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RECORTES DO TEMPO – HISTÓRIAS DE ARCOS

Tonico Feitor fala da contribuição da Rede Ferroviária para o desenvolvimento de Arcos

Publicada em: 14 de novembro de 2019 às 16h29
História de Arcos
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 09/11/2019) - Edição 2026

 

Antônio Rodrigues de Sousa Filho (‘Tonico Feitor’) prestou serviços por 23 anos e meio à Rede Ferroviária em Arcos e é neto dos pioneiros na construção dessa Rede. Em entrevista a Dalvo Macedo, colaborador do Jornal CCO no projeto Recortes do Tempo – Histórias de Arcos, ele falou de sua trajetória e de seus familiares na história da Rede Mineira de Viação em Arcos.
Tonico Feitor, de 80 anos, nasceu em Formiga em 30 de março de 1939. É casado com Lázara Rodrigues Campos de Sousa, com quem teve um filho, Alex Rodrigues Sousa. O casal também tem um neto, Luca Rodrigues Dias Campos. Tonico cursou o primário na escola estadual Yolanda Jovino Vaz. Lembra-se com saudosismo da professora Leopoldina Gontijo, que valorizava e motivava os alunos.

23 anos na Rede Ferroviária

Tonico começou a trabalhar aos 13 anos na Rede Ferroviária, prestando seus serviços de 1952 a 1975. Atuou na empresa em várias áreas, como: agente, atendimento ao público, despachante de mercadorias, bilheteria, mestre de linha, arquivista e controle de viagens. Nesse período ele trabalhou na região do Rio de Janeiro e Monte Carmelo, depois retornou à cidade de Arcos.

A inauguração da Rede Ferroviária do município aconteceu em 1908 e seus avôs foram protagonistas nisso. João Caetano de Jesus (avô materno) e Lindolfo Rodrigues de Souza (avô paterno) foram os pioneiros na construção dessa Ferrovia.
 

 

Marco histórico e suas recordações

Antônio Rodrigues comentou que a chegada da Rede Ferroviária no Arraiá do Zarco ou ‘Bodoque’, como também é conhecido, gerou um grande impulso na imigração, o que trousse um crescimento na população da cidade.

A Rede veio para ligar Arcos, Minas e Rio de Janeiro. Nela também havia o transporte de passageiros para vários locais de Arcos a Formiga e o transporte de correspondências. As viagens eram longas e oferecia serviços de alimentação e dormitório. Antônio Rodrigues contou que o trem chegava num dia e saia no outro, porque, ele chegava às 23:59h, ficava na estação dois minutos e saia a um minuto do outro dia.

A Sede da Rede Ferroviária de Arcos foi construída em três locais: em 1908 na rua Capitão José Apolinário, a segunda na avenida Governador Valadares e a terceira, em 1978, no bairro de Lourdes. No início foram construídas três estações, em Arcos, Calciolândia e Luanda.

Segundo ele, a Rede ferroviária foi o primeiro veículo de comunicação em Arcos. A comunicação era feita por meio dos telégrafos, com os códigos Morse. No município esta comunicação era realizada aos familiares que haviam imigrado na cidade, aos comerciantes e ao início da implantação das primeiras indústrias do município.

A Rede ferroviária era a responsável por prestar os serviços do Departamento de Correios e Telégrafos. O Sr. Pedro Alves ‘Cuca’ era quem buscava, em uma carrocinha movida por um bode, as correspondência, jornais e revistas. Os telegramas eram entregues por Valdemar Romano, um agente da rede que conhecia a comunidade em geral.

 

Pedro Cuca em uma das antigas sedes do Departamento de Correios e Telégrafos (onde hoje é a Fumusa)

 

Importação e exportação

Na época, a importação que beneficiou o comércio buscando mercadorias em Itapecerica, substituiu o transporte de carro de boi para o transporte em carroças puxadas por burros e cavalos. Antônio Rodrigues relembrou o nome dos principais comerciantes e carroceiros daquele tempo. Como comerciantes: Edson Fonseca, Azôr Vieira, Germano Domingos, Antônio Alves, Trajano Faria e outros. Como carroceiros, citou: José Baliza, com seu burro chamado ‘Violento’; José Amarante, com sua mula ‘Morena’; Diquinho, com seu burro ‘Montenegro’; José Oride, com sua ‘Nobreza’; e Augusto carroceiro, com seus burros de luxo ‘Piano’ e ‘Dorado’. Ao se recordar, Sr. Tunico disse que Augusto descascava a cana para seus burros e andava com os bolsos cheios de milho e ia debulhando, e os alimentava na palma da mão.

O combustível (gasolina) que era transportado pela Rede Ferroviária, vinha em tambores de 200 litros. Eles eram rolados da plataforma da rede até o posto de gasolina, uma distância de aproximadamente 100 metros. O posto de gasolina foi o primeiro de Arcos e era de propriedade do Sr. José Valério de Sousa “Joza do Caboco”. Antônio também relembrou que o primeiro caminhão a chegar a Arcos foi adquirido por Osmar Roque da Silva, em 1957.

Na exportação havia o Sr. José Moreira, agente ferroviário, que construía gaiolas e exportava todos os dias centenas de galinhas que eram recolhidas em cargueiros de balaio em comunidades rurais. Como comerciantes de produtos exportados na época, estava o turco Sr. Chlicri Lamberte, que armazenava parte da produção de milho em três grandes galpões. Também o Sr. Faustino Azevedo, Oliveira Sena e Dilermando Azevedo que comercializavam ovos e o Sr. Albertino da Cunha Amorim (Zito Leão) que era um grande criador e negociador de suínos.

A vinda da Rede Ferroviária também proporcionou um grande impulso na fabricação de cal em Arcos. Segundo Antônio Rodrigues, foram construídos as margens da linha férrea vários fornos para facilitar o escoamento da produção. O primeiro forno foi construído por Martiniano Zuquim, pioneiro da economia de arcos, que exportava para cidades do Cruzeiro e São João Del Rei. O segundo a instalar foi a empresa Socical, com quatro fornos, o terceiro foi Manoel de Matos Júnior, conhecido como ‘Manoelito’, e o quarto foi a empresa Itaú.

A Rede também transportou pedra Mármore, eram grandes blocos de pedra calcária na faixa de 7.000 kg. Ele contou que atualmente ainda existe uma pedra ao lado da praça Martiniano Zuquim, que foi rejeitada na época.