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Um quilombo no Corumbá, liderado por um rei africano

Publicada em: 04 de dezembro de 2020 às 14h00
Arcos
Cultura
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 28/11/2020) - Edição 2079

O grupo Nós Somos Ambrósio celebrou o Dia da Consciência Negra (20 de novembro), no sábado, 21, na região do Corumbá (Distrito de Pains), povoado situado a 9km do centro de Arcos.

O pesquisador e incentivador do Projeto, Geraldo Ló, diz que o local teria sido uma das 40 unidades do Quilombo de Campo Grande - do "Rei Ambrósio". (Leia a história no final desta reportagem). Ele está em  busca desse reconhecimento. "Lutaremos por essa causa tão importante, maior que o Quilombo de Zumbi, até conseguirmos o reconhecimento das pessoas e autoridades e, assim, levantarmos um monumento ao "Rei  Ambrósio", o líder do maior e mais importante Quilombo do Brasil".

Geraldo Ló fez uma descrição romanceada do evento realizado no sábado, que vale a pena ser registrada: "De cima do Morro do Espia ou pedra da Gurita, o rei Ambrósio a tudo assistiu. Às 13h do dia 21 de novembro de 2020 rufaram os primeiros tambores que ecoaram nas pedreiras do pequeno Corumbá na cidade de Arcos. Era o grupo de congado Moçambique Filhos de São Jorge, do capitão Geliel, que a partir da capela do Rosário percorreu todo Corumbá cantando, tocando seus tambores, maracas e chocalhos, fazendo suas alegorias e abrindo a tarde de eventos. Foi uma grata surpresa ver as senhoras largarem seus afazeres, chegarem nas janelas e, pouco depois, já nas ruas admirando, aplaudindo e fotografando toda aquela manifestação. Gentilmente, a comunidade preparou uma  mesa farta com biscoitos, bolos, leite, chá e café para os convidados matutinos e uma enorme panela com arroz rico (frango, cenoura milho, etc) para os vespertinos. A segunda atração do dia foi o Grupo de Capoeira, acompanhado pela secretária de Cultura de Pains, Márcia Rabelo, que encantou a todos com sua dança e seu gingado. Já começava entardecer quando o grupo de Folia de Reis  Nossa Senhora do Rosário deu seu show com mais de 20 componentes encerrando as comemorações do Dia da Consciência Negra nas terras onde o rei africano,  Ambrósio, percorreu e fez história. Acredito que Ambrósio não se decepcionou, ficou foi muito emocionado conforme me confidenciou sua esposa Cândida".

Leia parte do texto  compilado por Geraldo Ló, a partir de referências bibliográficas, com a narrativa da história do Rei Ambrósio e de seu Quilombo na região Centro-Oeste de Minas.

Transcorria a segunda metade do século XVIII, tempo em que remanesciam os quilombolas sobreviventes dos grandes massacres do quilombo de Campo Grande (grande conjunto de povoados, mais de 40 naquela região), que reuniam sob as ordens de Ambrósio, um negro, filho de rei africano, cuja história é permeada de exemplo de dignidade e de altivez. Foi escravizado, traficado para o Brasil e posto à venda no mercado do Valongo, Rio de Janeiro. Jesuítas o compraram juntamente com Cândida, sua companheira até a morte. Era reconhecido pelos jesuítas como homem purificado e bom.

A localização do  Quilombo do Ambrósio, que na verdade era uma rede de quilombos do sertão de Campo Grande, que começava em Ajuda dos Cristais entre o Rio Grande e Rio Parnaíba, passava por Arcos (Corumbá) , Bambuí e terminava na Serra da Marcela (Campos Altos).

O "Rei Ambrósio" era respeitado pelos demais moradores, quer fossem quilombolas ou índios. Todos, especialmente os africanos, mesmo longes da pátria-mãe, a África, tratavam Ambrósio e Cândida com homenagens próprias reservadas ao rei e a rainha.

Ambrósio era um homem firme, sério e implacável na aplicação da lei em busca da ordem. Era admirado porque era justo. O Quilombo era uma organização social onde o trabalho visava ao bem geral da sociedade.

 

Traição - Naquele tempo, Vila Rica era o mais importante pólo comercial. Ambrósio mandava buscar as provisões que o Quilombo não produzia. Seus comandados recebiam ordens severas de bem proceder, pois ninguém podia saber a localidade do Quilombo. Contudo, certa feita o negro Rebolo desrespeitou a lei ambrosiana, com traição.

Avisado pelas sentinelas do Morro do Espia a tempo de fugir, Ambrósio resolveu ouvir seu povo, que escolheu lutar e ficar a ter que  se submeter a novo período de escravidão.

O Quilombo sucumbia. O mais perfeito movimento africano dentro do Brasil colonial e modelo de organização social era desmantelado. Os remanescentes permaneciam como provas  para a história.

 

Africanismos

A toponímia regional e seus africanismos são riquíssimas, exemplos não nos faltam: Loanda, Cazanga, Bocaina, Bocaininha (sede do quilombo), Corumbá, Boca da mata, Taboca, Pindaíba, Serra do Ambrósio, Quilombo, Morro do quilombo etc.

O Quilombo do Campo Grande, conhecido também como Quilombo de Ambrósio, era organizado em diversos núcleos, que atualmente coincidem com as regiões de Bambuí, Corumbá (Arcos), Cristais, Guapé, Alpinópolis, Caeté (Nova Resende), São João Batista do Glória, São Sebastião do Paraíso, dentre outros. As povoações, embora distintas, eram todas lideradas por "Rei Ambrósio" e formadas, em sua maioria, por negros alforriados.

Já em 1718, o governador Conde de Assumar descreve, ao rei de Portugal, o temor causado por negros "calhambolas" e índios pelos roubos, sequestros, apropriações de roças e ataque às aldeias. O documento propõe a solução do problema como algo simples: seria como se procede com pragas e bactérias, propondo a dizimação dos quilombos. A consequência direta dessas investidas quilombolas nas aldeias surtia na economia colonial um aumento nos produtos, por isso era de extrema relevância o domínio da coroa nas terras ocupadas pelos quilombos. Assim, "por alguma magia social inscrita na produção dos documentos oficiais, as inverdades viram verdades nas práticas históricas; e o milagre da enunciação legitima", como diz a socióloga Daniela Santos Alves.

 

Referências Bibliográficas: O mundo das Feras: os moradores do sertão do Oeste de Minas Gerais - séc. XVIII e citações de Márcia Amantino, Ed. Annablume; Xcopene (RE) Existência intelectual Negra e Ancestral; Anais do Colóquio de Pesquisa do CERES UNIFA; Magis Cultura; Revista do Arquivo Público Mineiro; Quilombo do Ambrósio - Wikipédia; Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - Universidade Federal de Uberlândia- MG Quilombo - O Quilombo MG.

A matéria também será publicada no Portal CCO, em breve, com mais detalhes. (www.jornalccol.com.br).