Vende-se Apartamento

Sr. Pedro Evangelista: aos 99 anos ele faz biscoitos, desenhos e gosta de viajar

“[...] Felicidade é se a Noêmia estivesse aqui. Os 100 anos pra mim valeriam 200 anos [...]” , diz, referindo-se à esposa, que morreu em 2002

Publicada em: 03 de maio de 2019 às 16h05
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 12/04/2019) - Edição 1996

Pedro Evangelista é arcoense, nascido na comunidade Boca da Mata. Prestes a completar seu centésimo aniversário, que será no dia 29 de abril, ele concedeu entrevista ao Jornal CCO e falou sobre sua história, sua saúde e relatou lembranças de sua longa caminhada.

Foi casado com Noêmia Teixeira Rodrigues, com quem teve nove filhos: João Evangelista Rodrigues, Afonso Luís Soares, Geralda Jonas Rodrigues, João Batista Rodrigues (in memoriam), Antônio Carlos Rodrigues, Geraldo Jonas Rodrigues (in memoriam), Aparecida Teixeira, Pedro Evangelista Júnior (in memoriam) e Tácita Rodrigues Resende. Também tem 13 netos e um bisneto.

Aos 2 anos de idade ele se mudou para a comunidade do Santana, e aos 5 anos já trabalhava: “Com 5 anos eu já ia para a roça guiar boi, tocar boi no arado. Eu trabalhava de madrugada moendo cana, fazendo roça, descalço, pisando na geada. Era a minha vida...”. Na juventude, trabalhava na roça e também dedicava seu tempo ajudando as pessoas. Ele chegou a ser enfermeiro facultativo, auxiliando o médico e ex-prefeito de Arcos, João Vaz Sobrinho. A filha de Sr. Pedro, Tácita Resende, disse que na época, Dr. João Vaz Sobrinho avaliava alguns pacientes e deixava o pai dela responsável por fazer algumas medicações. Sr. Pedro ia a pé até as comunidades do Capoeirão, Boa Vista, Mimoso e Barra do Melo, para prestar esses serviços gratuitamente.

Quando morou em Japaraíba, foi Juiz de Paz durante oito anos, realizando vários casamentos. Teve um armazém, onde fazia geleia, pé de moleque e doces para vender. Também já plantou hortaliças e fez outros trabalhos. “Era essa luta... madrugar, trabalhar, fazer rapadura, engordar porco, cuidar de gado. Era uma luta pesada que a gente tinha na época. Não tinha esse negócio de passear, de ir em praia e ter lazer não. Eu era uma pessoa que nem sabia direito participar de uma festa, porque eu não tinha o costume de ir”, relembra.  

Mesmo estando próximo de completar 100 anos, Sr. Pedro Evangelista é muito ativo no dia a dia. Em sua casa ele tem várias molduras com belos desenhos, onde cada detalhe foi feito por ele. Desenhar é uma das atividades que ele mais gosta, além de cozinhar; faz vários tipos de biscoitos – fritos e assados.

Sr. Pedro Evangelista também gosta de viajar. Já foi para Porto Velho várias vezes, foi às praias de Maceió, e também conheceu Igarapava, Barretos; no último fim de ano ele foi para Ouro Preto. “Eu gosto de fazer passeios, conhecer e fazer amizades; em todo lugar que eu vou eu faço um amigo”, comentou. A idade também não o impede de ir à missa e de se dedicar a uma vida de oração e devoção.

 

Saudades de sua amada Noêmia

Durante toda a entrevista, Sr. Pedro se lembrava de sua falecida esposa, Dona Noêmia. Ao se recordar do início de seu relacionamento, ele o descreveu como algo puro e simples: “O nosso namoro era diferente dos de hoje. Não tinha esses negócios de abraçar e nem de beijar não. Eu não tinha coragem de abraçar e de beijar não, porque eu pensava que se eu fizesse isso eu estava desrespeitando ela. Então a gente casou sem dar um beijo um no outro”.

Eles se casaram em 1947. Dona Noêmia, que era professora e lecionou por muitos anos, destacou-se por ser uma ótima educadora, mesmo sem ser concursada ou ter uma formação. Ela se aposentou como professora leiga e então eles se mudaram para a casa onde o Sr. Pedro reside até hoje, passando assim, a terem uma vida mais tranquila.

Dona Noêmia faleceu em maio de 2002. Ao falar de seus 100 anos e recordar de sua esposa, ele diz emocionado: “Felicidade é se a Noêmia estivesse aqui. Os 100 anos pra mim valeriam 200 anos. Sem ela eu sinto os 100 anos vazios. Apesar dos filhos, que faltam adivinhar o meu pensamento, ainda assim a saudade não tem jeito”.

 

“[...] E não tomo remédio. Remédio não vale de nada. Eu falei que não vou tomar mais remédio, vou esperar a vontade de Deus” – Pedro Evangelista.

 

Sr. Pedro disse que se sente muito bem, com pressão controlada e boa memória. Alimenta-se corretamete, comendo muita verdura, legumes e frutas. Sente apenas uma dor na coluna que o incomoda, mas não toma nenhum remédio: “E não tomo remédio. Remédio não vale de nada. Eu falei que não vou tomar mais remédio, vou esperar a vontade de Deus. Na hora que Deus falar que eu já sofri o que tinha aí, ele me cura”.

Ele diz que se sente realizado em chegar aos 100 anos e recorda que quando era menino, sempre admirava os homens que tinham 50 anos e que na maioria das vezes trabalhavam; e ele, até os 80 anos, conseguiu trabalhar, mexendo com horta.

Sr. Pedro finalizou a entrevista afirmando que tem uma vida muito feliz: “Muitos me perguntam se eu tenho uma vida feliz e eu digo que tenho. Uma vida feliz de viúvo, porque eu nunca fui vaidoso”.