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Violência e maus-tratos contra os idosos: todos devem estar atentos e denunciar

Publicada em: 26 de junho de 2019 às 10h13
Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 22/06/2019) - Edição 2006

 

Neste mês de junho é debatido em todo o país o Combate à Violência contra a Pessoa Idosa. Para abordar o tema, o CCO entrevistou o coordenador do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), Bruno César de Souza Campos, e o psicólogo Helder dos Santos Cardoso, que trabalha na instituição.

O CREAS oferece apoio e assistência social a famílias e indivíduos em situação de ameaça ou de violação de diretos. Uma das áreas de atuação é o atendimento aos idosos. Segundo Bruno Campos, enquanto o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) trabalha com a prevenção, o CREAS faz o atendimento aos idosos quando os direitos já estão violados. “Quando o caso chega ao CREAS é porque já houve uma suspeita de violação de direitos”, explica.

Os casos chegam ao CREAS de várias formas: O Ministério Público geralmente solicita que seja averiguada determinada situação; existem as demandas que chegam por meio dos PSFs (Programas de Saúde da Família), uma vez que os agentes comunitários de saúde são muito próximos das comunidades; do Hospital Municipal, quando chega algum caso até eles; e por meio do pelo DISQUE 100, com denúncias que podem ser anônimas ou demanda espontânea, quando a própria pessoa ou algum parente do idoso vai ao CREAS relatar o fato.

Ao receber o contato, a equipe vai ao local fazer as abordagens e averiguações necessárias, a fim de comprovar possíveis violações de direitos.

“Nós ouvimos os familiares, porque na maioria dos casos, esse tipo de violência acontece dentro do lar. Muitas das vezes, sempre tem um ou outro na família que visualiza a situação e relata pra gente”, informa o coornador. Depois da visita é feito um relatório. Se realmente constar que há uma violação grave de direitos, o caso é encaminhado ao Ministério Público, que irá tomar as providências cabíveis junto ao Judiciário.

 

Tipos de violência

A violência contra o idoso pode ser: Física: Inclui abuso e maus-tratos físicos: empurrões, beliscões, tapas ou por outros meios mais letais, como agressões com cintos, armas brancas (ex. facas, estiletes). Negligência/ abandono: negligência é a omissão por familiares ou instituições responsáveis pelos cuidados básicos para o desenvolvimento físico, emocional e social do idoso, tais como privação de medicamentos, descuido com a higiene e saúde, ausência de proteção contra o frio e o calor. Sexual: É qualquer ação na qual uma pessoa, fazendo uso de poder, força física, coerção, intimidação ou influência psicológica, obriga outra pessoa, de qualquer sexo, a ter, presenciar ou participar, de alguma maneira, de interações sexuais. Econômico-financeira e patrimonial: Consiste no usufruto impróprio ou ilegal dos bens dos idosos, e no uso não consentido por eles de seus recursos financeiros e patrimoniais. Autoinfligida e autonegligência: Refere-se à conduta da pessoa idosa que ameaça sua própria saúde ou segurança por meio da recusa de prover a si mesma dos cuidados necessários. Nesse caso, não se trata de terceiros que provocam a violência, e sim, da própria pessoa idosa. Psicológica: Corresponde a qualquer forma de menosprezo, desprezo, preconceito e discriminação, incluindo agressões verbais ou gestuais, com o objetivo de aterrorizar, humilhar, restringir a liberdade ou isolar a pessoa idosa do convívio social. Podem resultar em tristeza, isolamento, solidão, sofrimento mental e depressão.

Segundo o psicólogo Helder dos Santos Cardoso, que trabalha no CREAS em Arcos desde março, são frequentes os casos de violência psicológica, violência moral e patrimonial (abuso financeiro). Um exemplo de violência patrimonial é quando os filhos que se apropriam de maneira indevida da aposentadoria do idoso e não prestam a eles os devidos cuidados. “A violência patrimonial, infelizmente, é bastante comum”, comenta, citando, por exemplo, os casos em que filhos fazem empréstimos no nome do idoso.

O psicólogo também já acompanhou vários casos de negligência e de abandono de idosos. “Tem idosos que têm uma autonomia, conseguem cuidar da própria vida, da higiene. Tem outros que não. É comum vermos idosos abandonados, negligenciados com os cuidados de saúde”.

