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RECORTES DO TEMPO - HISTÓRIAS DE ARCOS

Sr. Francisco Lino Valadão relembra a história de sua família na comunidade dos Cristais

Publicada em: 13 de fevereiro de 2020 às 10h40
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 08/02/2020) - Edição 2038

Francisco Lino Valadão (Chiquinho) tem 70 anos, é casado com Geralda Clementina Valadão, com quem teve dois filhos: Reinaldo dos Santos Valadão e Reginalda Clementina Valadão. Em entrevista a Dalvo Macedo, colaborador do Jornal CCO no projeto Recortes do Tempo – Histórias de Arcos, ele falou sobre a história de sua família, “Lino Valadão”.

Francisco nasceu em junho de 1949, na comunidade dos Cristais, local onde a família “Lino Valadão” é bem conhecida. É filho de Maria Luiza de Faria e Pedro Lino Valadão. O casal teve dez filhos: Francisco Lino Valadão, Antônio Lino Valadão, Maria Aparecida, Aparecida Maria, Geraldo Lino Valadão, Isidoro Lino Valadão, Conceição Aparecida, Tarcísio de Santana Lino, Mara Conceição e Pedro Lino. Seus avós paternos foram: Maria Carneira Ferreira e José Lino Valadão; seus avós maternos, Conceição de Fátima Roque e Horácio Marcos Gonçalves.

 

Comunidade dos Cristais

Francisco Valadão contou que a comunidade dos Cristais, em Arcos, surgiu devido a perfurações no solo que foram feitas por meio de alavancas de madeira, para procurar pedras de cristais (chibius). Os cristais, que eram brancos, atraíam vários garimpeiros da região e eram vendidos para compradores do Rio de Janeiro. Com o tempo, devido à falta do comércio, esses cristais perderam seu valor.

O bisavô de Francisco, Basílio Ferreira Valadão (Basilão), foi um dos garimpeiros naquela época. Ele também era proprietário de 250 alqueires de terra na comunidade dos Cristais e foi o responsável por construir o primeiro engenho de cana em Arcos. No início ele produzia, juntamente aos filhos, apenas para consumo da família: rapadura, massa de rapadura e melado. Com o tempo ele passou a produzir para comercialização e começou a vender em Arcos, Pains, Iguatama e Bambuí. O transporte era feito em carros de boi e o trajeto durava até três dias. Na cidade de Arcos, ele vendia para os comércios do Sr. Amâncio, Germano, Jorge Calácio e Oscalino.

Já o pai de Francisco, para cuidar da família ele tirava leite, criava porcos, galinhas e plantava, com outras pessoas, arroz, feijão e milho. O trabalho das mulheres da casa era o plantio de algodão, elas faziam todo o processo para a fabricação dos tecidos domésticos da família. Também faziam artesanatos com bambu: peneiras, balaios, ninhos para galinhas, esteiras de carros de boi e forros de casa. Ele relembra que sua família ficava a semana toda em um rancho de capim e não tinha como tomar banho à noite, só lavavam os pés e calçavam as precatas de couro cru, que eram feitas no molde dos pés.

 

Casa de pau a pique construida por Francisco

 

Francisco construiu sua própria casa, de “pau a pique”

Francisco Valadão começou a trabalhar muito cedo e não teve a oportunidade de estudar em uma escola regular. Apenas em 1959, ele frequentou a Escola do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), onde estudou durante a noite. Ele relembra que sua professora foi Hlaníca Teixeira e que a escola era na casa do Sr. José Mantina Teixeira. Ganhou dois livros: a Cartilha Nacional de Matemática e o Livro da Infância, que era de Língua Portuguesa. Foi assim que ele aprendeu a fazer contas e a ler e escrever.

Em 1967, quando se casou com Geralda Clementina Valadão, ele construiu sua própria casa de ‘pau a pique’. Essa casa existe até hoje na comunidade dos Cristais. Francisco contou com detalhes como ele construiu uma casa de pau a pique:  “A base era de bardame. Os esteios e a comunheira eram duas pontaletes e quatro espigões que sustentam o travamento. As traves eram perfuradas onde encaixava os ‘paus a pique’ de madeiras finas. Suas extremidades eram apontadas e encaixadas na base do bardame. Não era usado prego, as madeiras eram encaixadas. O engradamento das paredes eram taquaras de bambu, amarras com cipó São João no pau a pique. Feita a estrutura, um mutirão de homens sovavam com os pés as terras molhadas, pisoteando até dar liga. Quando o barro soltava dos pés era o momento de levantar as paredes. Dois homens, um do lado de dentro e um do lado de fora, na mesma direção, jogavam as ‘prastas’ de barro. A casa ficava pronta no mesmo dia. Os reboques eram de terra com cal, cimento ou esterco”.

Também disse que na cobertura não existiam ripas, eram madeiras finas roliças. O telhado era de telha “cumbuca”, que era fabricada na cerâmica do Sr. José Vilela de Oliveira, que foi a primeira do município. As janelas e portas da casa eram de tábuas de madeira, serradas com trocador manual. Elas foram alinhadas com giz ou cinza, porque ainda não tinham lápis para riscar.