Mérito Empresarial

Monsenhor Eustáquio é investigado por improbidade administrativa

O padre ocupou um cargo na Secretaria de Saúde de Lagoa da Prata sem trabalhar as oito horas diárias

Publicada em: 25 de abril de 2018 às 08h59
Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 21/04/2018) - Edição 1945

 

O site opapel.com noticiou, no dia 19 de março, que o promotor de justiça de Lagoa da Prata, Luís Pena, impetrou nova Ação Civil Pública contra o prefeito Paulo Teodoro (Paulinho), o líder religioso e psicólogo Monsenhor Eustáquio Afonso de Souza e um advogado, sob acusação de prática de improbidade administrativa.

De acordo com a reportagem, a nova ação tem por base a ação eleitoral desencadeada em 2016, logo após as eleições municipais, quando houve as contratações de Monsenhor Eustáquio e do advogado. A Promotoria de Justiça em Lagoa questiona sobre a nomeação do padre para o cargo de Assessor Técnico Administrativo, em janeiro de 2016, lotado na Secretaria Municipal de Saúde. Conforme consta na Ação, foram ouvidos funcionários da pasta que alegaram jamais terem visto Monsenhor Eustáquio nas dependências do órgão. À Justiça, o padre declarou que exercia suas funções nas escolas municipais, como psicólogo, trabalhando às quintas-feiras no período da manhã e à tarde. No entanto, de acordo com o conteúdo da Ação, o cargo dele era de coordenação, direção, chefia (e não de psicólogo). A Promotoria alega que, na verdade, a missão dada ao padre, como ocupante de cargo comissionado, era “atrair os adeptos para o projeto eleitoral de reeleição de Paulo César Teodoro”.

Pároco em Arcos de 1981 a 1997

Monsenhor Eustáquio foi pároco em Arcos no período de 1981 a 1997, por 16 anos. Também foi diretor do extinto ‘Colégio Dom Belchior’ e da escola estadual ‘Dona Maricota Pinto’. Ele fez parte da formação religiosa de muitos arcoenses e por isso tem seus admiradores na cidade. Diante desse contexto, o CCO decidiu ouvir a versão dele frente aos fatos noticiados no site de Lagoa da Prata.

Inicialmente ele disse: “É um direito do MP (Ministério Público) fazer essas considerações, mas eu tenho que esclarecer”. Monsenhor contou que na época recebeu um convite do prefeito, que o queria como assessor em alguns casos. Conforme relatou ao CCO, o prefeito teria dito que ele não precisaria cumprir horário. “Eu disse a ele [ao prefeito de Lagoa]: porque se for para cumprir horário, eu não tenho tempo, porque no meu consultório, tenho muito trabalho”.  Monsenhor afirmou que o prefeito concordou e justificou que a Prefeitura não poderia pagar um salário compatível com a formação acadêmica e a cultura dele. A finalidade da contratação, segundo o padre, seria uma assessoria junto aos professores e também em alguma reunião. “Então ele [o prefeito] disse que iria me fichar. Não me falou o salário. Depois que eu fui ver que o salário era R$ 3 mil. Eu, como um homem consciente, não gosto de ganhar sem trabalhar, e nos primeiros 15 dias não surgiu trabalho. Eu disse para ele: Paulinho, quem sabe eu vou dar uma assessoria todas as quintas-feiras nas escolas? E todas as quintas eu ia. Eu fazia palestras sobre autoestima. Em todas as escolas municipais eu fazia palestras, inclusive nas reuniões com os professores”.

O padre disse ao CCO que também atendeu, em seu consultório, pessoas ligadas às escolas. “Tenho três casos que seriam de suicídio, e graças à terapia eles estão vivendo até hoje”, contou.

Monsenhor afirma: “O dinheiro que a Prefeitura me pagou foi justo”

Mesmo não tendo cumprido 100% da carga horária, que seria de oito horas diárias de trabalho na Secretaria de Saúde de Lagoa da Prata [onde era locado], de segunda a sexta-feira, o padre diz que o salário que recebeu foi justo. “O dinheiro que a Prefeitura me pagou foi justo, porque se eu tivesse no meu consultório, eu ganharia muito mais. [...] Eu vou deixar de ganhar, por exemplo, 800,00 reais no meu consultório, em um dia [R$4 mil por semana], para ganhar lá uma mixaria de 3 mil? Eu seria até burro [...]”, reafirmou.

O padre disse que não se arrepende. “O que eu quero deixar claro é que eu não ganhei sem trabalhar [...]. Eu estou com a consciência limpa. Veja bem: um padre ganhando sem trabalhar é contrário a tudo aquilo que eu ensino. Na verdade, eu estou consciente de que eu dei muito mais para a Prefeitura de Lagoa, recebendo aquele ‘salarinho’ que eles me deram”.

