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Moradores de Arcos com mais de 90 anos e suas histórias

Dona Isolina, aos 104 anos, só faz o que tem vontade

Publicada em: 17 de outubro de 2018 às 10h49
História de Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 13/10/2018) - Edição 1970

Reportagem e Redação: Jornalista Rita Miranda

Bem vestida e perfumada, ela nos recebeu com um sorriso de satisfação e um olhar acolhedor. Na sala, assentou-se em seu “trono” – num cantinho decorado com imagens de santos, quadros e fotos – e segurou firme nas mãos da repórter. Toda a entrevista foi assim: de mãos dadas. Em seguida, mostrou a casa e a horta, tudo muito bem cuidado. Também houve pausa para café com biscoitos de lata, daqueles que a gente guarda o sabor nas lembranças.  

Isolina Inês Justino tem 104 anos, de acordo com o Registro de Identidade. Nasceu em 26 de agosto de 1914, na comunidade rural denominada Prata, município de Arcos. Menos de um mês antes havia começado a Primeira Guerra Mundial, que envolveu grandes potências, e só terminaria em novembro de 1918. Arcos só seria emancipada mais de 20 anos depois, em dezembro de 1938.

Dona Isolina e o marido, Francisco Teixeira da Mota (Chico Teixeira), que faleceu há aproximadamente 30 anos, tiveram três filhos: Maria Dirce Teixeira, José Ataíde Teixeira e Antônio Avaíde Teixeira. Ela tem sete netos e um bisneto.

O marido era lavrador. Ela foi lavadeira de roupas e cozinheira. Fazia quitandas e temperava carnes para famílias arcoenses, geralmente quando havia festas de casamento e aniversário. “Sei temperar porco, carne de vaca, desossar...; sei fazer rosquinhas, pão de queijo, broa, bolo, biscoito de lata (...). Tudo que é de fazer no forno eu sei fazer. Eu ‘batia’ qualquer quitandeira daqui de Arcos, minhas mãos eram abençoadas”, conta Dona Isolina, com voz firme. Saudosa, ela diz que Dona Iva Batista foi uma de suas clientes, que se tornou uma grande amiga.
José Ataíde, um dos filhos de Dona Isolina, conta que ela ficou muito triste quando Dona Iva faleceu. “Elas eram amigas e ela sempre visitava minha mãe no dia do aniversário dela”.  

Mesmo aposentada, por gostar de trabalhar, continuou fazendo quitandas até uns 10 anos atrás, com mais de 90 anos.

 

“Meu médico é o Dr. Cleudir. Amo ele! [...]”

O CCO perguntou para Dona Isolina qual é a alimentação dela, que a mantém bem de saúde com mais de 100 anos. Logo ela respondeu que come pouco, mas come de tudo, e nas horas certas: “Minha alimentação é livre. Arroz, feijão, angu, quiabo, chuchu, toda verdura que tiver e carne de porco”. José Ataíde confirma e conta que de manhã ela costuma tomar “água de fubá”, que Maria Dirce faz. No lanche da tarde é biscoito de lata, pão e leite. Ela também gosta de banana e laranja.

Ultimamente, só sente dor nos pés, e fica muito feliz ao falar do médico dela, o cardiologista Cleudir Minucci Guimarães. “Meu médico é o Dr. Cleudir. Amo ele! Ele é muito bacana, me trata muito bem lá na Fumusa. É um santo! Que Deus tome conta dele, porque a gente é pobre e ele tem muito carinho com a gente”.

Dona Isolina precisa apenas de vitamina e medicamento para controlar a pressão. É uma exceção à “regra”, porque geralmente os idosos tomam muitos medicamentos. A explicação de Dr. Cleudir é que ela foi privilegiada com uma excelente genética, além de ter um estilo de vida favorável, o que contribui para a sobrevida. Segundo o médico, a alimentação adequada é muito importante: comer pouco e com intervalo de três em três horas, e também praticar atividade física. “No caso da Dona Isolina, o que também ajuda é a alegria dela e a fé”, comenta o médico. Mesmo não tendo boa genética, é possível viver muito quando se tem estilo de vida adequado, ele orienta.  

Quem também cativou Dona Isolina foram dois ex-prefeitos de Arcos, Plácido Ribeiro Vaz e Lécio Rodrigues. “O Plácido e o Lécio são as cordas do meu coração. Jesus que tome conta deles!”, exclama.

O dia a dia – Ela gosta ajeitar a casa e aguar a horta, onde tem vários tipos de ervas e plantas e também pés de couve.  Dona Isolina já trabalhou bastante. Nos últimos anos, a vida segue bem mais lenta, mas feliz. “Eu acordo na hora que me dá vontade e deito na hora que me dá vontade. Sou dona de mim! Faço é o que eu quero. Sou aquela pessoa que não anda por mandado de ninguém, só de Nossa Senhora e de Nosso Pai lá no céu. Gente daqui da terra é muito difícil eu obedecer”, dá o recado!

A vida não foi só de trabalho. Ela conta que já viajou várias vezes para Aparecida do Norte, foi a Goiás e também à praia, em Santa Catarina.

Uma de suas paixões é o Congado. Ela não sabe as datas com precisão, mas é “Rainha Conga” há vários anos.  “Adoro! Amo o Congado! Sou devota de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. Eles todos me protegem”, conclui.