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Tecedeiras e fiandeiras de Arcos

Maria Teixeira e Francisca Teixeira continuam em atividade, depois dos 70 anos

Publicada em: 24 de julho de 2019 às 10h05
Arcos
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 20/07/2019) - Edição 2010

 

Um tênue fio nos liga/de segredos e esperanças/como um cordão que alimenta/ e ameaça romper-se/ a qualquer hora./ Fio de vida e de morte/um tênue fio das Moiras/construído passo a passo/de ilusões e memória./Construtoras do destino/ tecelãs de nossas vidas/ fiamos juntas, sozinhas,/ tecidos de eternidades/Fiando às vezes silêncios/os fios se embaraçam,/ dão nós e arrebentam…/E do Nada surgem, então,/ como de mãos invisíveis,/ lãs quentes, jutas rudes, sedas suaves…/ E voltamos a tecer,/num trabalho incessante,/fiandeiras de nós mesmas,/ tecidos de nossas almas – Poema Fiandeiras, da psicóloga Celia Gago (*).

As irmãs Maria Teixeira, 74 anos, e Francisca Teixeira (72), moradoras da Vila Boa Vista, passam a maior parte do tempo trabalhando. Quando não estão fazendo as atividades domésticas, estão fiando e tecendo. Elas tecem colchas, tapetes, tecidos para fazer roupas (calças, camisas, vestidos).  

São filhas de Maria Tomásia de Jesus e José Teixeira e netas de Maria Antônia de Jesus, que foi parteira na comunidade rural São Domingos, e de José Teodoro Veloso. Os avós paternos são Maria Francisca de Jesus e Antônio Teixeira Quirino.

Elas nasceram na comunidade rural São Domingos dos Carneiros e moram em Arcos há mais de 50 anos. Durante algum tempo, foram lavradouras. Plantavam, colhiam (inclusive algodão), guiavam boi e faziam outros tipos de serviços na roça.

Ainda crianças, com aproximadamente 10 anos de idade, elas aprenderam a fiar, com a mãe. Elas seguem as seguintes etapas: desencaroçar o algodão (retirar as sementes, usando o descaroçador feito de madeira); bater o algodão, utilizando um arco e um cordel (para retirar o resto de impurezas); “cardar” (que é transformar o algodão em uma pluma, utilizando um equipamento próprio); a pluma é levada para a roda de fiar para ser transformada em fio (movimenta-se a roda com o pedal e, com as mãos, a fiandeira faz os ajustes para transformar o algodão em fio). Na medida em que fiam, o fio vai se enrolando no carretel.

 

 

Ao concluir todo esse processo, retira-se o fio do carretel e transforma-o em novelo. Para tingir o fio, utiliza-se a meadeira (ou dobradeira), para separar os fios em “meada”, propiciando uma tintura de qualidade. Em seguida, é feito o novelo novamente, que será utilizado para a tecelagem (produção do tecido no tear).

Cada uma de nossas entrevistadas tem o seu próprio tear. Um deles foi comprado de outra grande tecedeira de Arcos, Dona Edite Teixeira Borges. Para produzir tecidos, elas têm as amostras de mais de 50 anos atrás, com tramas diversificadas e originais.  

Anos atrás, quando não colhiam algodão,  compravam de Chico Ramos e Tuniquinho Pereira ou então na famosa “Loja do Sr. ‘Edinho”.  Para tingir o algodão, também já usaram pigmentos naturais,  a exemplo do caldo da laranjinha capeta.

Na casa onde moram atualmente, elas têm pé de algodão.  Também encontram na vizinhança, para comprar.

Maria e Francisca trabalham mais sob encomenda. Não faltam clientes e elas chegam a ficar até tarde da noite no tear. Levam uma vida bem simples, mas feliz. Sentem-se bem em continuar trabalhando mesmo depois dos 70 anos. A elas, a homenagem do Jornal e Portal Correio Centro-Oeste e do incentivador Dalvo Macedo, que, na foto, está usando uma camisa cujo tecido foi feito por Francisca Teixeira.