Participação na campanha do atual prefeito de Lagoa da Prata

Monsenhor disse que realizou uma bênção na convenção do PDT em Lagoa da Prata e que esse fato foi mal interpretado. “Eu fui lá e abençoei o povo do PDT, mas eu iria também abençoar o povo do PMDB ou do PSB [...].Onde existe o ser humano que quer uma bênção de Deus, eu estou lá”.

Além disso, surgiram comentários de que na época da campanha eleitoral ele teria pedido votos para o atual prefeito durante a missa, ao dizer: “Estamos no número 12”.  Monsenhor nega o fato e faz a seguinte alegação: “No folheto da missa tem uma continuidade. Depois do Evangelho tem o ‘Credo’, que é o número 11. Depois do Credo tem o número 12, que é a oração da comunidade. Então eu falava assim: Gente, pra quem está perdido, nós estamos no número 12. O promotor entendeu que eu falei: ‘Votem no número 12’. Depois que eu fui ver que o número 12 era o número do PTD, do qual eu fui membro quando fui candidato”.

Na época em que surgiu a denúncia em relação ao cargo dele na Secretaria de Saúde, Monsenhor Eustáquio foi exonerado. A Promotoria chegou a pedir o bloqueio dos bens dele, mas o juiz indeferiu.

Realizações em Arcos – 18 vacas e 22 novilhas rifadas para construir a Casa de Pastoral

Durante o período em que Monsenhor Eustáquio foi pároco em Arcos, iniciou-se a construção da igreja Santo Antônio, no ano 1987. Ele disse que a obra foi concluída e em seguida foi criada a Paróquia de Santo Antônio.

A Casa Pastoral – no imóvel onde funcionava o extinto Colégio Dom Belchior – também foi construída por uma iniciativa de Monsenhor Eustáquio. Para conseguir recursos, surgiu a ideia de rifar vacas. “O Toninho Chicri, Tarcísio [que trabalhava na antiga Elétrica Fontes], Chicão, Zeca Caetano e eu nos reunidos para vermos o que poderíamos fazer para pagar a construção. Toninho Chicri deu a ideia de rifar vacas. Ganhamos algumas e compramos outras. Nós comprávamos uma vaca por 800 cruzeiros e fazíamos quase 3 mil cruzeiros. Dava certo! Então nós comprávamos o material e pagávamos os pedreiros. Rifamos 18 vacas e 22 novilhas” – lembrou.

Outra obra foi da igreja da Barra do Melo. Monsenhor Eustáquio contou que durante uma gestão de Dona Hilda Andrade (que foi prefeita de 1989 a 1992 e de 1997 a 2000), ela ajudou a paróquia na construção, assim como em reformas na igreja matriz Nossa Senhora do Carmo. “Praticamente, a Dona Hilda fez tudo aquilo pra gente”, comentou.

A construção do segundo andar da Casa Paroquial na época, que era em frente à igreja da praça Floriano Peixoto, também foi desenvolvida por Monsenhor Eustáquio.  Ele atuou, ainda, na área educacional. Foi diretor do colégio Dom Belchior por 17 anos, que era particular, mas com distribuição de bolsas de estudo. “Demos muitas bolsas de estudo. Pessoas que não pagavam não deixavam de estudar. Nunca, em meu mandato, eu mandei uma pessoa embora que não pudesse pagar, a gente negociava”, relata.

 

Candidatura a deputado em 1997

Monsenhor Eustáquio foi candidato a deputado estadual em 1997. “Naquele tempo, eu percebi que na assembleia legislativa, 30% dos deputados eram pastores, e que eles ajudavam muito. Então eu pensei: Se tem pastores, eu também posso, como padre católico, influenciar. Eu pensava em ter, em Belo Horizonte, com meus rendimentos, uma casa com empregada que recebesse os doentes de Arcos. Era uma luta ir para BH e não ter lugar para ficar. Este era o meu sonho! E também queria conseguir verbas para o Município. Não deu certo. Fui muito perseguido. Pessoas a quem ajudei muito no passado apoiaram Manoel Bibiano e eu tive somente 55% dos votos (16 mil votos). Eu poderia ter sido eleito com 21 mil, mas os outros que entraram tiraram meus votos”, disse.

Monsenhor é Mestre em Filosofia e Teologia

Monsenhor Eustáquio Afonso de Souza tem 74 anos. É natural de Martinho Campos, mas morava em Bom Despacho, onde foi ordenado em 1971. É Mestre em Teologia e em Filosofia. Também é graduado em Pedagogia e fez curso de Psicologia Aplicada à Consciência de Medo e Inferioridade. Ele explica que para validar esse diploma, estudou psicologia também na UNESP de Divinópolis e adquiriu o registro.

Iniciou o sacerdócio em São Gotardo, onde ficou 10 anos, e depois veio para Arcos, onde ficou de 1981 até 1997. Em seguida trabalhou em Pimenta, Campos Altos, Divinópolis, Santo Antônio do Monte, Formiga. Há três anos está em Lagoa da Prata.