Vende-se Apartamento

Idosos e o quartinho dos fundos

Publicado em: 17 de julho de 2018 às 09h18
Saúde

(Artigo publicado pelo Jornal CCO impresso em 07/07/2018) - Edição 1956

Dr. Tarcísio Narcísio Silva

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil já possui mais de 30 milhões de idosos em 2018. Esse aumento da população idosa é uma tendência em todo o mundo. A preocupação quanto a isso é que será necessária uma preparação em todos os setores da sociedade para esse envelhecimento da população. Setores ligados à saúde, previdência, segurança e assistência social terão que ser adaptados. Cada vez mais médicos terão que se atualizar e aprenderem sobre o atendimento ao paciente idoso. E a família, que é a mais importante instituição de uma sociedade, terá que aprender a conviver e saber apoiar seus idosos. Infelizmente, ainda existem muitos mitos e falta de informação a respeito do envelhecimento. Frases do tipo: “Vovô vive reclamando de dores, mas isso é normal para um idoso”, ou “Todo idoso fica deprimido com o tempo”, passam a impressão de que as queixas associadas ao envelhecimento são um preço que os idosos devem pagar por viverem muito e que não precisamos buscar saná-las todas. Com isso, a qualidade de vida do idoso fica cada vez pior, suas queixas aumentam e o resultado geralmente é o isolamento no famigerado “quartinho dos fundos”.

A Síndrome do quartinho dos fundos

Todo estudante de Medicina, logo que inicia seu aprendizado em Clínica Médica e, mais especificamente, em Geriatria, aprende sobre a terrível “Síndrome do quartinho dos fundos”. Pode ocorrer em todas as classes sociais, geralmente atinge idosos mais debilitados, e é conseqüência da falta de informação ou falta de comprometimento com os cuidados que devemos ter com o paciente idoso. A cena geralmente é a seguinte: num quartinho isolado do restante da casa, encontramos um velhinho ou uma velhinha, debilitado (a), geralmente acamado ou com dificuldades para andar (inclusive para sair do quarto), muitas vezes apático, deprimido, desnutrido, desidratado, com escaras (feridas provocadas por ficar muito tempo deitado ou sentado), sem noção de dia ou noite, desorientados. Alguns muitas vezes num louco desejo de poderem conversar com alguém, pois ficam muito isolados (daí serem muito falantes e taxados de “chatos, gagás”). Quando o netinho tenta se aproximar do quarto, o pai ou a mãe logo dá a maior bronca: “Fica longe do quartinho pra não atrapalhar o descanso do vovô! “ O vovô então vai esquecendo-se do rostinho do netinho, e dizem que é porque está “esclerosado”. Com o envelhecimento, o idoso diminui a capacidade de sentir o cheiro, sabor dos alimentos, sede e fome; mas a família acha que é “teimosia da velhice”. Como fica isolado no quartinho, muitas vezes não se alimenta nem ingere líquidos nos devidos horários, daí a desidratação e desnutrição. Tudo isso vai deixando o organismo cada vez mais debilitado e o idoso começa a desenvolver infecções de repetição, como pneumonias e infecções urinárias. Por ficar muito tempo sem se movimentar, as infecções tendem a piorar cada vez mais, a circulação do sangue fica prejudicada, aparecem tromboses nas pernas e, finalmente, a embolia pulmonar, principal causa de óbito em idosos acamados. Daí os familiares dizem: “Morreu de velhice”, ou “A idade o foi deixando triste, triste até morrer”. Alguns familiares se consolam: “Pelo menos não o mandamos para o asilo, cuidamos direitinho até ele morrer”.

Essa Síndrome é uma importante causa de morte lenta para os idosos. Não há nada de errado em se cuidar de um idoso em um quartinho. O que se critica é a falta de comprometimento verdadeiro dos familiares ou dos cuidadores dos idosos. Critica-se a falta de informação, inclusive de profissionais da saúde, que deveriam orientar melhor os familiares. Com isso, cria-se uma condição que é degradante para o ser humano, que tira sua dignidade, piora seu estado de saúde física e mental e perpetua uma situação de ignorância na sociedade.

Com o aumento da população idosa, o maior problema de saúde pública, caso não se tomem as devidas providencias de informação e conscientização, será a própria ignorância da população.

Saúde por Dr. Tarcísio Narcísio Silva

Médico Endocrinologista e Metabologista - CRM 36.468