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Entrevista com Dom Aristeu

Bispo fala sobre trabalho voluntário, vocações religiosas e destaca a atuação da igreja nas questões sociais

“Não é só rezar. A igreja deve ser parceria na construção do bem-comum e fortalecer a cidadania” - bispo na Diocese de Luz, Dom José Aristeu

Publicada em: 21 de novembro de 2019 às 13h51
Arcos
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(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 16/11/2019) - Edição 2027

Dom José Aristeu Vieira, 67 anos, é natural de Rio Vermelho, no Nordeste de Minas. Graduou-se no Seminário em Diamantina e estudou Filosofia e Teologia. Especializou em Pastoral, na Colômbia (no Instituto da Conferência Latino-Americana dos Bispos) e em Educação e Psicopedagogia, entre outras. Investiu, ainda, no conhecimento de outras línguas: espanhol, francês, inglês e um pouco de italiano.

Tornou-se padre em 13 de outubro de 1979. Depois de aproximadamente 36 anos, assumiu o cargo de bispo, em 2 de maio de 2015. A posse na missão em Luz se deu em 14 de junho de 2015. A função primordial do bispo é garantir a sintonia da unidade da Diocese com o Papa, que é quem escolhe e dá posse ao bispo. Em Luz está o Escritório Central da Diocese à qual Arcos pertence e a Catedral – “Igreja Mãe”, símbolo de todas as paróquias da Diocese.

No início do sacerdócio e ao longo de mais de 30 anos, Dom Aristeu Vieira trabalhou na Diocese de Diamantina como padre diocesano em vários municípios.  Também esteve em uma missão internacional em Lyon, na França. “Estive sete anos na França, a serviço da espiritualidade sacerdotal. Fui para um aprofundamento em minha própria espiritualidade. Sou participante de uma associação de espiritualidade sacerdotal que se chama Prado, que nasceu em Lyon, onde está a sede”, relata o bispo, explicando que se trata de uma associação eclesial com a finalidade de congregar sacerdotes para formação em retiros e cursos. A associação promove encontros em cada diocese e encontros regionais no âmbito de países. Depois de um ano nessa experiência, Dom Aristeu foi eleito para ser o responsável por esse trabalho internacional. “Fiquei seis anos no serviço missionário internacional. Percorri 30 países ministrando retiros, criando partilhas, assessorando assembleias, fazendo ponto de ligação internacional e chamando-os lá na França, fazendo sessões, estudos, trabalhos de reflexão e outros”, explica.  

Dom Aristeu já esteve com três papas: São João Paulo II, Bento XVI e Francisco. “Vi o Papa João Paulo II em celebrações, não estive perto dele, como estive com Bento XVI, em Roma, quando participei de uma semana com ele, concelebrando. Com o Papa Francisco, logo que fui eleito bispo por ele, naquele primeiro ano eu fiz um encontro em Roma e está previsto um novo encontro em setembro de 2020”.

Sobre papa Francisco, o bispo diz: “Ele tem uma concepção de pastoreio, de padre, de bispo, que levou também como papa. É a pessoa da proximidade, da simplicidade, da busca de coerência. Ele passa serenidade e tranquilidade... vive o encontro com a gente, sem pressa”.

 

Atuação do Bispo

O bispo atua em diversos canteiros de missão. Um deles é o Canteiro Administrativo e Contábil, realizando toda a movimentação financeira das paróquias da Diocese. “Temos a corresponsabilidade, porque cada paróquia tem o pároco como responsável e isso é centralizado perante o Estado e o Governo e as leis civis”, explica.

Também cabe ao bispo a coordenação da Pastoral, para que todos os movimentos tenham a mesma identidade, o mesmo direcionamento, o mesmo rosto, as mesmas diretrizes.

A formação sacerdotal e o trabalho de despertar vocacionados são outras responsabilidades do bispo, de fundamental importância na Diocese. Dom Aristeu relata que havia diminuído o número de vocacionados, mas já está havendo uma reação. “Na região da Diocese de Luz, eu diria que há um movimento relativamente fecundo de vocações. Tenho 20 seminaristas, sendo 10 em Luz e 10 em Belo Horizonte. Todo ano tem uma ordenação em Formiga, quando não são dois, de jovens da nossa Diocese que se tornam religiosos. É um canteiro bastante fértil”, avalia. O maior número de vocações na Diocese de Luz são masculinas. “Constatei nesses anos de trabalho que as vocações femininas são menos frequentes do que as vocações masculinas. Existem também mulheres maduras que estão se consagrando no serviço das Dioceses e das paróquias. É um tipo de vocação também. É para estar a serviço na própria paróquia, com uma relação de compromisso maior e de entrega a Deus, à Pastoral, à comunidade”, diz.

A visita pastoral é uma importante atuação do bispo. Neste ano, Dom Aristeu já visitou mais de 20 cidades. Essas visitas não se limitam às paróquias de cada município. Em Arcos, por exemplo, ele já visitou escolas, a Santa Casa, a APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) e outras instituições.

