começou a lecionar, em 1947, os alunos não tinham caderno nem lápis, iam descalço para a escola, não tinham agasalho. Na época também não havia merenda.

A dificuldade de acesso às informações e notícias em geral deixava as pessoas em dúvida sobre o que realmente estava acontecendo no país na época do regime militar. Se houve algo de positivo naquela época, eles dizem, talvez seja o fato de não ter existido tanta corrupção como no século XXI. “Se tivesse, era pouco e era muito encoberto”, diz Dona Maria. “A gente ficava sabendo das notícias uns três dias depois”, completa Sr. Clemente.

Nesta nova fase política no Brasil, tanto Sr. Clemente quanto Dona Maria Nogueira estão otimistas. “Estou com esperança que o país vai se recuperar, daqui um ano ou dois, se essa turma não roubar...”, diz Sr. Clemente, que logo acrescenta: “O presidente tem que ser bravo e durão mesmo. Não pode dar moleza não! Estou com muita fé, que Deus permita que funcione, que melhore de fato”, conclui.