Ira: "Comportamento de quem se considera muito especial para ser contrariado"

Você conhece alguém que fica furioso com frequência? Leia a 2ª reportagem da série Vícios e Virtudes.

Ira: "Comportamento de quem se considera muito especial para ser contrariado"

Em sequência à série de reportagens do Jornal e Portal CCO sobre os Sete Vícios e Virtudes, produzida em parceria com o Prof. Dr. Pedro Jeferson Miranda, Mestre e Doutor em Ciências – Física, Fundador e Conselheiro Geral da Confraria Tomista e professor de filosofia tomista e línguas clássicas, o tema desta edição é a Ira e seu oposto: a Mansidão.

Quem convive com pessoas que estão sempre “iradas” sabe bem o quanto é difícil, afinal, trata-se de um comportamento que, se frequente, dificulta as relações interpessoais – seja na família, no trabalho ou no convívio em sociedade – e impede a harmonia no ambiente. Já as pessoas mansas/pacientes, na medida certa, contribuem para um ambiente harmônico.

Vamos destacar, aqui, a referência que nosso entrevistado faz ao Pe. Tanquerey (sacerdote e escritor francês – 1854-1932), segundo o qual a Ira está relacionada ao instinto. “Ele nos dirá que a cólera – ele usa a palavra ira – é uma disposição instintiva, ou seja, arraigada em nossa animalidade (corpo) que nos prepara para luta ou fuga. Isso significa que a ira é um sentimento natural – assim como a fome –, mas quando desregrada causa vícios. A malícia da ira se encontra quando desejamos realizar violência (psíquica, moral, verbal ou física) para coisas que não são importantes ou realmente injustas. Eis aqui o problema. Todos acham que são injustiçados, e muitos se iram com facilidade: ‘você comeu o MEU pedaço de bolo!?”, “mas que ultraje!!”. Esse pequeno exemplo ilustra que a ira, em verdade, está arraigada numa desilusão sobre si, pois ao nos considerarmos muito especiais, tornamo-nos iracundos quando contrariados. O iracundo se irrita facilmente porque contra ele nenhuma pequena falta pode ser cometida, uma vez que ele se coloca acima de tudo que existe. Chamamos esse sentimento antinatural de filáucia: um amor desregrado por si mesmo, mas que acaba em autodestruição. Assim, a ira é filha da filáucia”.

Quando a ira tem uma finalidade justa

Depois de todas as tentativas diplomáticas frustradas, a ira pode ser necessária e justificável, quando “os fins justificam os meios?” .

O professor esclarece: “A ira, sendo um sentimento natural, tem uma finalidade justa e boa: preparar o corpo para a luta ou fuga em casos de necessidade. Exemplo disso é a defesa dos inocentes, a defesa dos valores e a defesa da pátria. A ira também está relacionada à fuga de situações onde o inimigo é infinitamente superior. Nesse cenário, se seu martírio não trouxer benefício a ninguém além de si, a fuga é a decisão justa. A ação da fuga também é uma disposição colérica. Lembramo-nos que a ira é um vício no campo da cólera, e como vimos na matéria anterior, a virtude é um meio-termo entre dois extremos, mais comumente próximo a um dos extremos. No entanto, há aqui uma exceção, pois temos uma virtude de mansidão próxima ao extremo de falta de cólera e temos a virtude da bravura, que está mais próxima ao excesso de cólera. Então temos que tomar cuidado redobrado ao pensar nesse par de virtudes, pois uma não é exatamente o contrário da outra, apesar de estarem relacionadas no mesmo campo: a medida da cólera. Assim, podemos dizer que há uma cólera que pode ser bem empregada para fins justos e necessários, como a defesa dos indefesos; e temos uma ausência – um regramento, controle – da cólera que também é boa, quando somos ultrajados, mas aceitamos a injustiça cometida a nós por humildade – esta é a mansidão de que Jesus Cristo fala. Note que toda a problemática aqui gira em torno do discernimento de como e quando devemos agir ou não”.

