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Alda Borges Coelho: recordações de uma vida colorida dedicada à família, às plantas e aos trabalhos manuais

Publicada em: 03 de julho de 2020 às 13h37
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

Crédito: Studio Cláudia Coelho

Alda Borges Coelho: recordações de uma vida colorida dedicada à família, às plantas e aos trabalhos manuais

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 27/06/2020) - Edição 2057

Entre linhas, agulhas, rendas, tecidos e cores, Alda Borges Coelho, nascida em 1932, construiu sua história. "Teceu sua existência" com as melhores matérias-primas que encontrou. Seu olhar sobre o passado é que naquelas décadas havia mais leveza no mundo. Os traços da vida moderna não agradam a nossa personagem.

Alda nasceu na comunidade rural Ponte Nova, nas proximidades da Barra do Melo. A família era grande. Os pais dela tiveram 18 filhos. Além de ser uma garota dedicada às prendas do lar, também era estudiosa e se destacava na sala de aula, principalmente no momento de fazer contas, sendo elogiada pelos professores. Estudou na Escola Rural da Ilha. Ela se recorda que, na época, Rubem Frias coordenava as escolas rurais da cidade. Na área urbana, a responsabilidade era de Dona Cecília Lara.

Aprendeu a costurar quando era criança, observando a mãe. "Eu estava chupando bico ainda (...). Uma vez a minha mãe estava fazendo um 'babador' para o meu irmão mais novo. Ela tinha esse cuidado de fazer o babador, para ele não molhar o peitinho. Era feito com uma parte de lã [para ficar quentinho], forrado de algodão para encostar na pele. Então eu falei assim: Mamãe, como a senhora vai virar isso? A senhora está emendando a costura, fechando tudo com a costura. Ela riu demais e comentou: 'Essa menina vai ser costureira' ".

Quando já era casada, Alda começou a fazer vestidos sob encomenda. Também aprendeu, ainda menina, aos 12 anos, a fazer crochê e diversos tipos de bordados, como rechilieu (pronuncia-se popularmente "rechiliê"), ponto cheio e ponto ajour. Escolhia as melhores linhas, os melhores tecidos.

Foi costureira de algumas das senhoras mais elegantes de Arcos, a exemplo de Maria José Ribeiro Vaz - "Dona Benzinha" (esposa do médico João Vaz Sobrinho, que foi prefeito de Arcos), professora Leopoldina Ribeiro de Oliveira - "Dona Zita" (esposa de Paulo Marques, que também foi prefeito de Arcos), advogada e professora Sílvia Ribeiro de Carvalho (Dona Verinha), professora Maria Campos, Regina Melgaço Vaz, esposa de Plácido Vaz, ex-prefeito de Arcos.

"Uma vez eu fiz uma roupa para a Zita do Paulo Marques, quando ela era a primeira dama. Nunca fiz uma roupa tão bonita daquele jeito (...). Ela levou uma seda para eu fazer uma saia e umas fitas de cetim para entrelaçar e fazer uma blusa. Ela disse que iria nos casamentos dos cinco filhos com a mesma roupa", relembra Dona Alda.

Muitos dos trabalhos - a exemplo do vestido de noiva, das camisolas e roupas de bebês feitos para a família - estão guardados. "São peças únicas, bordadas à mão, que não se faz mais, por ser muito trabalhoso, muito demorado", diz a filha Cláudia Coelho.

 

 Alda Borges Coelho com seu esposo Renato Coelho dos Santos

 

O casamento com Renato Coelho

Quando participava do coro da igreja, conheceu Renato Coelho dos Santos (que também colaborava na igreja) e com quem se casou aos 24 anos de idade. Natural de São João Del-Rei e criado em Formiga, ele veio para Arcos em 1955, quando tinha 27 anos de idade. Trabalhava no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). "Na época, eu cantava no coro e frequentava muito a igreja; ele também. Logo, tinham muitas moças querendo namorá-lo, porque era um rapaz  muito bom, religioso, inteligente e tinha um bom emprego. Nos encontramos [pela primeira vez] em uma reunião no salão paroquial", relembra.

Alda fez seu vestido de noiva e os dois se casaram, formando uma família. O casal tem seis filhos: Alexandre, advogado; Aloísio, dentista; Lígia, empresária e formada em Direito; Lourenço, aposentado como bancário e também formado em Direito; Cláudia, fotógrafa profissional e formada em Letras; Renato, que trabalha na Polícia Civil em São Paulo e é formado em Direito.  São 11 netos e três bisnetos.

 

"Minha paixão maior é com música. Não tenho paciência com as músicas de hoje. O pessoal não sabe mais o que é música"

 

 

Decepções com as músicas e a moda do mundo contemporâneo

O fato de ser costureira e ter um "olhar clínico" e um gosto refinado para a moda tornaram Dona Alda exigente com os estilos. "Parece que o povo hoje não tem espelho em casa. É cada traje horroroso que a gente vê (...). Está banal e difícil! Hoje vejo o mundo com certa decepção. Está tudo muito pesado (...)", disse.

Acostumada à boa música, também é exigente com o que escuta. "Minha paixão maior é com música. Não tenho paciência com as músicas de hoje. O pessoal não sabe mais o que é música. Eu participava do coro da igreja e também fazia solos nos casamentos. O que mais cantava na época era a Ave-Maria [Ave Maria de Johann Sebastian Bach e Charles Gonoud]". Na minha época ouvíamos música clássica, valsas, orquestra sinfônica (...). Aqui em casa ainda tem o disco de Beethoven", conta.

Hoje, Dona Alda continua se dedicando aos trabalhos manuais. Atualmente, está fazendo crochê e macramê (macramé). Outra rotina agradável de nossa entrevistada é cuidar das plantas de seu jardim. "Vai para o quintal todos os dias de manhã molhar as plantas e podar", conta a filha Cláudia Coelho.

A entrevista para esta reportagem foi feita por Donizetti Bernardes, amigo da família, que enviou o áudio ao Jornal CCO para que contássemos a história dela. Ele tem grande admiração por Dona Alda. "É uma mulher forte, inteligente, de grande sabedoria, de um grande conhecimento da arte da costura e da arte de ouvir música clássica. A cada momento que conversamos com ela, temos um novo ensinamento; é uma biblioteca ambulante".

Fotos: Studio Cláudia Coelho

Entrevista: Donizetti Bernardes

Redação: Rita Miranda