Empreendedor 2017

Jovair da Silva supera deficiência e trabalha há mais de 25 anos

“O importante é a memória estar boa; a falta de um braço ou uma perna não atrapalha o ser humano não”, diz o entrevistado do CCO no espaço Superação

Publicada em: 06 de setembro de 2017 às 08h54
Superação

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 02/09/2017) - Edição 1911

 

Em sequência à série “Superação”, espaço onde o CCO conta histórias de pessoas com algum tipo de deficiência ou dificuldade, o entrevistado desta edição é o servidor público municipal Jovair Alfredo da Silva.

Jovair da Silva, de 64 anos, tem uma deficiência física desde criança e é funcionário público há mais de 25 anos. Atualmente é o responsável pela preservação e limpeza dos banheiros públicos localizados na praça Floriano Peixoto. O serviço é feito durante o dia.

Em entrevista ao Jornal CCO, ele contou um pouco de sua história de superação. Nascido no Capoeirão, zona rural do município de Japaraíba, teve 11 irmãos. Seus pais trabalhavam em uma fazenda. Aos 8 anos, ficou doente. Ele conta que a mãe o trazia para consultar aqui em Arcos, mas o médico dizia que era apenas um resfriado. Por não melhorar, foi para Belo Horizonte, onde ficou internado por um ano e foi diagnosticado com Osteomielite – quadro inflamatório que afeta um ou mais ossos, geralmente provocado por infecções bacterianas ou fúngicas.  Isso fez com que sua perna esquerda ficasse 35 cm menor que a direita e seus pés se atrofiassem.

O que o ajudou a levar uma vida normal é que seus familiares nunca o trataram como “coitado” e sempre o incentivaram a se esforçar e fazer aquilo que ele conseguisse. “Eles nunca ‘passaram a mão na minha cabeça não’. Eles disseram que tudo que eu desse conta de fazer era para eu fazer, mas que não era para eu ficar de braços cruzados, e isso me estimulou”, lembra.

Jovair comenta que conhece muitas famílias onde as pessoas com deficiência não são incentivadas e são tratadas como incapacitadas. “Tem que pôr pra frente. Se tem condição de fazer alguma coisa, tem que falar para fazer. O importante é a memória estar boa; a falta de um braço ou uma perna não atrapalha o ser humano não”, comenta.

Quando criança, Jovair jogava bola, nadava, andava a cavalo e subia em árvores, mesmo depois da deficiência. Quando ele tinha entre 17 e 22 anos, seus pais morreram. Como seus irmãos já estavam todos casados, ele foi trabalhar e morar sozinho. Trabalhou na Usina Luciânia (atual Biosev) por cinco anos, emprego que conseguiu depois de muito esforço. Segundo ele, na época, por volta de 1975, era bem mais difícil para os deficientes conseguirem emprego. Foi a época em que mais sofreu preconceitos, ele afirma. “Foi difícil, porque era um período de ditadura; a gente não tinha a oportunidade que tem hoje, quem é deficiente. Chegava nas empresas e eles diziam: ‘Você tem que aposentar, você não tem condição não’ “, relembra. Mas isso não o impediu de prosseguir em sua busca. Trabalhou na Usina Luciânia em Lagoa da Prata, trabalhou como trocador de lotação, e em 1986 veio para Arcos. No ano de 1988, foi chamado para trabalhar na campanha de Dona Hilda Andrade (que foi prefeita de Arcos em duas gestões: 1989 a 1992 e 1997 a 2000). Com a vitória dela nas eleições, no mês de março ele foi chamado para trabalhar em uma creche que fazia parte da ASA (Assistência Social de Arcos), instituição que também servia refeições para pessoas carentes.

Após dez anos passou em um concurso público, trabalhou na creche por 24 anos e hoje presta seus serviços no setor de meio ambiente. Ele conta que antes de começar a trabalhar nesse setor, durante o dia, os banheiros da praça Floriano Peixoto eram sujos, os vasos ficavam entupidos, não havia papel higiênico e as portas eram todas rabiscadas. Com isso, ao ficar responsável por essa área, pediu que fossem colocados todos os materiais necessários. Hoje, os banheiros são elogiados por pessoas que vêm de outras cidades. “Nós estamos recebendo muitos elogios de moradores das cidades vizinhas Lagoa da Prata, Formiga, Bambuí, Divinópolis. Não tem banheiro público que funciona bem igual esse aqui. Nas outras cidades tem que ir aos restaurantes ou ir às rodoviárias”, comentou.

Jovair é um exemplo de superação. Para quem tem deficiência, ele aconselha: “A primeira coisa é a própria pessoa acreditar nela mesma. Se ela bater em cem portas e todas fecharem, ela vai batendo até conseguir, porque na época que eu vim pra cá, se eu não tivesse conseguido, eu iria para outras cidades e iria continuar lutando. Um dia eu vi uma frase em um para-choque de caminhão: ‘Deus morreu de braços abertos, para nós não vivermos de braços cruzados’. Aquilo eu não esqueci, e me estimulou mais ainda”.

Por três anos, Jovair da Silva morou na Vila Vicentina – que fazia parte da Sociedade São Vicente de Paulo. Depois de algum tempo, ganhou um lote na gestão de Dona Hilda Andrade e construiu seu barraco, onde continua morando e leva uma vida tranquila.