 

Reuniões com a família

O trabalho é feito em conjunto, inicialmente, dependendo do caso, tentando resolver as questões com a família, sem acionar órgãos da Justiça. “Às vezes é um caso de sobrecarga, um filho sobrecarregado com os cuidados do idoso, enquanto outros filhos estão mais distantes. Então fazemos uma reunião familiar para orientar, tentar distribuir as responsabilidades. Em alguns casos, uma conversa resolve. Quando o idoso tem uma demência, por exemplo, e não responde por si, ajudamos a família a se organizar, definir quem vai ser o curador para aquele idoso, quem vai responder por ele. Em alguns casos isso funciona; e em outros a situação é mais grave e precisamos de outras intervenções, então atuamos diretamente com o Ministério Público”, relata, acrescentando que há situações em que são necessárias medidas protetivas em relação à pessoa que cometeu a violência.

Em síntese, o trabalho do CREAS neste contexto consiste em articular com os serviços da rede, para garantir que o idoso esteja a salvo de qualquer risco.

 

 

 

“São mais casos do que a gente pensa que teria”

Segundo Helder Cardoso, não é possível dizer, com precisão, se a demanda em Arcos referente a maus-tratos em relação aos idosos está alta. Para fazer essa afirmação seria necessária uma comparação com outros municípios ou com período anterior. “Objetivamente falando é difícil dizer se é muito, se é pouco, se está acima da média do Estado ou abaixo. Mas a minha impressão subjetiva é que sim, são muitos casos. Eu diria que são mais casos do que a gente pensa que teria”, comenta.

Ele atribui o fato a uma série de fatores, a começar pelas questões sociais e econômicas, uma vez que “o país não conseguiu produzir uma sociedade minimamente igualitária”. Nos casos de negligência contra o idoso, o psicólogo explica que nem sempre está relacionada com a renda familiar. Ou seja, acontecem casos também em famílias bem estruturadas financeiramente. “Não tem a ver exatamente com renda, mas muitas vezes sim. É um desafio para a família se organizar para cuidar do idoso, especialmente quando ele tem algum problema de saúde”.

 

Tolerância: uma postura ética

Segundo o psicólogo, quando não há na família problemas relacionados a recursos financeiros, resolver algumas questões fica mais fácil, como por exemplo, contratar um cuidador. Mesmo assim, tem que ter a mobilização da família. “Tem casos de famílias que não têm nenhum problema de renda, mas que não conseguem lidar com o problema da velhice. Envolve muito a questão emocional, porque, às vezes, o relacionamento do idoso com a família não era bom, tem os casos de idosos que eram violentos com os filhos e a esposa. Então, tem os conflitos emocionais, os casos em que não tem afetividade”, relata. Mesmo nesses casos, comenta o psicólogo, a tolerância é muito importante. “Temos que pensar na complexidade da história da família. Toda família tem seus conflitos, seus ressentimentos, mas acho que a tolerância é uma postura ética muito mais interessante. É preciso ser acolhedor para com o idoso. Uma família e uma sociedade que cuida bem dos seus idosos está num patamar ético diferente”, avalia.

 

Infantilização do idoso

Um dos comportamentos inadequados no convívio com os idosos é tratá-los como criança. Embora, em alguns casos, eles sejam totalmente dependentes, eles tiveram uma história. “Não se pode infantilizar o idoso. Ele viveu a vida inteira construindo a história dele com autonomia e, de repente, ele se vê nessa posição e fica difícil. Infantilizar o idoso provoca uma resistência maior dele”, explica o psicólogo

 

Onde denunciar

*Disque Direitos Humanos: Ligue 100 (podendo ser no modo anônimo) ou 0800-031-1119
*CREAS Arcos – (37) 3351-4462
*Delegacia Civil – Praça Floriano Peixoto, Centro.
*Polícia Militar: Ligue 190

O coordenador do CREAS, Bruno Campos, orienta que os casos mais graves de violência contra o idoso, a exemplo de agressão, devem ser denunciados diretamente à Polícia. Em consequência, pode ser solicitada medida protetiva.

Em outras situações, a exemplo de casos de violência patrimonial mais branda, por exemplo, o CREAS pode auxiliar. A primeira medida é realizar uma reunião com os filhos e pessoas mais próximas, para verificar a situação e definir o que deve ser feito.

 

Programação da Prefeitura  

A data, 15 de junho, foi criada em 2006, pelas Nações Unidas e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa, tendo como objetivos refletir sobre a questão e acabar com a violência contra a pessoa idosa.

Neste mês de junho, a Prefeitura de Arcos promoveu atividades referentes à conscientização. No dia 24 haverá palestras com os residentes do ‘Lar Pousada dos Berto’, cuja finalidade é conscientizar os profissionais envolvidos e a própria população sobre o tema. Também haverá um forró para os idosos. No dia 14 houve Rodas de conversa entre técnicos do CREAS e PSFs São Vicente e Santo Antônio.