 

 

Desafios da Diocese de Luz

Dom Aristeu diz que o grande desafio da Diocese de Luz atualmente é encontrar pessoas disponíveis para o trabalho voluntário. “O mundo urbano de hoje é muito envolvente e as pessoas estão diluídas em muitas coisas. O desafio é manter esse funcionamento de comunidade, encontrar pessoas disponíveis para colaborarem como voluntários. Uma comunidade funciona na base do voluntariado”, ressaltou o bispo, acrescentando que em alguns lugares os padres estão com dificuldades em encontrar colaboradores.

Outro desafio é o acompanhamento da juventude que se encontra muito fragilizada. “Existe certa fragilidade na família, muitas mudanças nas famílias, que estão se reestruturando, se reajuntando, se recriando. Os pais, às vezes, são de terceira união e os jovens estão afetivamente feridos. Tem também a influência que recebem hoje da mídia, nas redes sociais; eles têm acesso a tudo ao mesmo tempo”, comenta o bispo, citando ainda o consumismo exagerado, os vícios e os riscos da Internet

 

A prática do catolicismo na Diocese

No que se refere à prática do catolicismo em Arcos, o bispo destaca a cultura de participação. “Nosso povo ainda é participativo, solidário, demonstra crédito na igreja. Sobre essa participação, vejo como muito mais positivo. Por outro lado, há muita gente que poderia contribuir mais”, diz, referindo-se ao trabalho voluntário na igreja e nas instituições. “Creio que a sociedade como um todo deveria se empenhar um pouco mais, sobretudo referente às causas da própria sociedade. Se a sociedade civil e o povo ficarem de braços cruzados esperando e condenando, não teremos paz, justiça, segurança, não teremos educação, não teremos saúde. Se o povo chegasse e assumisse como sua responsabilidade, creio que as autoridades responderiam mais e melhor à sua tarefa. A sociedade tem que acreditar em si, acreditar nas suas autoridades e incentivá-las a ter mais sonhos, mais ação. Acredito que se uma pessoa foi eleita e foi abandonada, ou seja, não teve a corresponsabilidade, o risco dado é de ela se sentir impotente no fazer. Todo cidadão precisa dar sua contrapartida, precisa participar”, disse o bispo, citando, como exemplo, a necessidade dos pais estarem mais presentes na escola dos filhos e apoiarem os educadores. “É uma grande responsabilidade educar, com todos os desafios que estamos vivendo hoje, com todos os problemas que atacam a juventude – drogas, consumismo, males da Internet, sedução. Os primeiros responsáveis que deveriam estar muito interessados em apoiar a escola são as próprias famílias, os próprios pais; e olha quanta omissão, inconsciência e inconsistência, Em todo canto existe certo conformismo, certo comodismo, onde nós esperamos que os outros resolvam pra nós. Aí está o problema”.

 

Participação de padres e demais religiosos na política partidária

Diante da pergunta do Jornal e Portal CCO sobre o envolvimento da igreja e/ou de sacerdotes em movimentos políticos ligados a ideologias, assim como a participação em política partidária, o bispo respondeu que a Igreja não aconselha essa prática. “Nós não aconselhamos, não recomendamos e fazemos tudo para impedir padres de entrarem diretamente em funções políticas partidárias. Não podemos permitir porque nós, como igreja, devemos ajudar na formação. Nossa função é preparar ou ajudar, dar ao leigo as condições para ele assumir. Quando o padre assume o lugar do leigo, primeiro estamos perdendo alguém que iria fazer outras coisas que os leigos não podem fazer”, ressalta.

Dom Aristeu relatou que acontecem reações quando um sacerdote se manifesta contra a desigualdade, contra a corrupção e fala de justiça. “Quando entramos nos problemas da sociedade e falamos disso, as pessoas dizem que não querem ouvir isso na igreja. Dizem: ‘Quero ouvir só o Evangelho’”. Diante desse comportamento, o bispo explica que o Evangelho existe para dar iluminação e ajudar a transformar a sociedade. Em síntese, o que a igreja prega é o Reino de Deus, a proposta de Jesus Cristo, que está no Evangelho. “Cristo entrou em sua sociedade, alertou sobre as coisas erradas, tentou chamar todos para o relacionamento fraterno, justo, respeitoso, acolhedor à diferença, sem inimizades, sem confrontos, sem guerra, sem maldade. É isso que a igreja tem que fazer. Não é só rezar. A igreja deve ser parceria na construção do bem-comum, fortalecer a cidadania. A igreja deve comunicar o evangelho, alimentar com a palavra, com os sacramentos. A finalidade é formar leigos que possam viver na sociedade os valores do Evangelho e, portanto, a Justiça, a solidariedade e a paz”.

No que se refere às ideologias de partidos políticos, ele diz que a igreja não defende mentalidades de direita e nem de esquerda. “Se a igreja fala de justiça, não quer dizer que ela é de esquerda. A bandeira da igreja é o Evangelho”, enfatiza.