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Zé Brito: 40 anos dedicados às benzeções e aos aconselhamentos em Arcos

“Se você fizer uma coisa negativa, está fazendo pra si mesmo, e as pessoas nem me pedem isso porque já sabem que eu não faço”, enfatiza o benzedor

Publicada em: 14 de junho de 2017 às 08h25
Memória
Zé Brito: 40 anos dedicados às benzeções e aos aconselhamentos em Arcos

José Francisco Brito, no canto da varanda de casa, onde recebe as pessoas

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 10/06/2017)

Quando o assunto é benzeção e aconselhamento, uma das maiores referências em Arcos, deste o final da década de 1970, é “Zé Brito”, residente no bairro São Vicente, Travessa Augusto Lara.   
Benzer, de acordo com definição do Dicionário Aurélio, significa: “Abençoar, Fazer benzeduras, Fazer o sinal da Cruz”. O ato de benzer faz parte da cultura popular das cidades do interior em praticamente todos os Estados. Teria origem na Europa, na Alta Idade Média (ano 476 até o ano 1000), chegando ao Brasil ainda no período colonial (1500 a 1822), de acordo com estudo publicado na Revista da Universidade Federal de Goiás.
Na última terça-feira (6), o CCO foi à casa de Zé Brito com a finalidade de registrar um pouco de sua história. Bastante conhecido e admirado, o arcoense José Francisco Brito, 68 anos, é um homem de hábitos simples. Estudou até a 4ª série, mas tem muita sabedoria, isso é nítido para quem conversa com ele e recebe a bênção. Descobriu que tinha o dom para benzer ainda na infância, aproximadamente aos 9 anos de idade. “Veio aquele [pensamento] repentino de que tudo o que eu pensava daria certo para o ser humano, mas tudo pelo amor ao próximo, sem receber dinheiro de ninguém”, conta e cita uma lembrança: “A minha irmã teve um problema sério de doença, eu cuidei dela e imediatamente levaram ela para ser atendida pelo José Leopoldo (médium), em Calciolândia, que era um homem muito sábio. Quando ele viu minha irmã, ele disse: ‘Tudo que tinha que ser feito, já foi feito, agora vou passar só uma medicação’ “. Segundo Zé Brito, ela estava curada.
Quando já estava casado, Zé Brito passou a receber as pessoas em casa. Ele conta como é o ritual: “Eu seguro um rosário [terço] e invoco a Nossa Senhora Aparecida e o Divino Espírito Santo. Eu peço pra tirar aquela influência da pessoa, por exemplo; e todas as pessoas para quem eu peço, são felizes. Eu peço que os santos intercedam a Deus”, conta, ressaltando que antes de benzer, sempre pede perdão pelos seus pecados. “Peço perdão e peço que Deus se comova diante daquilo que a pessoa está sentindo. Então a pessoa vai ficando satisfeita, alegre”, relata. Ao final, ele reza um Pai Nosso e uma Ave Maria.

 

O amor pela família e pelos amigos – Depois do falecimento da esposa, a dona de casa Francisca Ferreira Brito, há mais de cinco anos, Zé Brito assumiu os serviços domésticos da casa. Com isso, o tempo para atendimento ficou um pouco restrito. O casal teve três filhos – Marisa (39 anos, produtora rural, casada), Noé (36 anos, técnico em enfermagem, solteiro) e Janaína (balconista de farmácia, 35 anos, casada) – e dois netos: Adalberto (22 anos) e Cibele, de 7 anos. “É uma menina bonita demais”, comenta, mostrando a foto para comprovar e demonstrando todo seu amor de avô. “Geralmente eles estão aqui comigo. Gosto muito de cuidar dos filhos (mesmo crescidos) e dos netos”, conta e afirma que não se cansa dos trabalhos domésticos e nem de atender as pessoas que o procuram: “A gente não pode reclamar. A gente tem que agradecer a Deus por tudo aquilo que Deus dá pra gente fazer. Eu sou feliz. Tenho só que agradecer a Deus e não tenho que pedir [...]. O que gosto mais é de zelar pela minha família e pelos amigos, que são muitos”.

 

“O povo está buscando mais a Deus. O pessoal de Arcos inteira e também das cidades da região vem aqui”

 

Zé Brito não tem noção do número de pessoas que já atendeu ao longo desses 40 anos, mas diz que chegou a receber uma média de 100 a 220 pessoas em um dia. “O povo está buscando mais a Deus. O pessoal de Arcos inteiro e também das cidades da região vem aqui”. Segundo ele, são pessoas de diferentes idades, profissões e classes sociais. “Gosto muito quando vem idoso”, comenta.

Dentre as pessoas que procuram Zé Brito para receber uma bênção estão até mesmo políticos tradicionais da cidade e, em época de eleição, os que se candidatam. “Eles vêm pedir ajuda, que é uma bênção. Eu peço pra Deus iluminar o caminho deles”. Zé Brito é católico e conta que já recebeu visitas de padres que trabalharam em Arcos no passado. “Sou católico, mas não tenho preconceito com nenhuma religião. Atendo pessoas de todas as religiões [...]. Já conversei com o padre Monsenhor Eustáquio sobre esse dom e ele disse que eu estava no caminho certo”, conta.

Sempre atendeu às segundas, quartas e sextas, depois de meio-dia, sem hora de parar. “Atendo o pessoal quando já arrumei minhas coisas tudo e já dei comida para ‘criançada’ “, comenta, sorrindo, referindo-se ao filho Noé (36 anos) e ao neto Adalberto (22 anos), que moram com ele. Às vezes a pequena Cibele (7 anos) também está na casa do avô, para alegrar ainda mais o dia dele.

 

Doações para o asilo

O benzedor enfatiza que não cobra pelos atendimentos. “Não recebo pelos atendimentos. Se a pessoa quer fazer, por exemplo, uma doação em dinheiro, peço pra pessoa entregar no asilo, e quando me dão cestas básicas, por exemplo, eu passo pra frente, porque graças a Deus eu não preciso, tenho minha aposentadoria e tenho saúde”. Zé Brito é servidor público aposentado.

 

“Quem faz as coisas é Deus, não sou eu”

Geralmente, quem procura Zé Brito quer que ele faça orações para que um problema de saúde seja curado. Esse é o motivo mais frequente. Mas, atualmente, ele conta que muitas pessoas estão pedindo por emprego. “As pessoas pedem muito pela saúde e para conseguir emprego, que é um tipo de pedido que está aumentando”. O benzedor ressalta: “Quem faz as coisas é Deus, não sou eu”.

Quanto a previsões, ele diz que não tem essa capacidade. E também afirma que não pede nada de negativo. “Se você fizer uma coisa negativa, está fazendo pra si mesmo, e as pessoas nem me pedem isso porque já sabem que eu não faço”, enfatiza.

É importante ressaltar que o auxílio prestado por um benzedor, para quem busca a cura de um problema de saúde física ou mental, não substitui as consultas com médicos e demais profissionais de saúde.