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RESCORTES DO TEMPO – HISTÓRIAS DE ARCOS

Pedro Antônio Neto: Um homem de muita fé, que aprendeu a ler e escrever com o trabalho no campo

Publicada em: 02 de dezembro de 2019 às 14h39
Memória
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 23/11/2019) - Edição 2028

Pedro Antônio Neto, “Pedro do Zé Antônio”, é um arcoense de 81 anos, que criou e cuidou de sua família na luta diária do campo. Neto de Índia, sua avó paterna Maria do Nascimento foi trazida do Mato Grosso dentro de uma canastra (barica) de madeira, pelos tropeiros e aqui formou uma grande família. Em entrevista a Dalvo Macedo, colaborador do Jornal CCO no projeto Recortes do Tempo – Histórias de Arcos, ele falou sua história e costumes de sua avó.

Pedro Antônio, que é da comunidade de Sobradinho, nasceu em 12 de fevereiro de 1938, ano da Emancipação Política Administrativa da cidade de Arcos. Filho de José Pedro do Couto e Maria Amélia de Jesus, Pedro cresceu e viveu aprendendo com o campo. Ele frequentou a escola por apenas 27 dias e ainda assim aprendeu a ler e escrever. Ele conta que aprendeu a escrever seu nome quando estava guiando boi, ele parava nos areões ou em terras porosas e ficava escrevendo as letras de seu nome. Já as contas de soma ele aprendeu trabalhando quando tinha que contar as viagens, os balaios e a quantidade de mercadorias que eram transportadas.

Pedro foi casado com a Senhora Maria Antônia da Silva com quem teve quatro filhos: Francisco Rone da Silva, Neide Aparecida da Silva, Sérgio Rone da Silva e Cleide Cristina da Silva. O casal também tem sete netos e um bisneto. Pedro sempre trabalhou no campo, no plantio de milho, arroz, feijão e outros cultivos. Ele tinha um carro de boi e com ele prestava serviços de transporte de lenha para fazendeiros, até a estação da Rede Ferroviária de Luanda, para reabastecer a Maria Fumaça que era movida a vapor. Ele relembrou que, no ano de 1965, ele transportou 32 carros de boi cheios de abóboras, da fazenda Limeira de propriedade do Dr. João Ribeiro do Vale, para os criadores de suínos: Zito Leão, Otávio Teixeira, Antônio Marco e João Teixeira. Pedro também trabalhou durante 50 anos na fazenda Mantinha, de propriedade do Sr. Dalton Viglione.

 

Pedro Neto com a comitiva 'Herança de Tropeiros' em Aparecida do Norte

 

Um homem de muita fé

Seu maior hobby é andar a cavalos e burros e, ainda hoje, ele está sempre  presente participando das cavalgadas que acontecem na cidade. Há oitos anos ele também participa da Romaria, indo a cavalo até o santuário de Aparecida do Norte, em São Paulo. Ele faz parte da comitiva ‘Herança de Tropeiros’, onde todos os anos, na última semana do mês de abril, eles também participam de uma romaria até o santuário de Aparecida em Campos Altos-MG. Seu companheiro nessas horas é o seu burro “Bandido”. Ele conta que sempre quando ele chega em sua fazenda, ele assobia e todos os animais se aproximam dele com muita alegria.

Pedro também é um homem de muita fé, é muito participativo aos domingos nas celebrações da Santa Missa e no terço dos homens, na paróquia Santo Antônio. Ele também é benzedor muito conhecido: “Todas as pessoas pedem as minhas orações. As orações acontecem no momento que são praticadas. O Pai Nosso e a Ave Maria é a reza principal, as palavras são iluminadas por Deus, é um dom que a pessoa tem”.

 

Neto de Índia

Pedro Antônio contou que é neto de Maria do Nascimento, uma índia muito bonita que morava no Mato Grosso e foi trazida para Arcos aos 3 anos de idade, dentro de uma canastra (barica) de madeira, pelos tropeiros. Aqui ela formou uma grande família. O pai de Pedro contava que eles acharam-na sozinha em uma mata e  a entregaram para ao Senhor José Miguel, fazendeiro de Sobradinho/Santana, que a adotou e a criou como se fosse sua filha. Certo dia, apareceu um viajante alemão que a conheceu e se apaixonou por ela. Eles se casaram, mas para que isso acontecesse, foi necessário que o alemão registrasse o seu nome de Pedro Antônio Valadão e ela de Maria do Nascimento. O casal teve oito filhos, todos muito bonitos, alguns nasceram negros e outros brancos: Miguel Antônio do Nascimento, Francisco Antônio, Pedro Antônio, José Pedro do Couto, Amélia, Sinhá, Marieta e Severina.  

Quanto aos costumes de sua avó, ele conta que ela seguia os mesmos da aldeia indígena. Seus alimentos eram à base de feijão cozido com toicinho e couve. Também comia outras verduras e alimentos da terra que ela gostava de plantar. As comidas eram feitas apenas em panelas de pedra e não comia alimentos feitos em panelas de ferro ou alumínio. Alimentava em gamela de madeira ou barro e até as colheres eram desses materiais. Seu forno era todo construído de pedra sabão e nele ela gostava de fazer assados e uma raspa de mandioca que todos gostavam. Ele conta que ela comia muito e que levantava até a meia noite, se desse fome, para comer seu feijão. Na época, ela não usava querosene,  plantava mamona para fazer o azeite e usar nas candeias. Ela também não tomava remédio de farmácia somente plantas e raiz de mato.

Sua avó usava blusa e uma grande saia rodada que tinha por baixo uma combinação, ela não gostava que o pai batesse nos filhos e quando ia para bater, as crianças corriam para perto dela e escondiam dentro de sua saia. Ás vezes escondiam até quatro crianças que ficavam somente com a cabeça de fora. Ela era muito brava e protegia as crianças, todos os vizinhos a respeitavam. Maria do Nascimento faleceu aos 90 anos, em 1948.