“[...] Toda vez que te tornares iracundo, lembra-te das injustiças que já cometeste [...]”

Diplomacia é um dos caminhos mais utilizados para a solução de conflitos. Os estrategistas atingem seus objetivos sem demonstrarem descontrole emocional, sem apelarem para o grito.  Portanto, esse parece ser o melhor caminho. O que a filosofia sugere para alcançarmos esse equilíbrio e dominarmos nossa “raiva”?

Prof. Pedro responde que um dos melhores remédios para o excesso de cólera é o que diz o aforismo que estava escrito no Tempo de Delfos: conhece a ti mesmo. Nesse contexto, nosso entrevistado propõe um exercício bem simples:

“Olhe para dentro de si, sinceramente, e note que não há nada de excessivamente bom, nem de excessivamente mau. Tu, assim como eu, és medíocre. Nem nos defeitos somos especiais: os erros que cometemos, os pecados que temos, já estão todos descritos por autores antigos. Nem nisso somos originais. Aprofunde esse fato em sua mente. Toda vez que te tornares iracundo, lembra-te das injustiças que já cometeste.

Quantas vezes já pensamos ou vimos alguém falar: “Por que isso aconteceu justo comigo?”. E por que não? Nada pode te acontecer? Só pode acontecer mal com os outros, conosco não, pois nos consideramos especiais demais. Se alguém está nesse estado de espírito, sempre estará disposto à cólera excessiva por motivos injustos”.

Ele segue dizendo que além desse autoconhecimento, há outros meios para abrandar a ira colérica. “Como a cólera é uma disposição natural de nossa corporalidade, é possível que algumas pessoas sejam naturalmente mais coléricas do que outras, por questões fisiológicas; assim como alguns têm metabolismo mais lento e outros, mais rápido, agindo sobre a capacidade de sentir fome, por exemplo. Mas no caso da cólera, a prática de exercícios físicos de alta intensidade, a prática de artes marciais para administração da raiva e o cuidado com a alimentação correta é um apoio para combater esse vício [...]”.

Um alerta: “[...] Além desse cuidado físico, quando a cólera te inspirar ódio, rancor ou vingança, esse é o sinal claro para se afastar imediatamente da situação. Nem o ódio, nem o rancor e nem a vingança são coisas naturais, são reações geradas pelo excesso de cólera e quase sempre levam à desgraça. Assim, além dos cuidados com o corpo, seja humilde, lembra-te de quem és”.

O que a Ilíada, de Homero, tem a anos ensinar sobre a Ira?

Quanto à abordagem filosófica sobre a Ira, Prof. Pedro descreve: “Aristóteles novamente é o nome que temos para tratar desse vício que é oposto à mansidão, em particular na Ética a Nicômaco. No entanto, a primeira obra poética do ocidente de grande envergadura é uma narrativa que conta os efeitos da cólera em graus exacerbados: esta é a Ilíada de Homero (século IX a.C)”. Ele explica: Nela, protagonizam grandes heróis helênicos cujos feitos serão lembrados até o fim dos tempos, mas cuja hybris – palavra grega que não tem tradução exata em português, mas que representa desmedida ou desequilíbrio – levou essa geração heroica à ruína. Um desses protagonistas é Aquiles de pés ligeiros. Aquiles era um semideus e, devido a isto, poderia ser capaz de grandes feitos, seja para o bem ou para o mal. Sua hybris principal foi ultrajar o corpo de Heitor – grande herói troiano – e impedir seu justo funeral. Essa desmedida de Aquiles ilustra muito bem a falta de virtude no campo da cólera, nesse caso em particular, para o excesso de cólera”.

Nossa série sobre os 7 Vícios e Virtudes continua. O próximo tema será Gula (oposto: Temperança).
Entrevista e Redação: Jornalista Rita Miranda.

Matéria publicada no antigo site do Jornal CCO, em 30 de agosto de 2022