Vende-se Apartamento

João Ferreira: o artesão que “faz o couro falar”

Publicada em: 19 de junho de 2019 às 13h53
Recortes do Tempo - Histórias de Arcos

(Matéria publicada pelo Jornal CCO impresso em 15/06/2019) - Edição 2005

Guasqueiro. É o ofício artesanal que usa como principal matéria-prima de seus trabalhos o couro cru. A palavra guasqueiro vem de guasca, que significa pedaço ou tira de couro cru, sendo o guasqueiro aquele que faz trançados e outros produtos exclusivamente com este material. É um trabalho artesanal pouco conhecido e que está quase extinto. Entretanto, algumas pessoas ainda preservam esse conhecimento, como é o caso de João Ferreira de Faria, de 74 anos.

João Ferreira é casado com Conceição Cândida Ferreira, com quem teve cinco filhos: Ricardo dos Santos Ferreira, Roberto Ferreira de Faria, Fábio Ferreira de Faria, Rosália Ferreira de Sá e João Paulo Ferreira. O casal também tem quatro netos e uma bisneta. Ele acredita que é a primeira pessoa a realizar esse tipo de trabalho no município e também é o único que vende arreios na cidade.

Em entrevista ao Jornal CCO, Sr. João contou que aprendeu a trabalhar com couro cru desmanchando e consertando peças estragadas. Um dia foi um rapaz à casa dele, que o pediu para restaurar uma Tala antiga que era de seu pai e que havia sido ruída por ratos. “Eu disse que nunca tinha feito esse trabalho, mas que poderia deixar. Aí eu ia desmanchando e tornava a fazer, desmanchava e fazia, até que peguei o jeito e acabei fazendo”, relembra. A partir daí, João Ferreira começou a aceitar serviços assim, até aprender de vez.

Sr. João foi pedreiro, servente e também trabalhou na zona rural. Há aproximadamente 20 anos ele começou a se dedicar integralmente ao trabalho artesanal em couro cru. Faz arreios, arreatas, tamboeiros, laços, cama trançada em quadro antigo, capas de celular, capas de fogão, capas de canivete, proteção para garrafa de uísque, bolsas, calçados, rabo de tatu, pinholas, broacas, barrigueiras, bainhas de facão, rédeas, correias, cintos, cinturões, precatas, soga, trovas, brochas, reios, cabeçada e cabrestos. Seus clientes são peões, fazendeiros e agricultores das cidades de Arcos, Formiga, Iguatama, Lagoa da Prata, Bom Despacho, Japaraíba, Luz e Santo Antônio do Monte.

Sr. João Ferreira raspando o couro

 

“Eu faço do couro, o couro falar”

O trabalho de Guasqueiro é minucioso, tudo é feito a mão. Sr João Ferreira compra o couro e deixa-o secar na sombra, o que demora, em média, 10 dias. E quando o couro está seco ele já pode ser trabalhado de várias formas. “Eu faço do couro, o couro falar”, disse Senhor João. Questionado sobre o significado da expressão, ele explicou que faz o couro falar porque ele pega o material em sua forma original e o transforma em arte.

Ele explicou que já tentou ensinar o trabalho para outras pessoas, porém, a maioria se entusiasma no início e quando começam a ver a dificuldade, desanimam e não continuam. Embora seja um trabalho detalhista e difícil, ele diz que o trabalho compensa e é valorizado. Sr. João tem muitos clientes e trabalha com gosto. “Eu tenho muito amor. São 30 anos ou mais. Eu quero continuar enquanto eu der conta”, disse, emocionado.

 

Estrada Real

A residência do artesão está localizada na rua Vico Xavier, também conhecida como Estrada Real. Segundo ele, esta rua antigamente chamava-se Estrada Real porque era o local onde se passava o gado, os carros de bois que vinham de outras cidades e também era o local onde passavam os bandeirantes.  

Em uma de suas memórias, João Ferreira se lembrou de certa época em que a raça de gado Zebu era muito valiosa no Brasil, e que muitas pessoas investiam no animal. Porém, em 1944, durante a Expozebu realizada em Uberaba, o presidente Getúlio Vargas disse que o animal valeria o que pesasse na balança, provocando a queda em seu valor de mercado. Segundo ele, em virtude disso, muitas pessoas em Arcos e no Brasil tiveram grandes prejuízos financeiros.